Prevenção de lesões, a atitude certa
por Frederico Nascimento | 12.02.2015
XII Congresso da Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva
Realizou-se nos passados dias 11, 12 e 13 de Dezembro o XII Congresso da Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva (SPMD) com o tema: Medicina Desportiva – Novos Desafios para o Século XXI. Sob a direcção da Prof. Dra. Maria João Cascais, presidente do Congresso da SPMD, reuniu um leque vasto de prelectores oriundos de áreas de formação distintas que abordaram temas variados.
Embora especialmente focado no papel da medicina desportiva na prevenção e tratamento do atleta de alto rendimento, foram também abordados temas relacionados com os atletas jovens e atletas séniores assim como a introdução às medicinas complementares, nomeadamente a acupunctura e osteopatia, que cada vez mais têm lugar nos recursos utilizados pelas equipas multidisciplinares que acompanham o desporto de alto rendimento. Em simultâneo realizaram-se apresentações de posters, mesas redondas e comunicações relacionadas com o atleta e a actividade desportiva.
Mesa redonda debate prevenção de lesões
A primeira redonda com o tema «Prevenção de Lesões-Estratégia para Melhor Rendimento Desportivo» teve como prelectores o Prof. Jan Ekstrand, o Dr. Pedro Magro (pé), o Dr. Pedro Grenate (joelho), o Dr. Gonçalo Borges (ombro) e por fim o Dr. Paulo Beckert.
O primeiro orador desta mesa redonda foi o Prof. Jan Ekstrand que iniciou a sua prelecção com a apresentação do «Footbal Research Group» organismo integrante da UEFA onde realiza estudos epidemiológicos referentes às lesões no futebol de alto nível. Afirmou também que vinha partilhar a sua experiência e os resultados da pesquisa realizada com o objectivo de ajudar a prevenir lesões e a manter os jogadores em actividade.
Explicou em seguida que recolhe dados nos melhores clubes de futebol desde há muitos anos como parceiro da UEFA e que convida os 32 clubes participantes na Liga dos Campeões a participarem no estudo. Os dados são recolhidos mensalmente e em retorno, é enviado aos clubes a totalidade de dados recolhidos. Esta informação é vital para a manutenção dos jogadores em actividade.
Segundo o Prof Ekstrand a importância da prevenção de lesões é demonstrada pela estatística que demonstra que «o risco de lesão ao nível da elite desportiva, é 1000 vezes superior quando comparada com outras profissões, consideradas de risco». Como consequência o Prof.Ekstrand refere que «numa equipa com 25 jogadores são expectáveis cerca de 50 «time loss injuries» (lesões com suspensão de actividade - treino ou competição) ou seja, cerca de 2 lesões / jogador / época desportiva.»
Em seguida explicou também que existe uma grande diferença na avaliação do risco de lesão em treino e em competição referindo que «em competição o risco é cerca de 6 a 7 vezes mais elevado e ainda que quanto mais importante é o jogo mais elevado é o risco». Por esse motivo apontou o exemplo de clubes como FC Porto, SL Benfica e Sporting CP, que «por estarem numa competição como a Liga dos Campeões têm de encarar o aumento do risco de lesão como natural».
Ressalva ainda que praticar a actividade em relvados artificiais não é muito popular, mas que segundo os dados do FRG o risco de lesão é semelhante ao de jogar em relva natural. Especifica que o «padrão de lesões é um pouco diferente mas nível de risco de lesão não é superior ao da relva natural.»
Após esta breve introdução o Prof. Ekstrand abordou o primeiro problema que o seu centro de estudos colocou à UEFA: «o que acontece ao atleta se jogar demasiados jogos e não tiver tempo de recuperação entre eles? O que isso representa ao nível das lesões e do rendimento desportivo?».
Com os dados do primeiro estudo demonstrou-se que “a diminuição do tempo de recuperação aumentava o risco de lesão e fazia diminuir a performance e que jogar com demasiada frequência, 2 vezes por semana como acontece nos clubes de alto nível, o risco de lesões musculares aumenta significativamente devido à fadiga”.
