CIMAGO encoraja investigação multidisciplinar

por Vitalino José Santos | 12.02.2015

29.ª Reunião das «Actualizações em Oncologia»
«Talvez seja bom referir que, por diversas contingências, nós todos lutamos com enormes dificuldades para levar avante projectos de investigação e concretizá-los», observou o ortopedista José Manuel Casanova, na cerimónia de abertura da 29.ª Reunião das «Actualizações em Oncologia» e do 4.º Congresso do CIMAGO, em Coimbra.
Considerando que, em 2014, com a «reestruturação das áreas científicas» da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), se juntaram ao Centro de Investigação em Meio Ambiente, Genética e Oncobiologia (CIMAGO) os centros de Pneumologia e de Gastrenterologia (também da FMUC), esta organização académica, agora renovada nos seus quadros científicos, quis dar continuidade às «Actualizações em Oncologia», num «modelo de congresso» aberto à investigação do cancro.
«A doença cancerosa é uma das principais causas de morte das populações da civilização actual, caracterizada pela abundância, pela tecnologia, pela agressão ambiental e por uma longa esperança média de vida», contextualizam os responsáveis pelo CIMAGO, estrutura universitária de Coimbra que resultou da «consciencialização de que a investigação se devia estender desde a carcinogénese à patologia molecular, passando pela genética». Daí que o Conselho Científico da FMUC viesse, no final de 2003, a aprovar a criação do CIMAGO, com a finalidade de «exercer e promover a investigação científica fundamental e aplicada» e «o desenvolvimento experimental sobre os vários aspectos relacionados com o Ambiente, a Genética e o Cancro».
«Estas humildes jornadas têm uma história longa, sendo talvez das mais antigas da Faculdade de Medicina [FMUC].», notou José Manuel Casanova. «E, como tal, o “estandarte” deve ser revivido e mantido, para não só lembrar o passado mas também para abrir novos caminhos», disse ainda o professor da FMUC e chefe de serviço de Ortopedia, responsável pela Unidade de Tumores do Aparelho Locomotor (UTAL) do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), no final da manhã de 29 de Janeiro, numa cerimónia que contou, entre outras personalidades, com a presença de Carlos Freire de Oliveira, o qual, em Fevereiro de 1987, «para colmatar a insuficiência do ensino curricular da Oncologia aos alunos da licenciatura em Medicina», deu início aos então denominados «Seminários de Oncologia Clínica», com uma periodicidade semestral e nos quais «eram abordadas, de modo interdisciplinar, as localizações tumorais mais frequentes».

Investigação translacional na região Centro

Refira-se também que, dois anos mais tarde (1989), o então professor catedrático da FMUC (actualmente jubilado e membro da direcção nacional da Liga Portuguesa Contra o Cancro) viria a integrar, no último ano do curso de Medicina, «uma disciplina de Oncologia com ensino teórico e prático», seguindo as directrizes da Reunião de Consenso Europeu, organizada na cidade de Bona, em Maio do ano anterior, que teve uma participação activa da escola médica de Coimbra.
Na sua intervenção, em representação do CIMAGO (e igualmente da ACIMAGO -– Associação de Apoio ao CIMAGO), o ortopedista responsável pela UTAL do CHUC frisou a necessidade de «bocadinhos» que «possam dar suporte financeiro a muitas ideias que vão sendo geradas», contrariando a «ideia de que o País tem de ser um deserto e de que os oásis é que devem campear».
Nesse sentido, o médico José Manuel Casanova manifestou que aquela instituição (cuja actividade tem decorrido nos institutos e clínicas da FMUC e noutros centros de investigação da Universidade de Coimbra, bem como na rede de cuidados de saúde da região Centro e em articulação com várias organizações nacionais e estrangeiras que «comungam dos mesmos objectivos») deve implementar a investigação científica fundamental, transaccional e do desenvolvimento experimental, «particularmente a concentrada na zona Centro», no que respeita às áreas do Ambiente, da Genética e do Cancro.

