«Precisamos de menos e melhores universidades»
22.09.2014
Dia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL)
«É urgente a definição de uma política universitária que vá para além deste exercício penoso que é a discussão anual da progressão do orçamento das universidades», apelou o director da FMUL no Dia da Faculdade, celebrado a 19 de Setembro, no Edifício Egas Moniz, em Lisboa.
A mensagem do Director da FMUL, Fernandes e Fernandes, no Dia da FMUP foi muito clara: «Precisamos de menos e melhores universidades» devendo ser esse «um objectivo prioritário na reorganização corajosa do tecido universitário português, indispensável para o desenvolvimento das instituições fortes e competitivas.»
Tudo isto só se consegue com a capacidade de «formar profissionais capazes de responder às necessidades do sistema de Saúde e contribuir de forma criativa para a melhoria da sua eficácia, transformação e adaptação aos novos desafios da doença», considerou o director da FMUP no seu discurso.
«As instituições têm alma e cultura e é nesse espírito que devemos procurar inspiração e rumo para a acção», apelou à plateia o responsável, que salientou ainda a importância da consolidação do consórcio Centro Académico de Medicina de Lisboa (CAML). «Compete-nos fazer com que o poder político continue a apoiá-lo», alertou.
Fernandes e Fernandes terminou a sua alocução com uma novidade: Vai ser possível concluir o edifício em construção no CAML, obra que abre novas possibilidades de desenvolvimento. «Deverá constituir um núcleo para a convergência entre as Biociências e a Engenharia para a investigação e inovação», anunciou o responsável, que sugeriu desde já o nome de Reinaldo dos Santos, pioneiro da angiografia, para o novo edifício.
Alunos tinham reuniões clandestinas
Este ano o Dia da Faculdade foi integrado na primeira semana dos novos alunos de Medicina e por ocasião da celebração dos 100 anos da Associação de Estudantes (AE) da FMUL. E foi com «muita alegria» que Tomás Silva, presidente da AE da FMUL partilhou alguns dos momentos históricos daquela Associação e realçou os dois pilares comuns na atitude dos professores que ficaram para a história: «O primeiro é o desejo de educar para a excelência e o segundo a dedicação para com os alunos.»
Durante o Estado Novo esta dedicação teve particular relevo, por exemplo, pelas mãos de Egas Moniz, nos anos 50, «por defender os direitos dos alunos e de se opor à intervenção da polícia política na Faculdade de Medicina». Poucos anos mais tarde, em 1960, «também o professor Jorge Orta, à data professor da Faculdade, apoiava as reuniões clandestinas dos alunos que se realizam muitas vezes às escondidas na sala dos alunos, quase sempre mascaradas com aulas de Histologia ou de Fisiologia». E foi devido à acção de Jorge Orta, salientou o dirigente, «que após muitos anos de proibição, a direcção da Associação foi eleita com sete dirigentes».
Apesar de existirem documentos que se referem a uma organização estudantil em 1911, a AE surge em Setembro de 1914. Na altura, contou Tomás Silva, as grandes preocupações eram a reforma do ensino em Portugal, «que continua a ser uma preocupação», e a intervenção na saúde pública do País. «Os primeiros registos que temos da actividade da AE são folhetos de luta contra a sífilis», lembrou.
Com «orgulho e inquietude» e a «sentir o peso da responsabilidade» por fazer parte desta escola, o dirigente não esqueceu, no final do seu discurso, de lembrar aos professores que também estes últimos têm responsabilidade «quando sabem que o método de ensino pode ser melhorado» e «quando sabem que as condições que temos por vezes nos anos clínicos não correspondem àquilo que eles próprios sonham para nós», factores muito importantes quando o que está em causa é o futuro. E «nós somos o futuro da Saúde em Portugal», finalizou o presidente da AE.
Escolas de Medicina em Portugal «são muito divergentes»
David Gordon, presidente eleito da World Federation for Medical Education (WFME), foi o convidado da sessão e trouxe com ele a comunicação «Desafios e problemas da educação médica».
O responsável começou por dizer que, ao contrário do que se possa pensar, na WFME, o «chapéu» de seis associações regionais, «não vivemos num palácio», «não somos taciturnos, mas sim pessoas felizes» e que o trabalho passa essencialmente por verificar e rever os standards que actualmente estão a ser usados em metade das escolas do mundo.