Conforme explicou o Prof. Ekstrand devido a estas conclusões «tanto a UEFA como a FIFA regulamentaram o intervalo minino exigido entre os jogos».
Em seguida informou ainda que a base de dados organizada pelo grupo tem cerca de 20.000 lesões, e que permitem uma elevada capacidade de previsão do tempo de paragem do atleta e assim informar os restantes agentes desportivos.
Constatou que o FRG aferiu que as lesões mais comuns no futebol de elite são similares no atleta masculino e feminino e que a lesão muscular mais comum é a que acontece nos isquiotibiais (hamstring) - 13% de todas as lesões - pelo que cada equipa terá entre 6 a 7 lesões de isquiotibiais por época com um período de ausência de cerca de 2 semanas. Também se verifica que lesões do MCL têm um período de 2 a 3 semanas de ausência até ao retorno ao treino sem limitações. Apontou ainda outra das vantagens da base de dados: «em lesões raras como a ruptura do LCA ou fracturas do 5º metatarso é poder informar os médicos das equipas, que não conseguem obter por si só dados fidedignos que lhe permitam fazer uma previsão acertada do desenvolvimento da lesão».
Referiu que pelos dados recolhidos é previsível que uma lesão do LCA acontece a cada 2 épocas e que a média de retorno à actividade é de 6/7 meses. Um outro exemplo referido foi as lesões meniscais no futebol: «Há uma maior prevalência de lesões no menisco externo, que demoram mais tempo a recuperar que as do menisco interno». Especificou em seguida que existe no FRG um elemento especializado em lesões do LCA.
Na base de dados constam cerca de 100 lesões documentadas, quase todas são tratadas cirurgicamente e os dados recolhidos, que incluem também jogadoras femininas na Escandinávia, mostram que «cerca de 95% dos atletas retornam à actividade competitiva de elite num espaço de 10 meses e que em 2 anos 100% destes jogadores retomam a actividade plena».
O Prof. Ekstrand em seguida colocou o seguinte problema: após efectuar a revisão da literatura que analisa o retorno à actividade ao nível da execução anterior à lesão em não desportistas, que este é muito baixo, entre 30, 50 e 60% consoante o estudo: «Qual a razão desta grande diferença?». Apontou para quatro factores: 1 - O diagnóstico precoce realizado no máximo prazo de 8 dias. Comparou, referindo que um cidadão «normal» poderá esperar até um ano devido à evolução do processo clinico normal; 2 - A capacidade dos cirurgiões. Referiu que os jogadores são enviados para os melhores cirurgiões do mundo e que geralmente são operados com o enxerto retirado do tendão patelar; 3 - O processo de reabilitação altamente individualizado onde o atleta pode estar várias horas seguidas diariamente na fisioterapia ao invés da população em geral; 4 - A questão volitiva.
O facto de serem profissionais impele os atletas para uma recuperação mais acelerada. Analisados estes aspectos colocou a questão: «Será que podemos aprender alguma coisa este processo de recuperação de elite? Como podemos incrementar as nossas taxas de sucesso, no retorno à actividade, noutros níveis de prática desportiva?». Na sua opinião «é no processo de reabilitação que estão as grandes diferenças quando comparados os processos de reabilitação e que por isso seria nessa área que deveria estar o grande foco» de atenção.
Voltando ao tema da prevenção de lesões o Prof.
Ekstrand reafirma que o objectivo primordial do FRG é a prevenção de lesões para conseguir manter os atletas em actividade mais tempo e questionou se é possível considerando que a resposta certa “é um sim e um não!”. Apontou que a nível amador e na formação, através de programas como o FIFA11, têm sido alcançados bons resultados mas refere que ao nível do futebol de elite «na globalidade, o risco de lesão não tem decrescido».
O Prof. Ekstrand proseguiu a sua prelecção referindo que as lesões musculares são grande problema ao nível do desporto de elite e que o número de lesões musculares tem crescido em cada época cerca de 3%. Apontou a causa deste aumento como sendo a evolução do jogo referindo-se ao aumento da velocidade de jogo e de ser tecnicamente mais exigente. Fez notar que as lesões dos isquiotibiais, também conhecidas como a «lesão dos sprinters», são as prevalentes devido aos factores técnicos enunciados.
