70 doentes ainda esperam por novo medicamento para hepatite C
09.12.2014
SOS Hepatites pede a Ministério da Saúde que cumpra o que prometeu
O prometido pelo Ministério da Saúde era disponibilizar o medicamento aprovado na Europa em Janeiro deste ano a 150 doentes com hepatite C. A associação representativa dos doentes diz que a tutela não está a cumprir aquilo a que se comprometeu e apenas cerca de 30 doentes estão a receber o medicamento inovador.
O 2º Congresso Nacional do da SOS Hepatites, que decorreu no passado dia 29 de Novembro na sede da ordem dos Médicos em Lisboa, realizou-se em ambiente de grande consternação. Na véspera tinha falecido uma das doentes que aguardava a disponibilização da medicação que a Agência Europeia do Medicamento (EMA, na terminologia anglo-saxónica) aprovou em Janeiro deste ano, com taxas de cura a rondar os 90%. Emília Rodrigues, presidente da SOS Hepatites, além de homenagear a doente, lembrou que quem aguarda a terapêutica não quer ter o mesmo fim, apesar de continuar a aguardar que o Ministério da Saúde cumpra o que prometeu.
De recordar que a solução encontrada em Setembro, enquanto decorrem as negociações entre a tutela e a empresa da Indústria Farmacêutica detentora do dito medicamento, para a comparticipação do fármaco, foi disponibilizar a medicação a 150 doentes em estado mais avançado da doença e com mais premência de solução terapêutica até final de 2014.
Contudo, segundo a representante dos doentes, apenas «entre 30 a 35 doentes estão a fazer terapia» e encontram-se entregues os pedidos para mais 35 doentes. «Onde estão os outros doentes?» A pergunta de Emília Rodrigues ainda não tinha resposta à data da reunião e a dirigente anunciou que a associação vai lançar uma petição para que o Governo pelo menos cumpra a cedência de terapêutica ao grupo de 150 doentes que estão em risco de vida. Sem essa terapêutica, a dirigente admite mais desfechos fatais e se isso acontecer, «quem são os responsáveis?»
Mais uma pergunta deixada no ar, à plateia composta por doentes e médicos que há longo tempo lutam pelo acesso a terapêuticas inovadoras que podem curar a doença e evitar transplantes hepáticos e desfechos fatais. «Andamos a ser tratados com autorizações especiais», recordou Emília Rodrigues, contando que as administrações hospitalares, o Infarmed e o Governo se vão acusando entre eles do tempo que muitas dessas autorizações demoram a ser aprovadas. «É uma pescadinha de rabo-na-boca e os doentes cada vez estão pior», reconheceu.
«Grande esperança» esbarra no preço
Quando, no início do ano a EMA aprovou a terapêutica que possibilita curar a hepatite C em cerca de 90% dos doentes infectados foi com «grande esperança» que médicos e doentes passaram a encarar o futuro desta patologia, reconheceu Miguel Carneiro de Moura. O gastroenterologista e professor jubilado da Faculdade de Medicina de Lisboa lembrou que as novas terapêuticas «não têm praticamente efeitos adversos» significativos e que as novas associações podem encurtar o tempo de tratamento de 12 para oito semanas.
Todavia, na mesma altura começou a desenhar-se «o problema do acesso aos medicamentos», lembrou o especialista.
Aliás, como sublinhou Aida Baptista a actual discussão do acesso «existe pelo preço» a que as novas terapêuticas estão a ser comercializadas. A presidente da Associação Portuguesa de Farmacêuticos Hospitalares (APFH) lembrou que o problema começou com «um braço de ferro» entre Ministério da Saúde e Indústria Farmacêutica, muito embora admita que a tutela «quisesse resolver o assunto».
Aliás a responsável elogiou a tentativa de negociação do preço a nível europeu, uma ideia que juntou vários países, incluindo Portugal. «O problema é que esta negociação não deu em nada», reconheceu a farmacêutica. Circula a versão que o acordo não foi para a frente porque a Espanha quebrou a negociação que estava a ser encetada conjuntamente.
