Cuidados necessitam de articulação
22.06.2007
VI Congresso Português de Psico-Oncologia
O V Congresso Português de Psico-Oncologia chamou a atenção para a necessidade de criar uma rede de cuidados psico-oncológicos. Apesar de existirem equipas a trabalhar, são poucos os grupos organizados e não tem sido estabelecida articulação entre os vários profissionais no terreno.
A Psico-Oncologia é uma área clínica relativamente recente e o seu estudo foi avançando com a evolução da abordagem oncológica. «Em Portugal, existem actualmente muitas pessoas interessadas e a trabalhar nesta área, algumas fazem-no a título voluntário. Começam a nascer unidades em alguns serviços, mas de uma maneira pouco sistematizada, com algumas dificuldades de aceitação e de forma insuficiente para responder às necessidades», explicou Emília Albuquerque, à margem do VI Congresso de Português de Psico-Oncologia, a que presidiu, e que decorreu de 15 a 16 de Junho, em Coimbra. No entanto, sublinhou, a realização deste evento revelou que «estamos a caminhar no sentido de um trabalho estruturado».
A organização destes serviços foi, justamente, o tema analisado na mesa «Apoio psicossocial: Que organização?», onde foram apresentadas experiências em curso, dificuldades e desafios à organização e implementação de serviços de Psico-Oncologia.
Rosa Grangeia, da Unidade de Psico-Oncologia do Serviço de Psiquiatria do Hospital de S. João (Porto), falou das mudanças verificadas com a passagem deste hospital a EPE. Aprovada há dois meses pelo conselho de administração do hospital, a Unidade de Psico-Oncologia pretende, de acordo com a especialista, resolver aspectos negativos do trabalho que vinha a ser desenvolvido nos últimos anos, nomeadamente a referenciação tardia para consulta — «mais de 24 meses após o diagnóstico oncológico» — e a comunicação interdisciplinar.
Intervenção precoce
«Pretendemos uma avaliação mais precoce das situações de co-morbilidade, para que a referenciação à consulta seja também mais atempada», sustentou Rosa Grangeia, acrescentando que os psicólogos da Oncologia Média vão participar na realização de um screening precoce, encaminhando os casos necessários para consulta de Psico-Oncologia.
A formação de internos e a optimização de recursos envolvidos na avaliação e acompanhamento psicológico e psiquiátrico dos doentes oncológicos, bem como a coordenação e melhoria de interacção entre os diversos elementos do staff — primeiramente Psiquiatria, Psicologia e Oncologia Médica, e depois outras especialidades — são outros objectivos daquela unidade. «Pretendemos que haja uma intervenção multidisciplinar e o rastreio das situações de distress psicológico, visando o diagnóstico mais precoce, mais qualidade assistencial e bem-estar do doente oncológico», sustentou Rosa Grangeia, notando que, ao fim de um ano, o projecto será avaliado.
Entraves
Lúcia Monteiro, do Núcleo de Oncologia Psicossocial do IPO de Lisboa, reparou que apenas nos IPO existem equipas diferenciadas de Psico-Oncologia, com psiquiatras, psicólogos e outros profissionais a trabalhar exclusivamente nesta área. «Se existe uma rede nacional de cuidados oncológicos, não existe uma rede nacional de cuidados psico-oncológicos, pelo menos no conceito de complementaridade».
Para a psiquiatra, esta fase deve ser de «prospecção e de caracterização», com o levantamento das necessidades psicológicas e sociais dos doentes, dos profissionais no terreno — «sabemos que existem pessoas a trabalhar sozinhas em centros de saúde e em hospitais distritais, sem qualquer articulação com centros da plataforma A» —, da existência de equipas e da forma como se organizam e interligam. Para Lúcia Monteiro, «a Academia de Psico-Oncologia tem o papel primordial de dinamizar esta comunicação entre os profissionais que já trabalham ou que são candidatos a trabalhar nesta área».
«A tradição da Medicina curativa, em detrimento da preventiva, uma rede de cuidados primários insuficiente e a ainda escassa formação dos clínicos gerais na dimensão psicossocial do doente, a falta de tradição de cuidados paliativos ao nível da comunidade, o número reduzido de psicólogos na área da Saúde — indicador de como a Medicina não contempla o screening e a prevenção —, e a deficiente formação médica em Psicologia da Saúde» são, no entender de Lúcia Monteiro, alguns entraves à aplicação das guidelines americanas da Psico-Oncologia.