Segundo o Prof. Ekstrand o focus da pesquisa tem de evoluir para a prevenção das lesões musculares ao nível de elite. Para este caso especifico refere que existe um exercício o «nordic hamstrings» recomendado como prevenção para este tipo de problemas «mas ao contactar com os treinadores eles dizem que precisam de práticas especificas para o futebol». Na sua opinião refere: «a comunidade clínica deve ser um pouco mais orientada para o desporto, deve sair do laboratório e trabalhar em consonância com os treinadores para se descobrir como prevenir estas lesões».
Na sequência da sua apresentação o Prof. Ekstrand focou o seguinte aspecto: «se o risco de lesão não desce por que razão se hão-de preocupar os treinadores?»
Apontou que os clubes estão focados fundamentalmente em 2 factores: «o rendimento e o negócio do futebol». Por este motivo referiu ser necessário demonstrar aos clubes o significado das lesões desportivas em termos de performance e qual o seu custo financeiro. Referiu que o custo da ausência de competição de um jogador de alto nível durante cerca de um mês ronda os 600.000€ pelo que sugeriu a contratação de serviços médicos empenhados no trabalho preventivo de lesões.
Em seguida apontou os aspectos fundamentais para que este trabalho se desenvolva. «definir quais são os factores de risco e quem os controla». Conforme referiu o Prof. Ekstrand os factores de risco principais são: os factores intrínsecos do «atleta», o factor «carga» e o factor «clube»
Em seguida colocou a questão: «Quem controla estes factores? A equipa médica deverá controlar o jogador adequando a sua preparação à sua condição mas a equipa clínica é afastada nas decisões relativas ao factor carga - número de jogos e a sua preparação –- pois é controlada pelo treinador que conjuntamente com a equipa médica, é afastado se as decisões tiverem a ver com o factor clube que depende do CEO e dos directores são quem toma as decisões».
Concluiu, então, que todos os participantes e intervenientes no processo devem estar particularmente focados na prevenção de lesões pois caso contrário aumentará a ausência da actividade, diminuirá a performance do atleta e aumentarão os custos do clube.
Lesões do pé
O prelector seguinte da mesa redonda foi o Dr. Pedro Magro, que iniciou a sua prelecção referindo que iria chamar a atenção para a pormenores relacionados com a prevenção de lesões do pé. Segundo o Dr. Pedro Magro as lesões do pé e da tibiotársica são locais onde ocorrem com muita frequência no futebol e noutras modalidades mas relembrou que não são as únicas e que lesões nos maléolos do tornozelo, no tendão de Aquiles, as lesões relacionadas com a base do 5º metatarso e também lesões relacionadas com a «fascia plantar» são também comuns. Referiu em sequência outras modalidades desportivas com grande incidência de lesões no pé: ténis e a corrida mas que «também se pode falar do andebol, do rugby e do basquetebol».
Referindo-se a aspectos fundamentais para a prevenção de lesões focou primariamente o «aquecimento» dizendo que “como em tantas outras lesões é fundamental como prevenção de lesões” explicou que sobretudo a atletas em desenvolvimento, deve recomendar-se a realização de um bom aquecimento devido a este reduzir significativamente o risco de lesão nestes segmentos.
Em seguida apontou o treino físico ou «preparação muscular» para a actividade como fundamental para a prevenção de lesões: «o trabalho muscular de preparação tendo em conta a idade do atleta e o seu desenvolvimento corporal contribuirão muito para que estas lesões sejam menos frequentes».
Como terceiro aspecto fundamental para a prevenção de lesões salientou a importância da escolha do calçado. Este deve ser escolhido de acordo com o tipo de pé do atleta e também com a modalidade. Referiu não ter qualquer dúvida em afirmar que resultam de calçado não adequado ao pé do atleta apontado que «os atletas olham a aspectos estéticos da bota mas que se esquecem do próprio formato do pé». Sugeriu a realização de estudos da podometria e em particular de podometria computorizada para aconselhar o uso de palmilhas.