Emília Rodrigues admitiu que existe «uma guerra» negocial em que os doentes não estão a ser envolvidos, nem estão a ser ouvidas as suas ideias. «O Ministério da Saúde aprovou medicamentos mais caros que o nosso e o nosso é» objecto «de um braço-de-ferro», reforçou a presidente da SOS Hepatites.
Emília Rodrigues deixou uma sugestão, já por muitos mencionada, para evitar que cenários destes se repitam: «O Ministério da Saúde devia criar um fundo para que os doentes poderem ter acesso à inovação».
No meio de um ambiente de consternação, Miguel Carneiro de Moura quis ser a voz do optimismo. Para o especialista, em Janeiro ou Fevereiro de 2015 deverá «haver alguma resposta» para os doentes já que o médico está convencido que «o laboratório vai ser sensível» aos argumentos da tutela. Até porque, na opinião do especialista «não é possível manter por mais tempo esta situação».
Caixa
Combatentes da Guerra do Ultramar podem não ser grupo de risco
A ideia de que os combatentes nos vários cenários de guerra do século XX são um grupo de risco para a infecção por vírus da hepatite C vem das pesquisas feitas em veteranos nos Estados Unidos da América. Segundo Margarida Baptista, Farmacêutica no Grupo Reymão Pinto, entre os veteranos americanos este é um «problema grave», com 63% dos militares que serviram na Guerra do Vietnam a testarem positivamente para a infecção.
Em terras nacionais o problema parece não ser tão expressivo. Esta é a conclusão do 1º Rastreio Nacional de Hepatite C aos Combatentes na Guerra Colonial e na Índia. Segundo a pesquisa, realizada em 2013 em cerca de mil combatentes nas guerras ultramarinas, apenas oito indivíduos testaram positivamente para a presença do vírus da hepatite C, o que dá uma prevalência de 0,84%. «Os resultados encontrados não confirmam que os nossos combatentes sejam um grupo de risco para a hepatite C», frisou a coordenadora do estudo.
António Correia, representante da Liga dos Combatentes espera todavia que o rastreio possa ser alargado a todas as zonas do País, nomeadamente à ilha Terceira, nos Açores, onde existem cerca de 2200 combatentes para se ter uma visão mais realista da infecção em antigos militares.
Rita Vassal
1415661C13114RV49D
O 2º Congresso Nacional do da SOS Hepatites, que decorreu no passado dia 29 de Novembro na sede da ordem dos Médicos em Lisboa, realizou-se em ambiente de grande consternação. Na véspera tinha falecido uma das doentes que aguardava a disponibilização da medicação que a Agência Europeia do Medicamento (EMA, na terminologia anglo-saxónica) aprovou em Janeiro deste ano, com taxas de cura a rondar os 90%. Emília Rodrigues, presidente da SOS Hepatites, além de homenagear a doente, lembrou que quem aguarda a terapêutica não quer ter o mesmo fim, apesar de continuar a aguardar que o Ministério da Saúde cumpra o que prometeu.
De recordar que a solução encontrada em Setembro, enquanto decorrem as negociações entre a tutela e a empresa da Indústria Farmacêutica detentora do dito medicamento, para a comparticipação do fármaco, foi disponibilizar a medicação a 150 doentes em estado mais avançado da doença e com mais premência de solução terapêutica até final de 2014.
Contudo, segundo a representante dos doentes, apenas «entre 30 a 35 doentes estão a fazer terapia» e encontram-se entregues os pedidos para mais 35 doentes. «Onde estão os outros doentes?» A pergunta de Emília Rodrigues ainda não tinha resposta à data da reunião e a dirigente anunciou que a associação vai lançar uma petição para que o Governo pelo menos cumpra a cedência de terapêutica ao grupo de 150 doentes que estão em risco de vida. Sem essa terapêutica, a dirigente admite mais desfechos fatais e se isso acontecer, «quem são os responsáveis?»
