Ética «exige apoio especial» a doentes esquizofrénicos
06.07.2007
Marques-Teixeira defende a criação de «cuidados socioclínicos»
A esquizofrenia como doença crónica, que é necessário tratar «numa perspectiva de inclusão social», e como encargo económico e social, que urge gerir da melhor maneira, foram dois aspectos em debate no IV Colóquio Internacional de Esquizofrenia do Porto.
Estima-se que em Portugal existam entre 60 a 100 mil doentes esquizofrénicos, mas estes «ainda não dispõem de apoios suficientes». Além do tratamento médico, é ainda necessário que a recuperação destas pessoas «seja feita com uma perspectiva de inclusão social», disse João Marques-Teixeira, presidente do IV Colóquio Internacional de Esquizofrenia do Porto, encontro que decorreu a 22 e 23 de Junho, na Fundação de Serralves.
Falando na abertura do encontro, que reuniu 300 especialistas ligados ao tratamento e à reabilitação destes doentes, Marques-Teixeira apelou para a criação de «unidades de cuidados socioclínicos» onde estes doentes possam receber os tratamentos psiquiátricos «que a ética médica exige» e o «apoio especializado que lhes estimule competências para a inclusão social».
O também director da Unidade de Investigação em Saúde Mental e Psiquiatria do Centro Hospitalar do Conde de Ferreira defendeu que esta é «a forma mais adequada para atender à complexidade do adoecer esquizofrénico».
Relação custo-eficácia
Num encontro especialmente empenhado em debater a relação custo-eficácia das abordagens a esta patologia, Marques-Teixeira considerou que a esquizofrenia é uma das doenças que habitualmente mais contribuem para as despesas da Saúde nos países desenvolvidos, estimando-se os gastos em cerca de 1,9% do total do orçamento para a Saúde. O especialista acrescentou que, na maioria dos países, os custos directos com esta doença «representam um terço do total dos custos», sendo os restantes dois terços gastos com cuidadores informais e com os chamados custos indirectos.
Para explicar como é que o peso das doenças de longa duração, como é o caso da esquizofrenia, varia com o estado da economia, Marques-Teixeira salientou — citando estudos de Wagner — que, ao longo do século XX, cerca de 20% dos doentes com esquizofrenia admitidos em hospitais «recuperaram completamente, quando a economia não estava muito poluída», e que «cerca de 15 a 20%» acabavam por ter uma boa reputação social. «O que este autor nos diz — acrescentou o especialista —, é que em tempos difíceis de natureza económica as consequências de natureza política focam-se muito mais nos custos dos cuidados prestados do que na possibilidade da integração destes doentes nos quadros socioprofissionais alargados». Isto é, o peso global das doenças mentais de evolução prolongada «está muito dependente de dois vectores: por um lado, a estratégia de tratamento e, por outro, o aspecto de natureza económica das épocas sociais em que estes doentes vivem», reforçou.
Para o psiquiatra, esta é a nova realidade da Saúde Mental: «Hoje vivemos uma época de restrição de recursos e de pressões políticas que têm levado à pesquisa de novos modos de intervenção e do seu impacte quer no domínio clínico quer no domínio económico».
«Responder aos políticos»
«A esquizofrenia é uma doença a que se tem de prestar tanta atenção como ao cancro», disse Carole Siegel, especialista norte-americana que pronunciou a conferência de abertura, salientado a necessidade de «responder aos políticos» mostrando-lhes que faz sentido haver um financiamento adicional para esta doença.
A abordar o tema «O peso global da esquizofrenia: Medir a sua dimensão», a especialista defendeu a implementação de medidas que permitam comparar a carga económica e social desta com a de outras doenças, de modo a que se possa «diminuir este fardo».
«Precisamos de números que nos possam mostrar até que ponto a esquizofrenia está disseminada e uma correcta avaliação custo-eficácia da medicação», acrescentou Carole Siegel.
Ao abordar a incidência, a psiquiatra — e não havendo estudos entre nós — reportou-se a dados relativos a regiões próximas de Portugal, como, por exemplo, Espanha, onde uma amostra de doentes, na década de 80, extrapolada para 2006, mostrou que a prevalência da esquizofrenia é, em média, de «três por mil habitantes», embora variando com a idade dos doentes. Na mesma amostra o pico de prevalência situar-se-ia na faixa etária dos 30-44 anos, onde atingia 4,5 por mil.
Relativamente aos custos, notou que nos Estados Unidos estão a subir cerca de 15 milhões de dólares relativamente a 2005, embora seja «muito difícil» estudá-los. «Mesmo considerando a subida devida à inflação, os custos estão a subir sem se saber porquê», sublinhou ainda a especialista.