Referiu em seguida alguns dos lesões que surgem devido à escolha de calçado inadequado: dedos em martelo, pequenos traumatismos ungueais e calosidades. Apontou em seguida o exemplo do atletismo onde se dá muita importância ao tipo de apoio que os atletas fazem ao solo se supinadores se pronadores havendo já calçado disponivel para cada tipo de pé. Acrescentou referindo que «os atletas de nascença têm muitas deformidades no pé que requerem atenção especializada».
Enquanto ortopedista apontou que «penso que as equipas médicas devem ter apoio de podólogos que as ajudem a tratar os pés dos atletas”. Para concluir este tema apontou que “os sapatos não duram sempre» que devido às dificuldades económicas muitos jogadores utilizam sapatos que já não são adequados para proteger o pé e o calcanhar das agressões.
O quarto aspecto que aponta como fundamental é o tipo de piso onde se realiza a prática desportiva. Como referiu o Dr. Pedro Magro «a prática desportiva em terrenos irregulares contribui para o aumento de lesões em particular no pé e na tibiotársica».
Como nota final o Dr. Pedro Magro deixou uma mensagem: «Os atletas devem escutar o seu próprio corpo, não ocultar, nem ao treinador nem aos médicos, os sintomas e as dores que sentem devido a que se não escutar o seu corpo e continuar a sobrecarregar o corpo ele será um candidato a lesionar-se.»
Como prevenir algumas lesões do joelho
Em seguida o Dr. Pedro Grenate iniciou a sua prelecção referindo que iria focar os aspectos que lhe surgiram na sua prática sobre o que se poderá fazer para prevenir algumas lesões do joelho, embora aponte que «as há que não são preveníveis».
Começou por dividir os factores de lesão em duas categorias: factores intrínsecos ao próprio atleta e extrínsecos que poderão ser modificados e melhorados. Explicou que factores intrínsecos como o sexo e a anatomia não são passíveis de serem alterados. Apontou para a maior incidência das lesões do LCA no sexo feminino e nas configurações em valgo mas referiu que os índices de massa corporal e os balanços musculares podem ser trabalhados para prevenir as lesões musculares e tendinosas mas referiu que este aspecto está relacionada com clubes poderem ou não prestar melhor e maior atenção à preparação física.
Um outro aspecto que apontou foi que o atleta com a experiencia ganha mecanismos de defesa que o ajudam a prevenir lesões nomeadamente devido treino especifico na posição em que jogam e a técnica que adquirem.
Como factores extrínsecos apontou: o contacto físico e as leis dos vários jogos podem ser modificadas ou melhoradas para se evitar situações onde poderão ocorrer lesões para demonstrar este aspecto deu o exemplo do rugby onde anualmente existe uma reunião onde os médicos e os árbitros são chamados a analisar lesões catastróficas para alterar as leis do jogo para prevenir este tipo de lesões.
Referindo-se à condição física dos jogadores em particular aos tempos de recuperação e fadiga como factor de aparecimento de lesões musculares e tendinosas apontou que a monitorização por GPS «indica o caminho certo», pois a análise dos dados obtidos permite encontrar padrões de fadiga e/ou de defesa dos atletas que ajudam a perceber quais os que têm mais risco de contrair lesões.
O aspecto seguinte que referiu foi previamente referido pelo Dr. Pedro Magro: o piso. Complementou referido que nos relvados e campos sintéticos há uma maior incidência de lesões musculares e tendinosas mas que em relação a lesões do LCA as superfícies duras dos pavilhões, onde a melhoria da «grip»/aderência dos sapatos parece ser o factor que indica o aumento de facto de lesões do LCA principalmente devido aos movimentos de pivot e cutting que provocam maiores torções de joelho.
