Um paradoxo bom

por Rui Cernadas | 08.01.2015

Rejuvenescimento da MGF
Opinião de Rui Cernadas*

Quando entramos hoje numa sala onde decorra um seminário, simpósio, curso ou congresso da Medicina Geral e Familiar (MGF), a primeira constatação, a olho nu, é a de uma generosa franja de jovens médicos, especialistas da mais nobre das disciplinas médicas e numa primeira linha de proximidade à cidadania.
Durante anos, quem entrava nessas mesmas salas, corria um risco sério de não encontrar qualquer cara nova e raros eram os que se não cumprimentavam entre si, sorriam ou trocavam meros olhares desde uma mera saudação a um confortável «outra vez»…
Este rejuvenescimento da especialidade tendeu a acentuar-se em 2014, beneficiando do efeito conjugado da aposentação de mais duas ou três centenas, com a entrada de mais do que outros tantos novos.
O impacto na idade média do quadro da MGF é evidente e notório, com prováveis variações regionais.
Mas o principal efeito, óbvio, não se limita aos trabalhos para estatística ou recursos humanos.
O reforço na aposta nas USF teve, também aqui, um efeito duplo.
Por um lado, reforçando o contingente dos disponíveis e interessados em arranjar lugar no modelo USF e, por outro, o de se terem transformado, em muitas situações, nos baluartes e coordenadores das mesmas USF, arrastando ou sendo empurrados para lideranças de projectos e de equipas.
Este movimento tem ainda outro argumento que importa destacar.
O da aposta na investigação e pesquisa, quer epidemiológica e observacional, quer estritamente clínica ou de procedimentos técnicos diversificados, num esforço que parece ter contagiado outros sectores da Saúde, com uma palavra para os enfermeiros, os assistentes sociais e os psicólogos, em especial.

Estágios

O número de estágios alocados às unidades funcionais dos Cuidados de Saúde Primários é brutal. Algumas unidades parecem, quase, máquinas produtoras de formandos, sobretudo na região Norte…
Todo este processo é saudável, refrescante e merecedor do maior aplauso, senão reconhecimento.
Mas, não há bela sem senão!
Vejamos alguns contrapontos mais questionáveis desta situação.
O primeiro problema radica na assimetria deste movimento, o qual implicaria das ARS e dos Hospitais um contínuo sacrifício, também financeiro e logístico que, suporte as necessidades de formação, em estreita cooperação com as direcções dos internatos regionais!
Mas mais do que «arrumá-los» ou «empregá-los» que os cative para as suas estratégias organizativas de Saúde!
Cada vez mais se impõe e conhece a teoria dos centros de custos e princípios do tipo prescritor-pagador.

Ao arrepio da lógica

Só faltava agora que, ao arrepio de toda a lógica, para a formação se arquitectasse um esquema inverso, sem pelo menos ser atempadamente e colectivamente acertado e articulado!
Nada tenho contra concursos nacionais, previno.
Mas as regras, deverão ser limpas e transparentes e definidas no início dos jogos. Nunca a meio ou sobre o final, ou porque nos «dá jeito», ou porque «ajeita» a terceiros!
«Quem quer bolota, trepa», diz um ditado que até nem é original da minha região.
Mas a política de gestão de recursos humanos definida e que atribui prioridade absoluta à solução USF, designadamente para a colocação de médicos para cumprimento dos compromissos assistenciais, enfermou de algumas perversidades e eis-nos no segundo problema.
Desde logo, conflitua com a visão estratégica necessária à defesa do próprio SNS, em cada região. No limite, a cada ano, todos os jovens especialistas são colocados nas USF que já funcionavam e, o resto do território, designadamente o interior do país, morre à míngua sem ninguém que valha àquelas populações…
Teremos concelhos com um único médico ou dois para a totalidade do território.
Depois, temos a questão táctica. Porque ao não atribuir médicos ao interior, não constituímos massa crítica para a formação de USF, não incentivamos os que lá estão à evolução e, sobretudo, não garantimos aos cidadãos o direito à melhoria dos cuidados, nem que seja só pelo alargamento dos recursos!
Há ainda uma outra perversidade.
A de que cada jovem especialista inicia a sua carreira, maioritariamente, pelo chamado «bife de lombo», sob uma perspectiva de visão curta e estreita, mercantilizada e tão do agrado do sector sindical e os outros do costume, como seja o modelo B.

Injustiça

O que constitui, como se conhece e identifica em dezenas de casos, uma injustiça e iniquidade com outros médicos mais antigos e não expostos a convites ou recrutamentos.
É por este e muitos outros argumentos que julgamos ser necessário e estar em bom tempo, discutir e rever muito do enquadramento legal das USF.
Até porque os CSP, repito-o sempre, não se cumprem exclusivamente na questão das USF…


*rui.cernadas@iol.pt



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