Manuel Morato
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Mulheres casadas são «doentes mais estáveis»
Nos doentes com esquizofrenia, as mulheres com companheiro ou marido, emprego e vida social activa atingem mais facilmente a regressão dos sintomas, tornado-se doentes mais estáveis.
As conclusões são do estudo SOHO (Schizophrenic Outpatients Health Outcomes), a maior investigação feita em doentes com esquizofrenia, que envolveu 10 países europeus e cerca de 1100 doentes, 175 dos quais portugueses.
Ainda segundo as conclusões do estudo agora divulgado, a taxa de recaída ao fim de três anos é de aproximadamente 25% (doentes com formas menos graves).
A investigação revela ainda que a taxa de recaída é maior nos doentes com uma duração da patologia mais curta e que, «mais importante, o risco de recaída se mantém ao longo do tempo, apesar de atingida a remissão».
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Recuperação significativa
Baseando-se em alguns estudos da OMS (IPSS, DOS MeD e RAPyD), que abrangeram países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento, Carole Siegel, que pronunciou a conferência de abertura, concluiu que a prevalência da esquizofrenia se situa entre 1,4 a 4,6 por mil habitantes. Por ouro lado, um estudo de follow-up com duração de 25 anos demonstrou que em cerca de 50% dos casos houve recuperação. «Demonstra-se mais um vez que a taxa de recuperação é significativa», frisou, embora, curiosamente, «nos países em vias de desenvolvimento as taxas de recuperação sejam mais elevadas», o que se observa igualmente entre os emigrantes, acrescentou a especialista reportando-se ao mesmo estudo.
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Custos de longa duração
O IV Colóquio de Esquizofrenia teve como objectivo fornecer uma visão global dos custos, nomeadamente os de longa duração, procurando responder às questões: «Qual o papel das famílias no acompanhamento dos doentes?», «Que impacte é que a doença tem em termos de relação custo-eficácia?», «Para que doente deve ser indicado o tratamento comunitário?». José Miguel Caldas de Almeida e Fausto Amaro falaram da relação custo-benefício do tratamento da esquizofrenia.
Sobre a relação custo-eficácia foram organizadas duas mesas-redondas — uma sobre tratamento farmacológico (palestrantes: José Manuel Olivares, Hélio Elkis e Emília Alves) e outra sobre a eficácia e os custos da doença (palestrantes: Til Wykes, Martin Knapp e Hans-Joachim Salize).
Valentim Gentil (filho), figura que tem tido um papel determinante no Brasil e no Mundo na discussão das diferentes políticas de Saúde Mental, encerrou o colóquio.
TM 1.º CADERNO de 2007.07.09
0712521C34207MM29A
Estima-se que em Portugal existam entre 60 a 100 mil doentes esquizofrénicos, mas estes «ainda não dispõem de apoios suficientes». Além do tratamento médico, é ainda necessário que a recuperação destas pessoas «seja feita com uma perspectiva de inclusão social», disse João Marques-Teixeira, presidente do IV Colóquio Internacional de Esquizofrenia do Porto, encontro que decorreu a 22 e 23 de Junho, na Fundação de Serralves.
Falando na abertura do encontro, que reuniu 300 especialistas ligados ao tratamento e à reabilitação destes doentes, Marques-Teixeira apelou para a criação de «unidades de cuidados socioclínicos» onde estes doentes possam receber os tratamentos psiquiátricos «que a ética médica exige» e o «apoio especializado que lhes estimule competências para a inclusão social».
O também director da Unidade de Investigação em Saúde Mental e Psiquiatria do Centro Hospitalar do Conde de Ferreira defendeu que esta é «a forma mais adequada para atender à complexidade do adoecer esquizofrénico».
Relação custo-eficácia
Num encontro especialmente empenhado em debater a relação custo-eficácia das abordagens a esta patologia, Marques-Teixeira considerou que a esquizofrenia é uma das doenças que habitualmente mais contribuem para as despesas da Saúde nos países desenvolvidos, estimando-se os gastos em cerca de 1,9% do total do orçamento para a Saúde. O especialista acrescentou que, na maioria dos países, os custos directos com esta doença «representam um terço do total dos custos», sendo os restantes dois terços gastos com cuidadores informais e com os chamados custos indirectos.
Para explicar como é que o peso das doenças de longa duração, como é o caso da esquizofrenia, varia com o estado da economia, Marques-Teixeira salientou — citando estudos de Wagner — que, ao longo do século XX, cerca de 20% dos doentes com esquizofrenia admitidos em hospitais «recuperaram completamente, quando a economia não estava muito poluída», e que «cerca de 15 a 20%» acabavam por ter uma boa reputação social. «O que este autor nos diz — acrescentou o especialista —, é que em tempos difíceis de natureza económica as consequências de natureza política focam-se muito mais nos custos dos cuidados prestados do que na possibilidade da integração destes doentes nos quadros socioprofissionais alargados». Isto é, o peso global das doenças mentais de evolução prolongada «está muito dependente de dois vectores: por um lado, a estratégia de tratamento e, por outro, o aspecto de natureza económica das épocas sociais em que estes doentes vivem», reforçou.