No segundo dia do congresso, reuniram-se todos os grupos de Psico-Oncologia representados na reunião, com o objectivo de inventariar as necessidades sentidas a nível nacional e delinear actividades.
Alice Oliveira
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Resposta psicológica e sobrevida
O mote para o VI Congresso Português de Psico-Oncologia foi dado pela conferência da convidada de honra, Maggie Watson. A consultora de Psicologia Clínica do Royal Marsden Hospital, em Londres (Reino Unido), falou sobre a influência da resposta psicológica na sobrevida do doente oncológico, analisando os mecanismos que podem estar por detrás dessa relação.
«É um dado adquirido que a resposta psicológica do doente afecta a sobrevida e que as intervenções psicossociais melhoram a qualidade de vida, o bem-estar psicológico, entre outros aspectos», referiu Emília Albuquerque, presidente do congresso. Por outro lado, e rebatendo argumentos financeiros para não investir neste tipo de serviços, estão igualmente demonstrados ganhos em termos económicos (menor consumo de recursos de saúde, absentismo, etc.), acrescentou.
Reunindo especialistas da Psico-Oncologia, o congresso discutiu temas ligados à comunicação com o doente, à organização dos serviços, à interdisciplinaridade das equipas, ao controlo de sintomas e à espiritualidade nos doentes oncológicos, particularmente na fase avançada da doença.
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A importância da comunicação, segundo Rui Mota Cardoso
Valor terapêutico da relação médico/doente
Como é que a relação com o doente pode ser terapêutica? Foi a esta questão que tentou responder Rui Mota Cardoso, professor de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina do Porto. Esclarecendo que «o que é terapêutico também pode fazer mal» e ter até efeitos «tóxicos», o investigador do Ipatimup classificou o médico, na sua totalidade, como um «instrumento de diagnóstico e terapia». Com efeito, explicou, «o resultado final do que eu sou hoje - do que sei, das minhas habilidades, atitudes, história pessoal, emoções e personalidade - é o instrumento de que disponho para fazer diagnóstico e terapêutica. Se eu o usar bem, posso ser eficaz».
Para Rui Mota Cardoso, o indivíduo doente não tem apenas uma doença, objectiva, está também dolente, ou seja, «sente-se doente, diminuído, frágil, vulnerável», física e psicologicamente. «A arte médica é saber não só tratar a doença, mas também cuidar da dolência», sublinhou.
No entender do especialista, ajudar o doente a lutar pela sua integridade é ajudá-lo a sentir-se seguro, a controlar a situação, a decidir, e tudo isto pressupõe comunicação. E nesta nem sempre tudo corre como devia. «É curioso que passamos horas — mesmo os psiquiatras — a fazer perguntas aos doentes, mas a não deixar que se exprimam, a pedir respostas e não narrativas, ou seja, a não permitir a expressão».
«O médico que seja capaz, na relação médico-doente, de ajudar a manejar processos de stress, depressão, ansiedade e comportamentos mal-adaptativos, tem um efeito terapêutico». O significado que é atribuído à doença e a atitude do médico são agentes de mudança poderosos. «A paciência, a tolerância, o interesse, a empatia, o comprometimento, o cuidar, a sabedoria, são atitudes indispensáveis para que o doente confie no médico».
Para Rui Mota Cardoso, «ajudar o doente a lutar pelo seu próprio estado de dolência é a atitude mais fundamental de todas as capacidades médicas». Como é que os médicos seriam instrumentos de terapia? Providenciando aconselhamento, ajudando o manuseio do stress, ajudando a resolver problemas, a criar estratégias de coping, respondendo às emoções, modificando atitudes mal-adaptativas, tratando a ansiedade e a depressão, através de estratégias cognitivas, afectivas e comportamentais.
O docente da FMUP considerou que a comunicação médico-doente é ainda pouco ensinada nas faculdades, «como se nascesse depois». A moderar a conferência, Helena Gervásio, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), concordou que esse é um «ponto muito fraco da formação médica» e notou que a SPO tem organizado alguns cursos destinados a oncologistas.