Em seguida apontou duas questões fundamentais para a prevenção de lesões: o papel dos fisioterapeutas e de toda as práticas capazes de proteger e melhorar as capacidades dos atletas como as ortoses, o «strapping», a «kinesiotape» entre outras e o equipamento ressalvando a necessidade de adequar o calçado ao piso.
Terminou referindo que o jogo provoca lesões absolutamente imprevisíveis e inevitáveis onde não há nem prevenção nem capacidade física que as permitam evitar.
Prevenção de lesões do ombro
O próximo palestrante foi o Dr. Gonçalo Borges que abordou a temática da prevenção de lesões ao nível do ombro. Começou por relembrar que ombro não é uma articulação mas sim um complexo articular com suas características anatómicas e vasculares muito específicas o que torna a intervenção a este nível muito difícil e complexa. Apontou que as lesões são quase todas traumáticas ou, principalmente, lesões de sobrecarga.
Em seguida descreveu o seu raciocínio quando aborda questões relacionadas com lesões relacionadas com o ombro. Começou por referir a especificidade técnica. Explicou que o conhecimento exacto de como é realizado o gesto técnico, dificilmente se conseguirá fazer um diagnóstico correcto, uma boa prevenção e até uma boa readaptação após lesão. Apontou em seguida que os desequilíbrios musculares, os défices de estabilidade, a fadiga, a flexibilidade, o corpo, o core e a força em geral deverão ser estudados para que os atletas saibam transferir a sua eficiência muscular no gesto desportivo.
Segundo o Dr. Gonçalo Borges todos estes aspectos são motivo de carga no complexo articular do ombro e, se o médico não estiver atento a tudo isto, seguramente que lhe vão escapar elementos fundamentais. Lembrou ainda que um aspecto fundamental na prevenção de lesões no ombro é a estabilidade da omoplata. Apontou que «o ombro é um complexo articular e que a omoplata é a base desse complexo. Pelo que se esta não estiver correctamente estabilizada, toda a sobrecarga na estrutura muscular do ombro será agravada”.
Em seguida deu um exemplo concreto de desequilíbrio muscular frequente apontando que os atletas trabalham muito a parte anterior: peitoral, deltóide anterior e até o grande dorsal e descuram muito o aspecto posterior. Devido a isto existe uma anteriorização da cabeça do úmero e uma rotação interna da mesma, o que coloca o ombro em situação de conflito com facilidade.
Voltou a referir que o equilíbrio muscular «torna-se absolutamente fundamental e não se pode descurar» e deu o exemplo dos nadadores de alta competição que nadam cerca de 10km dia trabalhando principalmente os componentes anteriores e grande dorsal pelo que é necessário reeducar a musculatura posterior e que esse trabalho tem de ser muito efectivo não podendo ser curto e apressado.
O aspecto seguinte que o Dr. Gonçalo Borges apontou foi a «flexibilidade». A sua importância deve-se à circunstância de os equilíbrios e tensões excessivas irão fazer com que a funcionalidade anatómica no gesto desportivo não esteja correcta e, por isso, existe a possibilidade de agravar lesões. Explicou que flexibilidade não é só o ombro mas que tem de envolver as cadeias posteriores tanto a lombar como dos membros inferiores.
A flexibilidade entre os componentes dos membros inferiores é o que permite uma correcta passagem da força dos membros inferiores para os membros superiores. Lembrou que em determinadas situações a força dos membros inferiores e do core é acumulada até à execução final do gesto técnico.
Em seguida apontou a questão «força» referindo que «mesmo que o gesto possa precisar de força explosiva precisa também tem de ter resistência porque senão há processos de fadiga, e estes processos, trazem naturalmente erros de eficiência do gesto técnico. Em termos do ombro pode levar a uma má estabilidade da cabeça do úmero o que irá facilitar o conflito secundário.
Por estas razões, afirmou, é um trabalho obrigatório de prevenção. Para reforçar este aspecto deu o exemplo do rugby há jogadores que pesam 100, 110kg e que com a velocidade que atingem, podem causar impactos com forças superiores a 10G e relativizou referindo que um acidente de automóvel pode ter impactos até 14,5G demonstrando porque razão todo o trabalho de preparação e prevenção tem que obrigatoriamente envolver a força.
