Recomendações para qualidade do ar em creches e infantários prontas em Julho

25.01.2013

Peritos estudam influência da ventilação de espaços na saúde das crianças
Pais e médicos já o suspeitavam, mas agora os resultados de um estudo vêm prová-lo: a qualidade do ar em creches e infantários não é a melhor e pode afectar a saúde dos mais pequenos. Três em cada dez crianças a frequentar aquelas instituições têm asma. Em Julho deverão ser publicadas recomendações sobre o assunto.
Engenheiros e técnicos do ambiente juntaram-se a diversos profissionais de saúde com um propósito único: estudar o impacte da qualidade do ar interior de creches e infantários na saúde das crianças. Os resultados preliminares do projecto, denominado ENVIRH – Ambiente e Saúde em Creches e Infantários, foram apresentados publicamente no passado dia 18, em Lisboa, e presentes estiveram peritos de diversas áreas para debater as conclusões.
O próximo objectivo passa pela elaboração de recomendações para a construção e ventilação destes espaços, as quais deverão ser publicadas na primeira quinzena de Julho. Uma das ideias avançadas por alguns dos presentes foi a da eventual aplicação, no futuro, de um modelo de investigação semelhante em lares de idosos, para também perceber a ligação entre a qualidade do ar interior, ventilação e saúde dos mais velhos.
Entre as conclusões apresentadas destaca-se o facto de três em cada dez crianças incluídas no estudo apresentar asma. Segundo Pedro Martins, assistente hospitalar de Imunoalergologia no Hospital de Dona Estefânia e um dos investigadores envolvidos no projecto, 27,5% das crianças avaliadas registaram pieira nos 12 meses anteriores. Além disso, concluiu-se que «por cada aumento de 200 ppm de dióxido de carbono [CO2] existe uma possibilidade acrescida de 4% de pieira nos 12 meses anteriores». Note-se que os níveis de CO2 foram usados na investigação apenas como indicadores da qualidade do ar interior.

Espaços mal ventilados

A deficiente ventilação é a grande responsável por esta situação, já que, segundo Daniel Aelenei, do Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-UNL), «as medições de CO2 em conjunto com a aplicação da técnica do gás traçador passivo indicam uma ventilação deficiente dos espaços interiores, o que pode prejudicar a qualidade do ar interior, aumentando o risco para a saúde dos ocupantes». Com efeito, concluiu-se também que na maioria dos edifícios analisados, a ventilação é assegurada apenas «pela abertura de janelas ou infiltrações». Apesar de os engenheiros terem constatado que «os edifícios das creches e infantários apresentam-se cuidados nos seus aspectos construtivos», pois foram «objecto de reabilitação», a verdade é que «não foram implementados sistemas de ventilação dedicados nas salas de actividade».
Por seu turno, de acordo com Manuela Cano, investigadora do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa), concluiu-se que em 33 das 125 salas estudadas, «os ocupantes poderão experimentar desconforto no corpo inteiro devido ao ambiente térmico, em resultado de uma sensação de frio». Por outro lado, em 14% das salas de actividades estudadas «obtiveram-se concentrações de ácaros superiores ao limiar de risco» e em 13,5% as concentrações de folmaldeído ultrapassam o valor de referência. Também nesta análise se constata que «os elevados níveis de contaminantes relacionados com a ocupação humana (CO2 e bactérias) demonstram a necessidade de melhorar a ventilação». Provado ficou ainda que «o tipo de folha móvel das janelas influencia as práticas de ventilação e nas salas com janelas basculantes verifica-se uma menor diferença entre os níveis de CO2 no interior e no exterior».