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Rede de referenciação
Na conferência «Apoio psicossocial: Que organização?», coube a José Eufrásio, director clínico do IPO de Coimbra, apresentar a Rede de Referenciação Oncológica Nacional. O cirurgião maxilo-facial considerou que, em Oncologia, além das decisões terapêuticas deverem ser tomadas por equipas multidisciplinares, «é imprescindível que as unidades prestadoras de cuidados oncológicos interajam de modo estruturado, dada a impossibilidade da vastidão de conhecimentos e de técnicas associadas a tratamentos oncológicos serem abarcados na totalidade por uma instituição isolada». «Abordagem, estudo e tratamento requerem meios complementares caros, são processos complexos e onerosos, é importante que as coisas estejam regulamentadas para que não haja sobreposição de meios», acrescentou.
A Rede de Referenciação Oncológica existe formalmente desde Janeiro de 2002 e pretende regular as relações de complementaridade e de apoio técnico, de modo a garantir o acesso de todos os doentes aos serviços de unidades prestadoras de cuidados de saúde na área da Oncologia.
O director clínico do IPO de Coimbra distinguiu dois níveis de prestação de cuidados oncológicos: um de proximidade e outro que se distingue pela diferenciação técnica. O primeiro inclui centros de saúde e hospitais não especializados, com um papel importante na «prevenção, na participação do rastreio, no diagnóstico precoce, na orientação dos casos suspeitos, no acompanhamento dos doentes ao longo das diferentes fases da doença e na participação do registo oncológico». Já o nível especializado inclui os hospitais ou unidades hospitalares que se organizam num modelo de três plataformas de diagnóstico e tratamento: C, B e A. Sendo a C, a plataforma dos hospitais mais periféricos; a B, dos hospitais centrais e centros regionais do IPO; a A, exclusivamente os centros do IPO.
Estes têm como função promover e fomentar a prevenção primária e secundária; o diagnóstico e o tratamento da patologia oncológica, nomeadamente de tumores que exigem tecnologia mais complexa; integram serviços de Oncologia médica e radioterapia; têm a responsabilidade de actuar como suporte técnico das restantes plataformas; são responsáveis pela organização da luta contra o cancro a nível nacional; têm a responsabilidade de formação contínua dos profissionais das diferentes plataformas, bem como de discussão e elaboração de protocolos clínicos; coordenam acções de rastreio oncológico, de ensino pós-graduado em Oncologia e o registo oncológico. São, neste momento, «o topo do sistema, tendo a responsabilidade de se assumir como instituição de fim de linha na luta contra o cancro», frisou José Eufrásio.
TM 1.º CADERNO de 2007.06.25
0712501C32107AO25A
A Psico-Oncologia é uma área clínica relativamente recente e o seu estudo foi avançando com a evolução da abordagem oncológica. «Em Portugal, existem actualmente muitas pessoas interessadas e a trabalhar nesta área, algumas fazem-no a título voluntário. Começam a nascer unidades em alguns serviços, mas de uma maneira pouco sistematizada, com algumas dificuldades de aceitação e de forma insuficiente para responder às necessidades», explicou Emília Albuquerque, à margem do VI Congresso de Português de Psico-Oncologia, a que presidiu, e que decorreu de 15 a 16 de Junho, em Coimbra. No entanto, sublinhou, a realização deste evento revelou que «estamos a caminhar no sentido de um trabalho estruturado».
A organização destes serviços foi, justamente, o tema analisado na mesa «Apoio psicossocial: Que organização?», onde foram apresentadas experiências em curso, dificuldades e desafios à organização e implementação de serviços de Psico-Oncologia.
Rosa Grangeia, da Unidade de Psico-Oncologia do Serviço de Psiquiatria do Hospital de S. João (Porto), falou das mudanças verificadas com a passagem deste hospital a EPE. Aprovada há dois meses pelo conselho de administração do hospital, a Unidade de Psico-Oncologia pretende, de acordo com a especialista, resolver aspectos negativos do trabalho que vinha a ser desenvolvido nos últimos anos, nomeadamente a referenciação tardia para consulta — «mais de 24 meses após o diagnóstico oncológico» — e a comunicação interdisciplinar.
Intervenção precoce
«Pretendemos uma avaliação mais precoce das situações de co-morbilidade, para que a referenciação à consulta seja também mais atempada», sustentou Rosa Grangeia, acrescentando que os psicólogos da Oncologia Média vão participar na realização de um screening precoce, encaminhando os casos necessários para consulta de Psico-Oncologia.