Para finalizar resumiu a sua abordagem referindo que “para haver prevenção tem que existir naturalmente um conhecimento da técnica, da flexibilidade no equilíbrio muscular, da força específica, da força em geral, da resistência aeróbia e do diagnóstico atempado, que depende muito do atleta pois este tem de vir explicar o que tem e o que sente». Acrescentou um aspecto final: a propriocepção denotando que «quem não faz trabalho proprioceptivo não tem memória muscular e por isso nunca vai ser capaz de se defender de uma nova lesão”.
Reabilitação na prevenção de lesões
O Dr. Paulo Beckert tomou a palavra de seguida e iniciou a sua intervenção caracterizando o papel da reabilitação na prevenção de lesões denotando que existe sempre o «pré -acidente, o acidente e o pós acidente» e que é fundamental dominar a cadeia onde ocorrem estas situações: o praticante, o ambiente e o próprio equipamento.
Explicou que a reabilitação aparece como prevenção terciária pois surge no pós-acidente e que tal como o professor Ekstrand salientara essa foi uma das razões pelas quais se atingiram por exemplo resultados óptimos na prevenção do LCA. A cadeia da prevenção foi sendo dominada nas diferentes vertentes e uma delas é a da reabilitação.
Salientou que a estruturação de um plano de reabilitação, num contexto de prevenção, deve ter em conta o planeamento desse processo de reabilitação e que este se desenvolve em etapas. Em seguida descreveu as fases do sistema por si utilizado:
R0 - Fase preventiva é uma fase em que «temos de reconhecer a dimensão do problema, a dimensão dos factores de risco, dos mecanismos da lesão». Este reconhecimento permite estabelecer e estruturar quaisquer planos de prevenção e recuperação
R1- Fase aguda. «É uma etapa redutiva. Reduzir dor, reduzir edemas”. Esta fase tem uma lógica que se sobrepõe à matriz de cicatrização, à biologia e à evolução dos tecidos». O Dr. Paulo Beckert realçou que para a reabilitação «mais importante que dominar as técnicas é dominar a biologia do processo de cicatrização com algum método» comparando a sua importância na metodologia do treino para o rendimento desportivo referindo que «o rendimento inicia-se, precisamente, neste processo de reabilitação».
R3 - Fase sub-aguda ou restaurativa. Nesta fase vão-se restaurar padrões de mobilidade, padrões de força muscular e padrões de proprioceptividade.
R4 - Fase de integração. O Dr. Paulo Beckert considerou que esta fase nem sempre é contemplada mas que nos clubes de elite o é e que é a fase que vai permitir integrar o atleta na actividade.
Fez notar que ao cumprir estas fases já não se está a falar do processo de reabilitação, excepto se se estiver a falar da questão central da área de reabilitação que é a lesão ou o «reinjury», está-se sim a elaborar uma prevenção terciária que é concomitante com a prevenção primária para uma recidiva de lesão.
Sublinhou que geralmente nos modelos tradicionais se andava sempre à volta das primeiras fases: reduzia-se o edema, propunha-se descanso, recuperava-se força e voltava-se a jogar. Agora valorizando-se a última esta fase e reconhecendo-se a importância da primeira está-se perante a «moderna medicina desportiva, a moderna dimensão do tratamento». Referiu que «se na reabilitação as três fases R1,R2 e R3 são as típicas, a nova fase adequa-se à medicina em geral e na reabilitação pode ser classificada como R0 num conceito de prevenção terciária ou primária no caso das recidivas da lesão».
Em seguida aprofundou a informação sobre as fases acima referidas relatando aspectos específicos das mesmas. Na fase R1 os conceitos básicos são o controlo da dor e inflamação no processo cicatricial e que para isso existem um conjunto grande de mecanismos: medicação e agentes físicos para controlar estes processos de dor e inflamação.
