Desafios da «revolução demográfica»
29.06.2007
1.º Congresso Nacional do Idoso
Os idosos, outrora uma faixa etária residual no conjunto da população, estão a ganhar cada vez mais peso nas sociedades modernas. O director do Serviço de Reumatologia do Hospital de Garcia de Orta, José Canas da Silva, assinalou que «pela primeira vez na história da Humanidade há mais pessoas com mais de 65 anos do que pessoas com menos de 15 anos». E são os desafios do que classificou como a «revolução demográfica que está em curso» que acabam por ser a razão primordial que justificou a realização do 1.º Congresso Nacional do Idoso, que teve lugar em Lisboa, a 21 e 22 de Junho.
Para o também presidente da comissão organizadora, o papel dos médicos perante esta realidade é a de «dar cada vez mais atenção» a algo que «João Lobo Antunes diz que é a “compressão da morbilidade”». Assim, o especialista afirmou que «é indispensável» que os profissionais dêem mais ênfase à redução do «período de saúde precária que antecede a morte». O desenvolvimento da investigação científica ligada a esta área da saúde surge, então, como uma forma de assegurar às pessoas «uma vida profundamente activa e implicada com o mundo que nos rodeia».
Uma coisa parece certa para o reumatologista: «Este é o futuro». Trata-se, portanto, de um futuro em que não se pode «prescindir dos seniores da sociedade» e, por isso, cabe aos profissionais de saúde integrarem-se «neste movimento».
Alterações já se iniciaram
Considerando que este novo padrão demográfico está «neste momento a “entrar” pelos olhos dos políticos», José Canas da Silva fez questão de salientar no seu discurso, na sessão de abertura, que, também por isso, se começam a verificar «alterações nas políticas da Saúde e da Segurança Social, entre outras».
Em matéria de mudança nas políticas de Saúde foi Inês Guerreiro, coordenadora da Unidade de Missão da Rede de Cuidados Continuados Integrados (RCCI) e representante do Ministério da Saúde (MS) no congresso, que fez questão de sublinhar que face a «esta nova realidade demográfica e epidemiológica», a organização dos cuidados não podia ficar na mesma. Na sua opinião, não se pode continuar com a «abordagem tradicional», até porque as mudanças não foram apenas na estrutura etária da população, «mudaram as suas exigências», para além de que «as perspectivas também são outras».
Por isso, Inês Guerreiro frisou o «apoio transversal» que está a ser dado com a RCCI, através do trabalho conjunto do MS e do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social. Para a responsável, esta «intersectorialidade» é importante, na medida em que «a saúde é uma composição» que incorpora diversos aspectos que, conjuntamente, «poderão garantir um melhor bem-estar» a todos os que precisam de cuidados.
A sessão de abertura juntou ainda na mesa a representante do bastonário da Ordem dos Médicos, Isabel Caixeiro, a representante da alta-comissária da Saúde, Rita Magalhães Colaço, o representante da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral, Eduardo Mendes, para além de Daniel Serrão e Álvaro de Carvalho, respectivamente, presidente e moderador da conferência inaugural proferida por José Hermano Saraiva.
S.R.R.
...CAIXA...
Sem tempo para envelhecer
Convidado de honra no 1.º Congresso Nacional do Idoso, José Hermano Saraiva, historiador e jurista, foi falar na primeira pessoa sobre o que é envelhecer. O também apresentador de programas de televisão cuja temática é a História, afirmou, então, que «para tudo é preciso tempo», pelo que «para envelhecer também é preciso tempo». Por isso, esclareceu: «Trabalho tanto que não me é possível envelhecer».
Enaltecendo que, apesar de todos os progressos, o mundo ainda não conseguiu «abolir o tempo», José Hermano Saraiva chamou a atenção para o facto de que «o suplício que antes vinha do trabalho poderá vir agora do lazer». Isto porque nos países mais desenvolvidos está a substituir-se «a sociedade de trabalho pela sociedade do lazer».
Trata-se, para o orador, do surgimento de «um mundo de concepções diferentes». No entanto, «o que pensa o tal idoso» é que se vive «no mundo de hoje», mas sempre com tendência «a vivê-lo com ideias do mundo de ontem».