Mais uma pergunta deixada no ar, à plateia composta por doentes e médicos que há longo tempo lutam pelo acesso a terapêuticas inovadoras que podem curar a doença e evitar transplantes hepáticos e desfechos fatais. «Andamos a ser tratados com autorizações especiais», recordou Emília Rodrigues, contando que as administrações hospitalares, o Infarmed e o Governo se vão acusando entre eles do tempo que muitas dessas autorizações demoram a ser aprovadas. «É uma pescadinha de rabo-na-boca e os doentes cada vez estão pior», reconheceu.
«Grande esperança» esbarra no preço
Quando, no início do ano a EMA aprovou a terapêutica que possibilita curar a hepatite C em cerca de 90% dos doentes infectados foi com «grande esperança» que médicos e doentes passaram a encarar o futuro desta patologia, reconheceu Miguel Carneiro de Moura. O gastroenterologista e professor jubilado da Faculdade de Medicina de Lisboa lembrou que as novas terapêuticas «não têm praticamente efeitos adversos» significativos e que as novas associações podem encurtar o tempo de tratamento de 12 para oito semanas.
Todavia, na mesma altura começou a desenhar-se «o problema do acesso aos medicamentos», lembrou o especialista.
Aliás, como sublinhou Aida Baptista a actual discussão do acesso «existe pelo preço» a que as novas terapêuticas estão a ser comercializadas. A presidente da Associação Portuguesa de Farmacêuticos Hospitalares (APFH) lembrou que o problema começou com «um braço de ferro» entre Ministério da Saúde e Indústria Farmacêutica, muito embora admita que a tutela «quisesse resolver o assunto».
Aliás a responsável elogiou a tentativa de negociação do preço a nível europeu, uma ideia que juntou vários países, incluindo Portugal. «O problema é que esta negociação não deu em nada», reconheceu a farmacêutica. Circula a versão que o acordo não foi para a frente porque a Espanha quebrou a negociação que estava a ser encetada conjuntamente.
Emília Rodrigues admitiu que existe «uma guerra» negocial em que os doentes não estão a ser envolvidos, nem estão a ser ouvidas as suas ideias. «O Ministério da Saúde aprovou medicamentos mais caros que o nosso e o nosso é» objecto «de um braço-de-ferro», reforçou a presidente da SOS Hepatites.
Emília Rodrigues deixou uma sugestão, já por muitos mencionada, para evitar que cenários destes se repitam: «O Ministério da Saúde devia criar um fundo para que os doentes poderem ter acesso à inovação».
No meio de um ambiente de consternação, Miguel Carneiro de Moura quis ser a voz do optimismo. Para o especialista, em Janeiro ou Fevereiro de 2015 deverá «haver alguma resposta» para os doentes já que o médico está convencido que «o laboratório vai ser sensível» aos argumentos da tutela. Até porque, na opinião do especialista «não é possível manter por mais tempo esta situação».
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Combatentes da Guerra do Ultramar podem não ser grupo de risco
A ideia de que os combatentes nos vários cenários de guerra do século XX são um grupo de risco para a infecção por vírus da hepatite C vem das pesquisas feitas em veteranos nos Estados Unidos da América. Segundo Margarida Baptista, Farmacêutica no Grupo Reymão Pinto, entre os veteranos americanos este é um «problema grave», com 63% dos militares que serviram na Guerra do Vietnam a testarem positivamente para a infecção.
Em terras nacionais o problema parece não ser tão expressivo. Esta é a conclusão do 1º Rastreio Nacional de Hepatite C aos Combatentes na Guerra Colonial e na Índia. Segundo a pesquisa, realizada em 2013 em cerca de mil combatentes nas guerras ultramarinas, apenas oito indivíduos testaram positivamente para a presença do vírus da hepatite C, o que dá uma prevalência de 0,84%. «Os resultados encontrados não confirmam que os nossos combatentes sejam um grupo de risco para a hepatite C», frisou a coordenadora do estudo.
António Correia, representante da Liga dos Combatentes espera todavia que o rastreio possa ser alargado a todas as zonas do País, nomeadamente à ilha Terceira, nos Açores, onde existem cerca de 2200 combatentes para se ter uma visão mais realista da infecção em antigos militares.
Rita Vassal
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70 doentes ainda esperam por novo medicamento para hepatite C