Parceria para a educação médica «é indispensável»
06.07.2007
Encontro sobre MGF nas faculdades debateu o papel do Ministério
A Aula Magna da Faculdade de Medicina de Lisboa (FML) foi o palco escolhido para, no passado dia 29 de Junho, se realizar o «Encontro de MGF das Faculdades de Medicina», que nesta primeira edição abordou os «Vinte Anos de Medicina Geral e Familiar na FML».
O encontro juntou os directores das faculdades de Medicina de Lisboa, as duas entidades organizadoras, e tanto José Caldas de Almeida, da Faculdade de Ciências Médicas, como José Fernandes e Fernandes, da FML, assinalaram a necessidade de maior protagonismo do Ministério da Saúde na formação médica.
José Caldas de Almeida considera necessário «mudar as regras da relação entre as faculdades e as instituições de saúde», para que se estabeleçam novas posições para os actores da formação médica, e defende que «o Ministério da Saúde tem que dizer qual é o seu interesse em ter bons médicos e qual a participação que quer ter na formação desses médicos». «Não se pode partir do princípio de que o Ministério da Saúde delega a formação no Ministério do Ensino Superior e apenas permite que os alunos visitem hospitais», acrescentou.
Para o director da escola médica do Campo Santana também tem de ser encontrada uma forma de as faculdades «terem outro poder de intervenção nas instituições de saúde onde há ensino», e admitiu mesmo que estas poderiam «ter uma participação no financiamento e gestão das instituições de saúde».
O director da FML, Fernandes e Fernandes, corroborou esta ideia, acrescentando que o conceito de parceria entre os dois ministérios para a educação médica «é indispensável» e sem a qual «não é possível formar médicos adequadamente».
Os dois dirigentes também foram unânimes na necessidade de alterar a forma como os docentes são remunerados. Enquanto Caldas de Almeida referiu que é preciso clarificar o «tempo que cada profissional deve ter para o ensino, para a investigação e para a prática clínica», Fernandes e Fernandes lembrou que «não se pode pedir às pessoas para serem tutores de alunos sem que essa participação esteja contemplada no seu job-description», e alertou para «outro drama» que é a insuficiência de «recursos financeiros» para pagar a esses profissionais.
«Quase que fugimos dos doentes»
Os profissionais dos cuidados de saúde primários tiveram oportunidade de, durante o debate, exporem as suas preocupações. Isabel Santos, docente da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa e médica do Centro de Saúde de Oeiras, foi uma das vozes que se levantaram para salientar as dificuldades sentidas pelos tutores nos centros de saúde. «Ter um aluno é altamente compensador, mas também altamente consumidor de tempo», referiu a médica, explicando que isso «diminui a quantidade de trabalho que produzimos, mas aumenta a carga horária, sem que ocorra qualquer compensação financeira».
Por seu lado, Luís Rebelo, médico de família, docente na FML e um dos mentores do encontro, referiu, hiperbolizando, que os clínicos gerais, «para estarem na faculdade, quase que andam a fugir dos doentes. Isto é inadmissível».
O docente admitiu que tem de fazer, semanalmente, alterações no seu plano de trabalho para estar disponível para o ensino, salientando que «não é possível descartar a primeira responsabilidade do médico de família que é para com os seus doentes».
Para alterar este cenário, Luís Rebelo considera fundamental serem os profissionais a exigir e a propor uma alteração para este cenário e sugeriu a formação de um grupo representativo das faculdades que leccionam Medicina Geral e Familiar «para encontrarem uma proposta» que leve à ultrapassagem «destas dificuldades».
R.V.
...CAIXA...
MGF ainda é vista como «disciplina menor»
A primeira edição do «Encontro de MGF das Faculdades de Medicina», destinada a assinalar os vinte anos de vida desta disciplina na Faculdade de Medicina de Lisboa, teve início com uma mesa destinada a debater «A MGF como disciplina académica: constrangimentos e oportunidades»
O debate juntou Mário Bernardo, docente na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa (FCML), Luís Rebelo, professor na Faculdade de Medicina de Lisboa (FML), e Jaime Correia de Sousa, docente na Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho, que deu a conhecer a organização do curso, recente, daquela escola médica do Norte.
Já o docente da FCML salientou o facto de a Medicina Geral e Familiar (MGF) continuar «a ser sentida como disciplina menor pela restante comunidade académica», palavra de quem, apesar de ser cirurgião, lidou desde muito cedo na sua carreira com o mundo da Medicina familiar. A razão apontada por Mário Bernardo para esta constatação deve-se à circunstância de «não serem claras as especificidades que implicam o ensino da Medicina Geral e Familiar fora das paredes convencionais das faculdades».
Além disso, como esta especialidade foi das últimas a ser constituída como disciplina nas faculdades mais antigas, não é de estranhar que as outras disciplinas se julguem um pouco ameaçadas e possam até «sentir que o espaço físico lhes foi roubado», acrescentou o cirurgião.