Fazendo a analogia de que a «idade é semelhante a uma escada» em que «quanto mais se sobe, mais ao longe se avista», José Hermano Saraiva afirmou que «cada estádio é apenas um degrau na escada». Assim, na sua opinião, «é uma ideia errada» pensar que «cada estádio representa um progresso em relação ao anterior». Mas uma coisa é certa para o palestrante: «Os idosos têm alguma coisa a dizer».
TM 1.º CADERNO de 2007.07.02
0712511C24607SR25G
Para o também presidente da comissão organizadora, o papel dos médicos perante esta realidade é a de «dar cada vez mais atenção» a algo que «João Lobo Antunes diz que é a “compressão da morbilidade”». Assim, o especialista afirmou que «é indispensável» que os profissionais dêem mais ênfase à redução do «período de saúde precária que antecede a morte». O desenvolvimento da investigação científica ligada a esta área da saúde surge, então, como uma forma de assegurar às pessoas «uma vida profundamente activa e implicada com o mundo que nos rodeia».
Uma coisa parece certa para o reumatologista: «Este é o futuro». Trata-se, portanto, de um futuro em que não se pode «prescindir dos seniores da sociedade» e, por isso, cabe aos profissionais de saúde integrarem-se «neste movimento».
Alterações já se iniciaram
Considerando que este novo padrão demográfico está «neste momento a “entrar” pelos olhos dos políticos», José Canas da Silva fez questão de salientar no seu discurso, na sessão de abertura, que, também por isso, se começam a verificar «alterações nas políticas da Saúde e da Segurança Social, entre outras».
Em matéria de mudança nas políticas de Saúde foi Inês Guerreiro, coordenadora da Unidade de Missão da Rede de Cuidados Continuados Integrados (RCCI) e representante do Ministério da Saúde (MS) no congresso, que fez questão de sublinhar que face a «esta nova realidade demográfica e epidemiológica», a organização dos cuidados não podia ficar na mesma. Na sua opinião, não se pode continuar com a «abordagem tradicional», até porque as mudanças não foram apenas na estrutura etária da população, «mudaram as suas exigências», para além de que «as perspectivas também são outras».
Por isso, Inês Guerreiro frisou o «apoio transversal» que está a ser dado com a RCCI, através do trabalho conjunto do MS e do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social. Para a responsável, esta «intersectorialidade» é importante, na medida em que «a saúde é uma composição» que incorpora diversos aspectos que, conjuntamente, «poderão garantir um melhor bem-estar» a todos os que precisam de cuidados.
A sessão de abertura juntou ainda na mesa a representante do bastonário da Ordem dos Médicos, Isabel Caixeiro, a representante da alta-comissária da Saúde, Rita Magalhães Colaço, o representante da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral, Eduardo Mendes, para além de Daniel Serrão e Álvaro de Carvalho, respectivamente, presidente e moderador da conferência inaugural proferida por José Hermano Saraiva.
S.R.R.
...CAIXA...
Sem tempo para envelhecer
Convidado de honra no 1.º Congresso Nacional do Idoso, José Hermano Saraiva, historiador e jurista, foi falar na primeira pessoa sobre o que é envelhecer. O também apresentador de programas de televisão cuja temática é a História, afirmou, então, que «para tudo é preciso tempo», pelo que «para envelhecer também é preciso tempo». Por isso, esclareceu: «Trabalho tanto que não me é possível envelhecer».
Enaltecendo que, apesar de todos os progressos, o mundo ainda não conseguiu «abolir o tempo», José Hermano Saraiva chamou a atenção para o facto de que «o suplício que antes vinha do trabalho poderá vir agora do lazer». Isto porque nos países mais desenvolvidos está a substituir-se «a sociedade de trabalho pela sociedade do lazer».
Trata-se, para o orador, do surgimento de «um mundo de concepções diferentes». No entanto, «o que pensa o tal idoso» é que se vive «no mundo de hoje», mas sempre com tendência «a vivê-lo com ideias do mundo de ontem».
Fazendo a analogia de que a «idade é semelhante a uma escada» em que «quanto mais se sobe, mais ao longe se avista», José Hermano Saraiva afirmou que «cada estádio é apenas um degrau na escada». Assim, na sua opinião, «é uma ideia errada» pensar que «cada estádio representa um progresso em relação ao anterior». Mas uma coisa é certa para o palestrante: «Os idosos têm alguma coisa a dizer».
TM 1.º CADERNO de 2007.07.02
0712511C24607SR25G
Desafios da «revolução demográfica»