A formação de internos e a optimização de recursos envolvidos na avaliação e acompanhamento psicológico e psiquiátrico dos doentes oncológicos, bem como a coordenação e melhoria de interacção entre os diversos elementos do staff — primeiramente Psiquiatria, Psicologia e Oncologia Médica, e depois outras especialidades — são outros objectivos daquela unidade. «Pretendemos que haja uma intervenção multidisciplinar e o rastreio das situações de distress psicológico, visando o diagnóstico mais precoce, mais qualidade assistencial e bem-estar do doente oncológico», sustentou Rosa Grangeia, notando que, ao fim de um ano, o projecto será avaliado.
Entraves
Lúcia Monteiro, do Núcleo de Oncologia Psicossocial do IPO de Lisboa, reparou que apenas nos IPO existem equipas diferenciadas de Psico-Oncologia, com psiquiatras, psicólogos e outros profissionais a trabalhar exclusivamente nesta área. «Se existe uma rede nacional de cuidados oncológicos, não existe uma rede nacional de cuidados psico-oncológicos, pelo menos no conceito de complementaridade».
Para a psiquiatra, esta fase deve ser de «prospecção e de caracterização», com o levantamento das necessidades psicológicas e sociais dos doentes, dos profissionais no terreno — «sabemos que existem pessoas a trabalhar sozinhas em centros de saúde e em hospitais distritais, sem qualquer articulação com centros da plataforma A» —, da existência de equipas e da forma como se organizam e interligam. Para Lúcia Monteiro, «a Academia de Psico-Oncologia tem o papel primordial de dinamizar esta comunicação entre os profissionais que já trabalham ou que são candidatos a trabalhar nesta área».
«A tradição da Medicina curativa, em detrimento da preventiva, uma rede de cuidados primários insuficiente e a ainda escassa formação dos clínicos gerais na dimensão psicossocial do doente, a falta de tradição de cuidados paliativos ao nível da comunidade, o número reduzido de psicólogos na área da Saúde — indicador de como a Medicina não contempla o screening e a prevenção —, e a deficiente formação médica em Psicologia da Saúde» são, no entender de Lúcia Monteiro, alguns entraves à aplicação das guidelines americanas da Psico-Oncologia.
No segundo dia do congresso, reuniram-se todos os grupos de Psico-Oncologia representados na reunião, com o objectivo de inventariar as necessidades sentidas a nível nacional e delinear actividades.
Alice Oliveira
...CAIXA...
Resposta psicológica e sobrevida
O mote para o VI Congresso Português de Psico-Oncologia foi dado pela conferência da convidada de honra, Maggie Watson. A consultora de Psicologia Clínica do Royal Marsden Hospital, em Londres (Reino Unido), falou sobre a influência da resposta psicológica na sobrevida do doente oncológico, analisando os mecanismos que podem estar por detrás dessa relação.
«É um dado adquirido que a resposta psicológica do doente afecta a sobrevida e que as intervenções psicossociais melhoram a qualidade de vida, o bem-estar psicológico, entre outros aspectos», referiu Emília Albuquerque, presidente do congresso. Por outro lado, e rebatendo argumentos financeiros para não investir neste tipo de serviços, estão igualmente demonstrados ganhos em termos económicos (menor consumo de recursos de saúde, absentismo, etc.), acrescentou.
Reunindo especialistas da Psico-Oncologia, o congresso discutiu temas ligados à comunicação com o doente, à organização dos serviços, à interdisciplinaridade das equipas, ao controlo de sintomas e à espiritualidade nos doentes oncológicos, particularmente na fase avançada da doença.
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A importância da comunicação, segundo Rui Mota Cardoso
Valor terapêutico da relação médico/doente
Como é que a relação com o doente pode ser terapêutica? Foi a esta questão que tentou responder Rui Mota Cardoso, professor de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina do Porto. Esclarecendo que «o que é terapêutico também pode fazer mal» e ter até efeitos «tóxicos», o investigador do Ipatimup classificou o médico, na sua totalidade, como um «instrumento de diagnóstico e terapia». Com efeito, explicou, «o resultado final do que eu sou hoje - do que sei, das minhas habilidades, atitudes, história pessoal, emoções e personalidade - é o instrumento de que disponho para fazer diagnóstico e terapêutica. Se eu o usar bem, posso ser eficaz».
Para Rui Mota Cardoso, o indivíduo doente não tem apenas uma doença, objectiva, está também dolente, ou seja, «sente-se doente, diminuído, frágil, vulnerável», física e psicologicamente. «A arte médica é saber não só tratar a doença, mas também cuidar da dolência», sublinhou.