O resultado desta visão classicista do ensino da Medicina, demasiado virado para as especialidades hospitalares, reflecte-se na «legislação hospitalocêntrica», que Mário Bernardo considera «ter de ser revista». Em causa está, por exemplo, o pagamento dos tutores, que actualmente conta com uma regulamentação direccionada para os médicos hospitalares e que tem de ser adaptada aos clínicos dos centros de saúde.
Também Luís Rebelo deu destaque a esta matéria na sua intervenção, reconhecendo que «não chegam os incentivos simbólicos que existem hoje». Segundo este docente, é necessário «um enquadramento muito mais preciso, prático e claro de todo o enquadramento legal do trabalho do médico de família na faculdade».
Ainda no que respeita à regulamentação, Luís Rebelo pediu «coragem» para «apostar na idoneidade dos centros de saúde», frisando que esta é uma necessidade da qual não será possível fugir.
...CAIXA...
Hora da mudança
Tanto Mário Bernardo como Luís Rebelo reconheceram que se vive uma altura de importantes mudanças no meio da saúde e do ensino da Medicina, que podem trazer novas oportunidades para a Medicina Geral e Familiar.
Uma das possibilidades assinaladas pelo professor da FCML foi o facto de o hospital ser «cada vez menos um espaço de ensino pré-graduado», pois cada vez mais as unidades hospitalares se estão a tornar «um local de cuidados intensivos». Assim, os centos de saúde têm de se tornar o espaço privilegiado para o ensino durante anos do curso de Medicina.
Mas, que para que tal aconteça, é preciso um ajuste nos protocolos existentes entre as ARS, nomeadamente a de Lisboa e Vale do Tejo, que abrange as duas faculdades da capital, e as faculdade de Medicina, «para rever o trabalho pedagógico, tendo em conta as alterações esperadas pela constituição dos agrupamentos de centros de saúde», acentuou Luís Rebelo.
O docente da FML salientou ainda a reforma curricular encetada por Fernandes e Fernandes, que «vai responsabilizar ainda mais os docentes de Medicina Geral e Familiar, pois, pela primeira vez, é proposto que os alunos estejam duas semanas em full-time nos centros de saúde no primeiro ano, enquanto no segundo esse tempo é alargado para quatro semanas», mantendo-se a disciplina da especialidade no primeiro semestre do quinto ano.
Não obstante, nem só de oportunidades se preenche a vida de quem se dedica à Medicina Geral e Familiar. Mário Bernardo salientou que a especialidade precisa de ser o tema de mais teses de mestrado e doutoramento, e que este é um aspecto «fundamental» para a afirmação da mesma.
Outro constrangimento apontado pelo cirurgião é o facto de os clínicos gerais, por estarem mais ligados ao «terreno», terem mais dificuldades em «enriquecer» os seus conhecimentos através da «formação contínua».
TM 1.º CADERNO de 2007.07.09
0712521C36207RV27B
O encontro juntou os directores das faculdades de Medicina de Lisboa, as duas entidades organizadoras, e tanto José Caldas de Almeida, da Faculdade de Ciências Médicas, como José Fernandes e Fernandes, da FML, assinalaram a necessidade de maior protagonismo do Ministério da Saúde na formação médica.
José Caldas de Almeida considera necessário «mudar as regras da relação entre as faculdades e as instituições de saúde», para que se estabeleçam novas posições para os actores da formação médica, e defende que «o Ministério da Saúde tem que dizer qual é o seu interesse em ter bons médicos e qual a participação que quer ter na formação desses médicos». «Não se pode partir do princípio de que o Ministério da Saúde delega a formação no Ministério do Ensino Superior e apenas permite que os alunos visitem hospitais», acrescentou.
Para o director da escola médica do Campo Santana também tem de ser encontrada uma forma de as faculdades «terem outro poder de intervenção nas instituições de saúde onde há ensino», e admitiu mesmo que estas poderiam «ter uma participação no financiamento e gestão das instituições de saúde».
O director da FML, Fernandes e Fernandes, corroborou esta ideia, acrescentando que o conceito de parceria entre os dois ministérios para a educação médica «é indispensável» e sem a qual «não é possível formar médicos adequadamente».
Os dois dirigentes também foram unânimes na necessidade de alterar a forma como os docentes são remunerados. Enquanto Caldas de Almeida referiu que é preciso clarificar o «tempo que cada profissional deve ter para o ensino, para a investigação e para a prática clínica», Fernandes e Fernandes lembrou que «não se pode pedir às pessoas para serem tutores de alunos sem que essa participação esteja contemplada no seu job-description», e alertou para «outro drama» que é a insuficiência de «recursos financeiros» para pagar a esses profissionais.
«Quase que fugimos dos doentes»
Os profissionais dos cuidados de saúde primários tiveram oportunidade de, durante o debate, exporem as suas preocupações. Isabel Santos, docente da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa e médica do Centro de Saúde de Oeiras, foi uma das vozes que se levantaram para salientar as dificuldades sentidas pelos tutores nos centros de saúde. «Ter um aluno é altamente compensador, mas também altamente consumidor de tempo», referiu a médica, explicando que isso «diminui a quantidade de trabalho que produzimos, mas aumenta a carga horária, sem que ocorra qualquer compensação financeira».