Para o psiquiatra, esta é a nova realidade da Saúde Mental: «Hoje vivemos uma época de restrição de recursos e de pressões políticas que têm levado à pesquisa de novos modos de intervenção e do seu impacte quer no domínio clínico quer no domínio económico».
«Responder aos políticos»
«A esquizofrenia é uma doença a que se tem de prestar tanta atenção como ao cancro», disse Carole Siegel, especialista norte-americana que pronunciou a conferência de abertura, salientado a necessidade de «responder aos políticos» mostrando-lhes que faz sentido haver um financiamento adicional para esta doença.
A abordar o tema «O peso global da esquizofrenia: Medir a sua dimensão», a especialista defendeu a implementação de medidas que permitam comparar a carga económica e social desta com a de outras doenças, de modo a que se possa «diminuir este fardo».
«Precisamos de números que nos possam mostrar até que ponto a esquizofrenia está disseminada e uma correcta avaliação custo-eficácia da medicação», acrescentou Carole Siegel.
Ao abordar a incidência, a psiquiatra — e não havendo estudos entre nós — reportou-se a dados relativos a regiões próximas de Portugal, como, por exemplo, Espanha, onde uma amostra de doentes, na década de 80, extrapolada para 2006, mostrou que a prevalência da esquizofrenia é, em média, de «três por mil habitantes», embora variando com a idade dos doentes. Na mesma amostra o pico de prevalência situar-se-ia na faixa etária dos 30-44 anos, onde atingia 4,5 por mil.
Relativamente aos custos, notou que nos Estados Unidos estão a subir cerca de 15 milhões de dólares relativamente a 2005, embora seja «muito difícil» estudá-los. «Mesmo considerando a subida devida à inflação, os custos estão a subir sem se saber porquê», sublinhou ainda a especialista.
Manuel Morato
...CAIXA...
Mulheres casadas são «doentes mais estáveis»
Nos doentes com esquizofrenia, as mulheres com companheiro ou marido, emprego e vida social activa atingem mais facilmente a regressão dos sintomas, tornado-se doentes mais estáveis.
As conclusões são do estudo SOHO (Schizophrenic Outpatients Health Outcomes), a maior investigação feita em doentes com esquizofrenia, que envolveu 10 países europeus e cerca de 1100 doentes, 175 dos quais portugueses.
Ainda segundo as conclusões do estudo agora divulgado, a taxa de recaída ao fim de três anos é de aproximadamente 25% (doentes com formas menos graves).
A investigação revela ainda que a taxa de recaída é maior nos doentes com uma duração da patologia mais curta e que, «mais importante, o risco de recaída se mantém ao longo do tempo, apesar de atingida a remissão».
...CAIXA...
Recuperação significativa
Baseando-se em alguns estudos da OMS (IPSS, DOS MeD e RAPyD), que abrangeram países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento, Carole Siegel, que pronunciou a conferência de abertura, concluiu que a prevalência da esquizofrenia se situa entre 1,4 a 4,6 por mil habitantes. Por ouro lado, um estudo de follow-up com duração de 25 anos demonstrou que em cerca de 50% dos casos houve recuperação. «Demonstra-se mais um vez que a taxa de recuperação é significativa», frisou, embora, curiosamente, «nos países em vias de desenvolvimento as taxas de recuperação sejam mais elevadas», o que se observa igualmente entre os emigrantes, acrescentou a especialista reportando-se ao mesmo estudo.
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Custos de longa duração
O IV Colóquio de Esquizofrenia teve como objectivo fornecer uma visão global dos custos, nomeadamente os de longa duração, procurando responder às questões: «Qual o papel das famílias no acompanhamento dos doentes?», «Que impacte é que a doença tem em termos de relação custo-eficácia?», «Para que doente deve ser indicado o tratamento comunitário?». José Miguel Caldas de Almeida e Fausto Amaro falaram da relação custo-benefício do tratamento da esquizofrenia.
Sobre a relação custo-eficácia foram organizadas duas mesas-redondas — uma sobre tratamento farmacológico (palestrantes: José Manuel Olivares, Hélio Elkis e Emília Alves) e outra sobre a eficácia e os custos da doença (palestrantes: Til Wykes, Martin Knapp e Hans-Joachim Salize).
Valentim Gentil (filho), figura que tem tido um papel determinante no Brasil e no Mundo na discussão das diferentes políticas de Saúde Mental, encerrou o colóquio.
TM 1.º CADERNO de 2007.07.09
0712521C34207MM29A
Ética «exige apoio especial» a doentes esquizofrénicos