No futuro da educação David Gordon assinalou três problemas principais que são «a falta de evidência, mesmo para a inovação», as «intervenções de pessoas mal preparadas nas decisões das faculdades» e «saber qual o número de estudantes ideal e número de faculdades ideal para cada país».
Segundo o responsável, há cerca de 10 anos um estudo mostrou «nos países europeus a média era de 125 estudantes para cada milhão de população e uma escola médica para cada 2 milhões». As escolas fraudulentas são também uma das grandes preocupações da WFME, um «problema muito difícil» de resolver.
Outra dificuldade é, segundo David Gordon, estabelecer as necessidades reais. Em Portugal, como no resto do mundo, «é preciso pensar quando se abre uma escola, saber se é mesmo precisa e saber quantos estudantes devem existir no país».
Fundamental é, na opinião do presidente da WFME, «o trabalhar conjunto, para apoio mútuo, falar a uma só voz para conseguir mais poder para lidar com o Ministério da Saúde».
No caso específico de Portugal David Gordon considera que as escolas de Medicina «são muito divergentes» na sua estrutura e poder e que «trabalhar em conjunto é a melhor maneira de erguer as menos fortes».
Dando como exemplo a França, que tem todas as suas escolas médicas no mundo a trabalharem juntas, o especialista lembrou que esta união revelou ter «um poderoso efeito em manter bons standards em países muito difíceis com o Mali ou República do Congo, por exemplo». A pergunta que deixou é, por isso, evidente: «Porque não há uma efectiva liderança no caso dos países de língua portuguesa em todo o mundo?» «Seria uma pena que as escolas médicas tomassem as decisões do Brasil em vez de serem aconselhadas por Portugal», alertou o responsável.
CAIXA
Alunos do primeiro ano lêem texto adaptado do juramento de Hipócrates
Fugindo à tradição, que dita que o juramento de Hipócrates é feito quando os médicos se formam, o texto foi adaptado e os alunos que entraram agora para o primeiro ano do curso de Medicina leram-no em conjunto na sessão.
«Pretende-se com isto, logo desde a primeira semana do primeiro ano, acentuar a vertente ética dos estudantes de Medicina», explicou Miguel Oliveira da Silva, presidente do Conselho Pedagógico da FMUL que conduziu o juramento.
Laura Alves Lopes
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A mensagem do Director da FMUL, Fernandes e Fernandes, no Dia da FMUP foi muito clara: «Precisamos de menos e melhores universidades» devendo ser esse «um objectivo prioritário na reorganização corajosa do tecido universitário português, indispensável para o desenvolvimento das instituições fortes e competitivas.»
Tudo isto só se consegue com a capacidade de «formar profissionais capazes de responder às necessidades do sistema de Saúde e contribuir de forma criativa para a melhoria da sua eficácia, transformação e adaptação aos novos desafios da doença», considerou o director da FMUP no seu discurso.
«As instituições têm alma e cultura e é nesse espírito que devemos procurar inspiração e rumo para a acção», apelou à plateia o responsável, que salientou ainda a importância da consolidação do consórcio Centro Académico de Medicina de Lisboa (CAML). «Compete-nos fazer com que o poder político continue a apoiá-lo», alertou.
Fernandes e Fernandes terminou a sua alocução com uma novidade: Vai ser possível concluir o edifício em construção no CAML, obra que abre novas possibilidades de desenvolvimento. «Deverá constituir um núcleo para a convergência entre as Biociências e a Engenharia para a investigação e inovação», anunciou o responsável, que sugeriu desde já o nome de Reinaldo dos Santos, pioneiro da angiografia, para o novo edifício.
Alunos tinham reuniões clandestinas
Este ano o Dia da Faculdade foi integrado na primeira semana dos novos alunos de Medicina e por ocasião da celebração dos 100 anos da Associação de Estudantes (AE) da FMUL. E foi com «muita alegria» que Tomás Silva, presidente da AE da FMUL partilhou alguns dos momentos históricos daquela Associação e realçou os dois pilares comuns na atitude dos professores que ficaram para a história: «O primeiro é o desejo de educar para a excelência e o segundo a dedicação para com os alunos.»