Mais de um milhão de euros à procura da «excelência»

Na prossecução das suas actividades, compete ao CIMAGO «promover a investigação científica subjacente à preparação de quadros científicos e técnicos nas várias áreas da sua abrangência», visando «constituir um núcleo de excelência». Consequentemente, «já ultrapassou o investimento de um milhão de euros», tendo em conta o empenho de 151 investigadores, 30 deles integrados. Assim, ao divulgar os resultados e a edição de informação científica e técnica decorrente dos seus 107 projectos de investigação, José Manuel Casanova referiu que 62 deles estão ainda em curso.
Às cinco teses de doutoramento defendidas e de mais 27 em fase de elaboração, o CIMAGO motivou também 128 teses de mestrado e acompanha outras 40. Por outro lado, há igualmente a contabilizar «128 artigos científicos publicados em revistas de impacto e 289 em revistas indexadas», a que se aliam «83 conferências organizadas e participadas, com 86 comunicações e 364 posters», inventariou o ortopedista e académico José Casanova.
«Para uma instituição que tem uma área muito específica de actuação, penso que tem desenvolvido um trabalho que merece, pelo menos, o reconhecimento», expressou o orador, salientando a respectiva actividade científica programada, particularmente no campo da investigação translacional. Antes de concluir a sua alocução, o médico prestou «uma singela homenagem» ao catedrático de Pneumologia Manuel Fontes Baganha, recentemente desaparecido, «que foi, além de investigador e de professor na Faculdade de Medicina [FMUC], um apoiante do CIMAGO, desde a primeira hora».
Por sua vez, o director da FMUC, Joaquim Neto Murta, reconheceu ter sido feito «um esforço no sentido de juntar grupos» em torno da Oncologia, do meio ambiente e da Genética, domínios que constituem «um ponto de vista estratégico, em termos de desenvolvimento». Até porque, a seu ver, «os grupos isolados têm pouca força para irem buscar incentivos ou para arranjarem financiamentos», de modo a «projectar as estruturas».
A esse propósito, o catedrático de Oftalmologia chamou a atenção dos presentes para a existência de um «grande potencial de financiamento que vai, brevemente, através do Horizonte 2020» (programa-quadro comunitário de investigação e inovação, com um orçamento global superior a 77 mil milhões de euros para o período de 2014 a 2020, orientado para o apoio à investigação, por co-financiamento de projectos), impulsionar «a interdisciplinaridade e a inter-institucionalidade entre os diversos grupos, fundamentalmente a nível da região Centro». Nessa lógica, o Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento (IME) da Universidade de Coimbra poderá, segundo os seus impulsionadores, ser «uma realidade nos próximos seis anos».


CAIXA

Interlocução entre a investigação clínica e a investigação fundamental

Na convicção de que «a Oncologia, o Ambiente e a Genética são capitais na formação e no funcionamento destas estruturas», o director da FMUC, ante as mudanças significativas na sociedade (sendo relevante o envelhecimento demográfico) e na economia, sustentou que «estes desafios, a breve trecho, serão uma realidade». Por isso, o catedrático Joaquim Murta lembrou, na cerimónia de abertura da 29.ª Reunião das «Actualizações em Oncologia», que a Faculdade de Medicina dispõe de um gabinete de apoio a projectos nestas linhas de investigação e inovação, enquadráveis no programa comunitário Horizonte 2020.
A patologista Maria Leonor David aproveitou a oportunidade para falar da Associação Portuguesa de Investigação em Cancro (ASPIC), existente há cerca de dois anos e que se propõe à pesquisa multidisciplinar em cancro, «reunindo todos os que participam neste universo independentemente da sua formação académica ou profissional».
Segundo a presidente da direcção da ASPIC, que trabalha no Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), «Portugal era um dos poucos países em que não havia uma associação nacional de investigação em cancro». Sob alguma «pressão internacional», a ASPIC foi criada e os seus impulsionadores estão «a fazer para que ela cresça e tenha impacto em termos nacionais e também para que exista interlocução internacional».
«Penso que o CIMAGO é a tradução regional da interlocução entre a investigação clínica e a investigação fundamental, na prática», particularizou Maria Leonor David, argumentando que deve haver «um palco de diálogo» entre os médicos, os investigadores e demais especialistas. «É importante que se construa uma instituição ou associação de investigação que dê força à pesquisa em cancro e que seja capaz de dialogar com as entidades governamentais; e também com as associações de doentes, as quais querem informação credibilizada», concluiu a dirigente da ASPIC.


Vitalino José Santos

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