Inquéritos e recolhas

Para responder às questões de partida, os investigadores começaram por realizar questionários às famílias das crianças de 45 instituições particulares de solidariedade social (25 em Lisboa e 20 no Porto). Entre Outubro e Dezembro de 2010 foram distribuídos 5161 questionários, tendo a taxa de devolução atingido os 62%. Já na segunda fase, que decorreu entre Março de 2011 e Fevereiro de 2012, foram efectuadas duas visitas (em estações diferentes do ano) para averiguar o estado de saúde das crianças através de questionário e da recolha de amostras de condensado brônquico. Ao mesmo tempo, a equipa de investigadores estava disponível, através de uma linha verde criada para o efeito, para receber notificações de casos de doença e identificação de vírus.
De todo o trabalho realizado até ao momento, a recolha de amostras foi o que «não correu como esperado», segundo Nuno Neuparth. E isto porque os pais não colaboraram como era expectável. Inclusivamente foi «disponibilizada ajuda clínica como contrapartida para os pais aceitarem participar, mas não foi isso que condicionou um aumento de respostas», explicou Nuno Neuparth. O que parece ter influenciado foi, apenas, o «pico de actividade gripal», que terá levado a um maior feedback parental nessa altura.

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Francisco George preocupado com construções recentes

O director-geral da Saúde, Francisco George, esteve presente na sessão de abertura do seminário e elogiou a iniciativa da investigação. Tanto mais que «a qualidade do ar que respiramos representa, comprovadamente, um dos factores que mais influenciam a saúde humana». Nesse sentido, e tendo em conta o conhecimento de que hoje se dispõe, o responsável diz não ter a «certeza de que estamos no bom caminho».
Francisco George referia-se sobretudo à «construção de centros comerciais e enormes edifícios de escritórios sem janelas». Na sua opinião, esta é uma situação que «em termos de Saúde Pública tem de ser melhor estudada», tanto mais que representa «um novo paradigma em termos de arquitectura e engenharia urbana que pode representar alguns riscos».


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Perguntar para investigar

Muitas foram as perguntas que serviram de partida para o estudo coordenado por Nuno Neuparth, imunoalergologista e docente na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa (FCML). Tal como o especialista explicou, naquele que foi o primeiro seminário do projecto, pretendeu-se descobrir qual é exactamente o «papel desempenhado pela qualidade do ar interior na saúde das crianças». Sabendo-se que, em geral, estas «adoecem mais quando vão para o infantário», procurou-se saber se «haverá populações de risco». Por outro lado, Nuno Neuparth referiu a intenção de se perceber «o papel das infecções virais» e até de elencar «quais os vírus que afectam estas crianças». A ventilação dos espaços frequentados pelas crianças e a sua influência na saúde infantil foi outro dos tópicos investigados, tendo a equipa ido ao ponto de procurar perceber o que condiciona essa ventilação dos espaços.

Equipa multidisciplinar

O projecto ENVIRH -- Ambiente e Saúde em Creches e Infantários resulta de uma parceria entre engenheiros, técnicos especialistas em qualidade do ar interior e médicos interessados em estudar o impacte do ambiente interior em infantários sobre a saúde das crianças.
Trata-se de um projecto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia com 180 mil euros ao longo de três anos, no qual participam instituições como a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa (UNL), Centro Hospitalar de Lisboa Central, Fundação da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNL, Insa e Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).
Além da apresentação dos resultados preliminares do projecto, durante o primeiro seminário do projecto foram ainda partilhadas visões subordinadas ao tema «Saúde e ambiente na perspectiva pediátrica». Nesse âmbito, o especialista Rosado Pinto, responsável pelo Departamento de Imunoalergologia do Hospital da Luz e consultor do projecto ENVIRH, falou sobre a doença respiratória crónica na infância, com ênfase na asma enquanto «doença respiratória crónica mais frequente na criança».
Por seu turno, o professor catedrático Carlos Borrego, coordenador do Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro, focou-se essencialmente na questão da qualidade do ar interior, deixando claro que «um dos maiores desafios e ameaças à sustentabilidade e bem-estar urbano é a poluição atmosférica».
No final do seminário, um painel de peritos juntou-se para debater as conclusões e contribuir para a posterior elaboração de recomendações. Participarem neste momento Ana Leça e Paulo Diegues, ambos da DGS, João Viegas, do LNEC, Ana Margarida Pinto, da Agência para a Energia, e Dília Jardim, da Agência Portuguesa do Ambiente.



Andreia Vieira

Tempo Medicina 1º Caderno de 25 de Janeiro de 2013
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