Capacidade para formar «largamente excedida»

22.06.2007

João Real Dias favorável a maior controlo de vagas para o internato de Urologia
A estrutura dos serviços de Urologia não é suficiente para formar os internos desta especialidade, pelo que é o próprio João Real Dias que diz ser preciso limitar as vagas. Por outro lado, um dos problemas apontados pelos internos refere-se aos perigos da formação em hospitais EPE.
A capacidade de formação de urologistas é insuficiente para o número actual de internos. O alerta foi dado pelo presidente do Colégio da Especialidade de Urologia da Ordem dos Médicos, João Real Dias, durante o Congresso da Associação Portuguesa de Urologia, realizado entre 7 e 9 de Junho, em Vilamoura. O especialista referiu que «a capacidade formativa dos serviços está largamente excedida», defendendo mesmo que «tem de haver maior controlo na abertura de vagas do internato».
É que, conforme salientou, «a capacidade formativa do País para Urologia está calculada em 53 internos», mas «neste momento estão 83» médicos no internato desta especialidade. Só este ano, segundo os dados apresentados pelo especialista, entraram 18 internos para formação nesta área. O responsável acrescentou ainda que «o Norte e o Sul são os privilegiados, com 32 e 38 [internos], respectivamente», tendo a região Centro 13 médicos em formação. Das três regiões, João Real Dias indicou que «a do Centro é a que se aproxima mais da capacidade formativa real».
O primeiro sinal de que pode não existir um controlo efectivo das vagas para o internato de Urologia reside, porventura, na própria origem dos dados. O perito esclareceu que este «número [de internos], muitíssimo maior» do que se esperava, foi obtido através de uma recolha feita «no terreno». E informou que o Colégio da Especialidade de Urologia pediu informações ao Ministério da Saúde «e o número indicado foi de 62 internos». Assim, João Real Dias concluiu que o próprio Ministério não sabe «o que há».

238 urologistas para formar 83 internos

O retrato da realidade apresentado por João Real Dias, no que toca à própria especialidade, também não é animador. Apesar de haver um urologista para cada 32 mil habitantes, o que não é «nada mau», de acordo com o responsável, é certo que existem 238 urologistas no SNS, um universo porventura escasso para formar os internos existentes.
A par desta situação, está também o facto de os especialistas terem idades já bastante avançadas. Pelos números dados a conhecer, a média de idades dos especialistas em Urologia em Portugal fixa-se em 51,7 anos, o que é considerado por João Real Dias «elevado». Mas «o mais grave» é que «46% dos urologistas têm mais de 55 anos, 11% têm mais de 65 anos e 6% mais de 70 anos». A complicar as contas, está ainda o facto de a distribuição dos profissionais pelo território não ser homogénea, sendo que em Lisboa e no Porto estão concentrados 85% dos urologistas.
A estrutura das unidades também apresenta alguns constrangimentos. Os serviços existentes no País (55) são até em número «exagerado» para João Real Dias, mas, de entre estes, 22 contam com a «presença de menos de três especialistas» e 10 têm «entre três e cinco especialistas». A juntar a isto há ainda a considerar o facto de os dados apresentados pelo responsável revelarem que o número de serviços com idoneidade formativa total se fixa em 14.

Fim das carreiras «arrasa estímulo»

Paulo Azinhais, interno de Urologia no Centro Hospitalar de Coimbra, unidade com o estatuto de entidade pública empresarial (EPE), chamou a atenção para algumas «ameaças» que a formação nos hospitais EPE pode comportar. O jovem médico deteve-se sobretudo no facto de que «o fim das carreiras médicas arrasa o estímulo para se ser orientador», afirmando mesmo que, face às exigências nas EPE, o interno pode ser visto pelos especialistas como «um «empecilho» à sua actividade.
Sendo certo que, como recordou Paulo Azinhais, a «maioria da formação» é actualmente feita em hospitais EPE, na sua opinião estas unidades «têm poucos estímulos à formação», o que pode levar à ameaça de os internos serem vistos como «um encargo orçamental acrescido». Outro dos possíveis problemas apontados pelo jovem médico foi a possibilidade de contratação de internos «em função de défices dos serviços».

Susana Ribeiro Rodrigues

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O «terceiro momento» da Medicina

«A arte da transplantação» foi o tema da conferência de Alfredo Mota, presidente da comissão organizadora do congresso. O urologista sublinhou que a transplantação é considerada «o terceiro momento da Medicina», atrás da descoberta da penicilina e da vacina contra a poliomielite. Isto porque a história da transplantação proporcionou avanços que «não foram só relevantes para tratar os doentes», mas também proporcionaram o desenvolvimento de áreas como a Bioengenharia, a Imagiologia, a Cirurgia, a Anestesiologia e a Genética.
Recordando a longa história de insucessos até ao primeiro êxito na transplantação renal em irmãos gémeos feita pelo inglês John Murray, em 1968, Alfredo Mota sublinhou que a transplantação de órgãos e tecidos é uma área de que os urologistas «têm muito orgulho». Mas fez questão de recordar «o célebre princípio» de Roy Calne, segundo o qual «receber um órgão é um privilégio, não um direito». Um princípio que «deve estar na mente de médicos e doentes».

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É preciso formação estruturada em laparoscopia

Os internos de Urologia estão preocupados com o ensino da Cirurgia laparoscópica. O tema foi também abordado no âmbito do fórum sobre «O presente e o futuro da Urologia em Portugal», no Congresso da APU, e sobre o assunto Pedro Nunes, interno desta especialidade, afirmou que «há necessidade absoluta de estabelecimento de programas de formação padronizados».
O médico questionou se a formação actual «será suficiente para uma prática segura e eficaz». Isto porque «ao contrário do que seria de esperar» não existe «cirurgia real todos os dias» e esta situação faz com que haja «menor capacidade para ensinar». De facto, os resultados do «Inquérito nacional de laparoscopia», um estudo efectuado pela APU e apresentado no congresso por Mafalda Melo, também ela interna de Urologia, permitem verificar que apesar de 70% dos inquiridos já ter realizado ou participado numa cirurgia laparascópica «a maioria» destes «realizou menos de 10 procedimentos de cada tipo de cirurgia».
Pedro Nunes acredita que não se está perante «um novo paradigma de formação», mas insistiu nas características especiais de uma técnica de aprendizagem que exige «gestão racional».
A falta de casuística e a ausência de planos de formação estruturados não podem ser uma desculpa para deixar médicos de fora da formação em laparoscopia. Conforme sublinhou Carlos Silva, outro dos internos que participaram na sessão, a oportunidade de aprender esta técnica deve ser dada «a todos», até porque «ainda não existe um método» que avalie se um indivíduo tem, ou não, capacidade para a praticar. Além disso, o médico indicou que deve haver um «contacto precoce com as técnicas». Uma ideia que é, de certa forma, corroborada pelo inquérito, visto que a maioria dos inquiridos afirmou que a laparoscopia deve ser de ensino obrigatório no internato médico.

TM 1.º CADERNO de 2007.06.25
0712501C34107SR25c

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