Durante o Estado Novo esta dedicação teve particular relevo, por exemplo, pelas mãos de Egas Moniz, nos anos 50, «por defender os direitos dos alunos e de se opor à intervenção da polícia política na Faculdade de Medicina». Poucos anos mais tarde, em 1960, «também o professor Jorge Orta, à data professor da Faculdade, apoiava as reuniões clandestinas dos alunos que se realizam muitas vezes às escondidas na sala dos alunos, quase sempre mascaradas com aulas de Histologia ou de Fisiologia». E foi devido à acção de Jorge Orta, salientou o dirigente, «que após muitos anos de proibição, a direcção da Associação foi eleita com sete dirigentes».
Apesar de existirem documentos que se referem a uma organização estudantil em 1911, a AE surge em Setembro de 1914. Na altura, contou Tomás Silva, as grandes preocupações eram a reforma do ensino em Portugal, «que continua a ser uma preocupação», e a intervenção na saúde pública do País. «Os primeiros registos que temos da actividade da AE são folhetos de luta contra a sífilis», lembrou.
Com «orgulho e inquietude» e a «sentir o peso da responsabilidade» por fazer parte desta escola, o dirigente não esqueceu, no final do seu discurso, de lembrar aos professores que também estes últimos têm responsabilidade «quando sabem que o método de ensino pode ser melhorado» e «quando sabem que as condições que temos por vezes nos anos clínicos não correspondem àquilo que eles próprios sonham para nós», factores muito importantes quando o que está em causa é o futuro. E «nós somos o futuro da Saúde em Portugal», finalizou o presidente da AE.
Escolas de Medicina em Portugal «são muito divergentes»
David Gordon, presidente eleito da World Federation for Medical Education (WFME), foi o convidado da sessão e trouxe com ele a comunicação «Desafios e problemas da educação médica».
O responsável começou por dizer que, ao contrário do que se possa pensar, na WFME, o «chapéu» de seis associações regionais, «não vivemos num palácio», «não somos taciturnos, mas sim pessoas felizes» e que o trabalho passa essencialmente por verificar e rever os standards que actualmente estão a ser usados em metade das escolas do mundo.
No futuro da educação David Gordon assinalou três problemas principais que são «a falta de evidência, mesmo para a inovação», as «intervenções de pessoas mal preparadas nas decisões das faculdades» e «saber qual o número de estudantes ideal e número de faculdades ideal para cada país».
Segundo o responsável, há cerca de 10 anos um estudo mostrou «nos países europeus a média era de 125 estudantes para cada milhão de população e uma escola médica para cada 2 milhões». As escolas fraudulentas são também uma das grandes preocupações da WFME, um «problema muito difícil» de resolver.
Outra dificuldade é, segundo David Gordon, estabelecer as necessidades reais. Em Portugal, como no resto do mundo, «é preciso pensar quando se abre uma escola, saber se é mesmo precisa e saber quantos estudantes devem existir no país».
Fundamental é, na opinião do presidente da WFME, «o trabalhar conjunto, para apoio mútuo, falar a uma só voz para conseguir mais poder para lidar com o Ministério da Saúde».
No caso específico de Portugal David Gordon considera que as escolas de Medicina «são muito divergentes» na sua estrutura e poder e que «trabalhar em conjunto é a melhor maneira de erguer as menos fortes».
Dando como exemplo a França, que tem todas as suas escolas médicas no mundo a trabalharem juntas, o especialista lembrou que esta união revelou ter «um poderoso efeito em manter bons standards em países muito difíceis com o Mali ou República do Congo, por exemplo». A pergunta que deixou é, por isso, evidente: «Porque não há uma efectiva liderança no caso dos países de língua portuguesa em todo o mundo?» «Seria uma pena que as escolas médicas tomassem as decisões do Brasil em vez de serem aconselhadas por Portugal», alertou o responsável.
CAIXA
Alunos do primeiro ano lêem texto adaptado do juramento de Hipócrates
Fugindo à tradição, que dita que o juramento de Hipócrates é feito quando os médicos se formam, o texto foi adaptado e os alunos que entraram agora para o primeiro ano do curso de Medicina leram-no em conjunto na sessão.
«Pretende-se com isto, logo desde a primeira semana do primeiro ano, acentuar a vertente ética dos estudantes de Medicina», explicou Miguel Oliveira da Silva, presidente do Conselho Pedagógico da FMUL que conduziu o juramento.
Laura Alves Lopes
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«Precisamos de menos e melhores universidades»