Por seu lado, Luís Rebelo, médico de família, docente na FML e um dos mentores do encontro, referiu, hiperbolizando, que os clínicos gerais, «para estarem na faculdade, quase que andam a fugir dos doentes. Isto é inadmissível».
O docente admitiu que tem de fazer, semanalmente, alterações no seu plano de trabalho para estar disponível para o ensino, salientando que «não é possível descartar a primeira responsabilidade do médico de família que é para com os seus doentes».
Para alterar este cenário, Luís Rebelo considera fundamental serem os profissionais a exigir e a propor uma alteração para este cenário e sugeriu a formação de um grupo representativo das faculdades que leccionam Medicina Geral e Familiar «para encontrarem uma proposta» que leve à ultrapassagem «destas dificuldades».
R.V.
...CAIXA...
MGF ainda é vista como «disciplina menor»
A primeira edição do «Encontro de MGF das Faculdades de Medicina», destinada a assinalar os vinte anos de vida desta disciplina na Faculdade de Medicina de Lisboa, teve início com uma mesa destinada a debater «A MGF como disciplina académica: constrangimentos e oportunidades»
O debate juntou Mário Bernardo, docente na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa (FCML), Luís Rebelo, professor na Faculdade de Medicina de Lisboa (FML), e Jaime Correia de Sousa, docente na Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho, que deu a conhecer a organização do curso, recente, daquela escola médica do Norte.
Já o docente da FCML salientou o facto de a Medicina Geral e Familiar (MGF) continuar «a ser sentida como disciplina menor pela restante comunidade académica», palavra de quem, apesar de ser cirurgião, lidou desde muito cedo na sua carreira com o mundo da Medicina familiar. A razão apontada por Mário Bernardo para esta constatação deve-se à circunstância de «não serem claras as especificidades que implicam o ensino da Medicina Geral e Familiar fora das paredes convencionais das faculdades».
Além disso, como esta especialidade foi das últimas a ser constituída como disciplina nas faculdades mais antigas, não é de estranhar que as outras disciplinas se julguem um pouco ameaçadas e possam até «sentir que o espaço físico lhes foi roubado», acrescentou o cirurgião.
O resultado desta visão classicista do ensino da Medicina, demasiado virado para as especialidades hospitalares, reflecte-se na «legislação hospitalocêntrica», que Mário Bernardo considera «ter de ser revista». Em causa está, por exemplo, o pagamento dos tutores, que actualmente conta com uma regulamentação direccionada para os médicos hospitalares e que tem de ser adaptada aos clínicos dos centros de saúde.
Também Luís Rebelo deu destaque a esta matéria na sua intervenção, reconhecendo que «não chegam os incentivos simbólicos que existem hoje». Segundo este docente, é necessário «um enquadramento muito mais preciso, prático e claro de todo o enquadramento legal do trabalho do médico de família na faculdade».
Ainda no que respeita à regulamentação, Luís Rebelo pediu «coragem» para «apostar na idoneidade dos centros de saúde», frisando que esta é uma necessidade da qual não será possível fugir.
...CAIXA...
Hora da mudança
Tanto Mário Bernardo como Luís Rebelo reconheceram que se vive uma altura de importantes mudanças no meio da saúde e do ensino da Medicina, que podem trazer novas oportunidades para a Medicina Geral e Familiar.
Uma das possibilidades assinaladas pelo professor da FCML foi o facto de o hospital ser «cada vez menos um espaço de ensino pré-graduado», pois cada vez mais as unidades hospitalares se estão a tornar «um local de cuidados intensivos». Assim, os centos de saúde têm de se tornar o espaço privilegiado para o ensino durante anos do curso de Medicina.
Mas, que para que tal aconteça, é preciso um ajuste nos protocolos existentes entre as ARS, nomeadamente a de Lisboa e Vale do Tejo, que abrange as duas faculdades da capital, e as faculdade de Medicina, «para rever o trabalho pedagógico, tendo em conta as alterações esperadas pela constituição dos agrupamentos de centros de saúde», acentuou Luís Rebelo.
O docente da FML salientou ainda a reforma curricular encetada por Fernandes e Fernandes, que «vai responsabilizar ainda mais os docentes de Medicina Geral e Familiar, pois, pela primeira vez, é proposto que os alunos estejam duas semanas em full-time nos centros de saúde no primeiro ano, enquanto no segundo esse tempo é alargado para quatro semanas», mantendo-se a disciplina da especialidade no primeiro semestre do quinto ano.
Não obstante, nem só de oportunidades se preenche a vida de quem se dedica à Medicina Geral e Familiar. Mário Bernardo salientou que a especialidade precisa de ser o tema de mais teses de mestrado e doutoramento, e que este é um aspecto «fundamental» para a afirmação da mesma.
Outro constrangimento apontado pelo cirurgião é o facto de os clínicos gerais, por estarem mais ligados ao «terreno», terem mais dificuldades em «enriquecer» os seus conhecimentos através da «formação contínua».
TM 1.º CADERNO de 2007.07.09
0712521C36207RV27B
Parceria para a educação médica «é indispensável»