Na R2, relembrou aspectos já referidos anteriormente pelo Dr. Gonçalo Borges: a mobilidade articular pela sua importância na perda de movimentos e a dor na defesa muscular, a força e a resistência muscular referindo directamente que «é necessário avaliar o tipo de fortalecimento, as questões relacionadas com o «overtraining» e condicionar os princípios de sobrecarga. A força é uma questão central nos processos de recuperação, reabilitação e de rendimento desportivo».
Em seguida abordou a fase R3 ressalvou um conjunto de parâmetros que considerou fundamentais: o tipo de cadeias cinéticas essenciais para proteger as articulações ou a adequação dos movimentos e o controlo neuromuscular ainda na fase de restauro. Desenvolveu referindo que «o controlo neuromuscular é fulcral para melhoria funcional num processo de reabilitação que integrará todo um conjunto de actividades da vida diária, irá buscar componentes de proprioceptividade estática e dinâmica e cinesiológica e todos os conceitos da proprioceptividade em termos dos sistemas aferentes e eferentes no controlo neuromotor.
O controlo neuromotor é fundamental para o controlo dos gestos funcionais. Para finalizar, quando se referiu à fase R4 apontou que «é preciso fazer a progressão dos processos reabilitativos para o gesto técnico, pois sem esta transferência a reabilitação não está completa.» Referiu que sobretudo «ainda há necessidade de criar modelos de “return to play” ( retorno à competição)».
Em seguida sintetizou o conceito de prevenção de lesões referindo que este se deve ao objectivo de manter e/ou diminuir o número de lesões em virtude do aumento do número de praticantes desportivos. Apontou vários factores relembrando o prof. Ekstrand e os estudos epidemiológicos que permitem conhecer a dimensão do problema e os seus os mecanismos.
Focou também a interacção das condicionantes de risco realçando que «em medicina desportiva o que se faz é mitigar o risco que se aceita ou não». Este aceitar do risco em termos clínicos é muito lato, mas quando se introduzem os agentes modificadores da decisão desportiva sobre o retorno à competição, o risco modifica-se de acordo com a exigência desportiva, nível de competição, exigência do treinador e conceitos médicos. Em alta competição tudo isto se mistura tal como lembrou o Prof. Ekstrand «várias partes estão envolvidas no processo de decisão».
Para finalizar referiu que para que a cadeia da lesão surja é preciso que fundamentalmente exista um conjunto de factores intrínsecos que poderão ser ou não modificáveis, que colocam os atletas como predispostos ou não para uma lesão, sendo que esta pode ocorrer ou não.
Assinalou que é necessário uma conjugação de factores para que haja efectivamente uma lesão: a fraqueza muscular, o tipo de local, o piso escorregadio ou não e, por fim o mecanismo de lesão. Rematou esta ideia dizendo «a conjugação destes factores pode ser apelidada de a tempestade perfeita».
Em seguida abordou o conceito de modelo recursivo onde a lesão nem sempre acontece mesmo estejam em presença todos os factores da cadeia. Significa que ou foi sorte ou que se surgiu um conjunto de factores que evitou o aparecimento de lesão. No caso de surgir uma lesão deverá entrar-se nos modelos de reabilitação.
Para finalizar a sua apresentação o Dr. Paulo Beckert apontou como o desafio da Medicina Desportiva o conseguir lidar com as cadeias de factores intrínsecos e extrínsecos e os mecanismos de lesão e conseguir criar programas de prevenção e reabilitação de lesões desportivas.
Frederico Nascimento
1506Ant2f15JMA06A
Embora especialmente focado no papel da medicina desportiva na prevenção e tratamento do atleta de alto rendimento, foram também abordados temas relacionados com os atletas jovens e atletas séniores assim como a introdução às medicinas complementares, nomeadamente a acupunctura e osteopatia, que cada vez mais têm lugar nos recursos utilizados pelas equipas multidisciplinares que acompanham o desporto de alto rendimento. Em simultâneo realizaram-se apresentações de posters, mesas redondas e comunicações relacionadas com o atleta e a actividade desportiva.
