Preocupações filosóficas da Medicina

15.06.2007

Armando Porto no Congresso de Gastrenterologia e Endoscopia Digestiva
Por vezes, os doentes queixam-se mesmo sem sofrerem de nenhuma patologia. É o chamado «mal existencial» que resulta da percepção do ser humano de que é mortal. Foi sobre esta viagem entre a Filosofia e a Medicina que Armando Porto falou na abertura do Congresso Nacional de Gastrenterologia e Endoscopia Digestiva.
O XXVII Congresso Nacional de Gastrenterologia e Endoscopia Digestiva, que decorreu em Vilamoura entre os dias 6 e 9 deste mês, iniciou-se com uma conferência proferida por Armando Porto, professor jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, subordinada ao tema «Reflexões médico-filosóficas».
O ponto de partida da palestra foi o «mal existencial», relatado por alguns doentes aos seus clínicos, «mal» esse que se distingue do que é «somático e psíquico. É um sofrimento que resulta da maneira de encarar a existência humana com a sua finitude», afiançou Armando Porto.
No fundo, trata-se do encontro doloroso que cada pessoa tem com a sua condição humana em todo o seu aspecto universal e não particular e singular, ou seja, todos teremos o mesmo fim.
Lidar com estas indagações metafísicas da mente humana parecia, até agora, condição apenas destinada a filósofos, todavia, também os clínicos, e as pessoas em geral, têm de aprender a conviver com essas questões. «É a percepção dos nossos próprios limites que nos leva a interrogarmo-nos, como fazem os filósofos», frisou o professor de Coimbra.
Esses limites da existência humana são sempre lembrados a cada episódio de doença e, mesmo quando esta não é mortal, «curar nunca é o retorno ao estado inicial de saúde, é entrar numa nova saúde», afirmou Armando Porto, pois os momentos de doença deixam marcas na existência do indivíduo, obrigando-o a encarar irremediavelmente a perspectiva de que não é eterno.
São todas essas questões existenciais, que não se inscrevem no plano somático ou psíquico, que levam os médicos a ter de se interrogar e adoptar uma perspectiva que os aproximará dos filósofos.

«Estamos no meio de uma revolução»

Em consequência da evolução tecnológica registada nos últimos anos, Armando Porto afirmou: «Estamos, realmente no meio de uma revolução». Este conjunto de mudanças galopantes conferiu à Medicina, no século XIX, o estatuto de ciência e, mais recentemente, atingiu o apogeu tecnológico com «um desenvolvimento tal que mudou a nossa vida». Na prática do médico, este teve de se familiarizar com o facto de o diagnóstico deixar de ser exclusivamente clínico, tornando-se cada vez mais laboratorial, com terapêuticas que conheceram progressos capazes de salvar milhões de vidas.
Estes avanços levam ao aumento notório da longevidade, mas também induzem as pessoas em erro, levando-as a afirmar que «hoje se morre menos». «Esta é uma expressão ilusória de um fantasma estatístico, pois o que acontece é que cada indivíduo morre, e afinal todos morrerão, mas, em termos médios, todos morrem mais tarde», explicou o orador.
Esta situação não é facilmente encarada por um doente, ou pela sua família, para quem é difícil compreender que a vida humana tem limites. Com tantas técnicas e terapêuticas a prometerem resultados milagrosos, as pessoas apenas pensam que «a função do médico é curar, ou seja, combater a morte», disse Armando Porto. Nestas situações de maior fragilidade emocional resultante de patologias graves, as pessoas «não querem aceitar que haja doenças incuráveis».
Todavia, o docente foi claro ao afirmar que «não é a morte que temos de vencer, mas sim o medo que temos dela», e que a vida é para ser vivida de forma plena, aceitando que a saúde é um estado precário que se faz e desfaz sequencialmente, com vários desvios ao longo da vida e sempre com o mesmo fim.
Toda esta evolução tecnológica mencionada pelo professor tem particular reflexo na Biologia que, através da Genética, tem tentado encontrar fundamentos e justificativos para os comportamentos humanos. Contudo, para Armando Porto esta perseguição da «igualdade factual dos homens» nega as «eventuais desigualdades da natureza», caracterizada na diferença genómica, que atribui a cada pessoa a sua singularidade. No entanto, «esta singularidade do doente e da doença parece contrariar o carácter da Medicina enquanto ciência universal», observou o palestrante, justificando que não há «duas doenças iguais nem dois tratamentos sobreponíveis para diferentes doentes».

Rita Vassal

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«Reunião principal dos gastrenterologistas»

Antes das palavras proferidas por Armando Porto, coube a Carlos Sofia, presidente do congresso, dar as boas-vindas aos participantes. O especialista lembrou que este evento é a «reunião principal dos gastrenterologistas portugueses» e que nela são tratados os mais variados temas, desde «as técnicas endoscópicas até à patologia do tracto gastrintestinal, do fígado, do pâncreas e das vias biliares».
Carlos Sofia evidenciou ainda que não é possível descurar as «íntimas conexões e interligações clínicas que a Gastrenterologia possui com outras especialidades ou disciplinas».
O programa científico do encontro também não pode passar ao lado do avanço tecnológico «espantoso» que se tem verificado nesta especialidade, sobretudo no campo da virologia molecular e da Genética. Mas para que tal aconteça, é preciso apostar na investigação, como sublinhou o presidente do congresso na sua intervenção, aludindo às sessões formativas e de debate que se iriam realizar.

TM 1.º CADERNO de 2007.06.18
0712491C22107RV24C


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