No entender do especialista, ajudar o doente a lutar pela sua integridade é ajudá-lo a sentir-se seguro, a controlar a situação, a decidir, e tudo isto pressupõe comunicação. E nesta nem sempre tudo corre como devia. «É curioso que passamos horas — mesmo os psiquiatras — a fazer perguntas aos doentes, mas a não deixar que se exprimam, a pedir respostas e não narrativas, ou seja, a não permitir a expressão».
«O médico que seja capaz, na relação médico-doente, de ajudar a manejar processos de stress, depressão, ansiedade e comportamentos mal-adaptativos, tem um efeito terapêutico». O significado que é atribuído à doença e a atitude do médico são agentes de mudança poderosos. «A paciência, a tolerância, o interesse, a empatia, o comprometimento, o cuidar, a sabedoria, são atitudes indispensáveis para que o doente confie no médico».
Para Rui Mota Cardoso, «ajudar o doente a lutar pelo seu próprio estado de dolência é a atitude mais fundamental de todas as capacidades médicas». Como é que os médicos seriam instrumentos de terapia? Providenciando aconselhamento, ajudando o manuseio do stress, ajudando a resolver problemas, a criar estratégias de coping, respondendo às emoções, modificando atitudes mal-adaptativas, tratando a ansiedade e a depressão, através de estratégias cognitivas, afectivas e comportamentais.
O docente da FMUP considerou que a comunicação médico-doente é ainda pouco ensinada nas faculdades, «como se nascesse depois». A moderar a conferência, Helena Gervásio, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), concordou que esse é um «ponto muito fraco da formação médica» e notou que a SPO tem organizado alguns cursos destinados a oncologistas.
...CAIXA...
Rede de referenciação
Na conferência «Apoio psicossocial: Que organização?», coube a José Eufrásio, director clínico do IPO de Coimbra, apresentar a Rede de Referenciação Oncológica Nacional. O cirurgião maxilo-facial considerou que, em Oncologia, além das decisões terapêuticas deverem ser tomadas por equipas multidisciplinares, «é imprescindível que as unidades prestadoras de cuidados oncológicos interajam de modo estruturado, dada a impossibilidade da vastidão de conhecimentos e de técnicas associadas a tratamentos oncológicos serem abarcados na totalidade por uma instituição isolada». «Abordagem, estudo e tratamento requerem meios complementares caros, são processos complexos e onerosos, é importante que as coisas estejam regulamentadas para que não haja sobreposição de meios», acrescentou.
A Rede de Referenciação Oncológica existe formalmente desde Janeiro de 2002 e pretende regular as relações de complementaridade e de apoio técnico, de modo a garantir o acesso de todos os doentes aos serviços de unidades prestadoras de cuidados de saúde na área da Oncologia.
O director clínico do IPO de Coimbra distinguiu dois níveis de prestação de cuidados oncológicos: um de proximidade e outro que se distingue pela diferenciação técnica. O primeiro inclui centros de saúde e hospitais não especializados, com um papel importante na «prevenção, na participação do rastreio, no diagnóstico precoce, na orientação dos casos suspeitos, no acompanhamento dos doentes ao longo das diferentes fases da doença e na participação do registo oncológico». Já o nível especializado inclui os hospitais ou unidades hospitalares que se organizam num modelo de três plataformas de diagnóstico e tratamento: C, B e A. Sendo a C, a plataforma dos hospitais mais periféricos; a B, dos hospitais centrais e centros regionais do IPO; a A, exclusivamente os centros do IPO.
Estes têm como função promover e fomentar a prevenção primária e secundária; o diagnóstico e o tratamento da patologia oncológica, nomeadamente de tumores que exigem tecnologia mais complexa; integram serviços de Oncologia médica e radioterapia; têm a responsabilidade de actuar como suporte técnico das restantes plataformas; são responsáveis pela organização da luta contra o cancro a nível nacional; têm a responsabilidade de formação contínua dos profissionais das diferentes plataformas, bem como de discussão e elaboração de protocolos clínicos; coordenam acções de rastreio oncológico, de ensino pós-graduado em Oncologia e o registo oncológico. São, neste momento, «o topo do sistema, tendo a responsabilidade de se assumir como instituição de fim de linha na luta contra o cancro», frisou José Eufrásio.
TM 1.º CADERNO de 2007.06.25
0712501C32107AO25A
Cuidados necessitam de articulação