Mesa redonda debate prevenção de lesões
A primeira redonda com o tema «Prevenção de Lesões-Estratégia para Melhor Rendimento Desportivo» teve como prelectores o Prof. Jan Ekstrand, o Dr. Pedro Magro (pé), o Dr. Pedro Grenate (joelho), o Dr. Gonçalo Borges (ombro) e por fim o Dr. Paulo Beckert.
O primeiro orador desta mesa redonda foi o Prof. Jan Ekstrand que iniciou a sua prelecção com a apresentação do «Footbal Research Group» organismo integrante da UEFA onde realiza estudos epidemiológicos referentes às lesões no futebol de alto nível. Afirmou também que vinha partilhar a sua experiência e os resultados da pesquisa realizada com o objectivo de ajudar a prevenir lesões e a manter os jogadores em actividade.
Explicou em seguida que recolhe dados nos melhores clubes de futebol desde há muitos anos como parceiro da UEFA e que convida os 32 clubes participantes na Liga dos Campeões a participarem no estudo. Os dados são recolhidos mensalmente e em retorno, é enviado aos clubes a totalidade de dados recolhidos. Esta informação é vital para a manutenção dos jogadores em actividade.
Segundo o Prof Ekstrand a importância da prevenção de lesões é demonstrada pela estatística que demonstra que «o risco de lesão ao nível da elite desportiva, é 1000 vezes superior quando comparada com outras profissões, consideradas de risco». Como consequência o Prof.Ekstrand refere que «numa equipa com 25 jogadores são expectáveis cerca de 50 «time loss injuries» (lesões com suspensão de actividade - treino ou competição) ou seja, cerca de 2 lesões / jogador / época desportiva.»
Em seguida explicou também que existe uma grande diferença na avaliação do risco de lesão em treino e em competição referindo que «em competição o risco é cerca de 6 a 7 vezes mais elevado e ainda que quanto mais importante é o jogo mais elevado é o risco». Por esse motivo apontou o exemplo de clubes como FC Porto, SL Benfica e Sporting CP, que «por estarem numa competição como a Liga dos Campeões têm de encarar o aumento do risco de lesão como natural».
Ressalva ainda que praticar a actividade em relvados artificiais não é muito popular, mas que segundo os dados do FRG o risco de lesão é semelhante ao de jogar em relva natural. Especifica que o «padrão de lesões é um pouco diferente mas nível de risco de lesão não é superior ao da relva natural.»
Após esta breve introdução o Prof. Ekstrand abordou o primeiro problema que o seu centro de estudos colocou à UEFA: «o que acontece ao atleta se jogar demasiados jogos e não tiver tempo de recuperação entre eles? O que isso representa ao nível das lesões e do rendimento desportivo?».
Com os dados do primeiro estudo demonstrou-se que “a diminuição do tempo de recuperação aumentava o risco de lesão e fazia diminuir a performance e que jogar com demasiada frequência, 2 vezes por semana como acontece nos clubes de alto nível, o risco de lesões musculares aumenta significativamente devido à fadiga”.
Conforme explicou o Prof. Ekstrand devido a estas conclusões «tanto a UEFA como a FIFA regulamentaram o intervalo minino exigido entre os jogos».
Em seguida informou ainda que a base de dados organizada pelo grupo tem cerca de 20.000 lesões, e que permitem uma elevada capacidade de previsão do tempo de paragem do atleta e assim informar os restantes agentes desportivos.
Constatou que o FRG aferiu que as lesões mais comuns no futebol de elite são similares no atleta masculino e feminino e que a lesão muscular mais comum é a que acontece nos isquiotibiais (hamstring) - 13% de todas as lesões - pelo que cada equipa terá entre 6 a 7 lesões de isquiotibiais por época com um período de ausência de cerca de 2 semanas. Também se verifica que lesões do MCL têm um período de 2 a 3 semanas de ausência até ao retorno ao treino sem limitações. Apontou ainda outra das vantagens da base de dados: «em lesões raras como a ruptura do LCA ou fracturas do 5º metatarso é poder informar os médicos das equipas, que não conseguem obter por si só dados fidedignos que lhe permitam fazer uma previsão acertada do desenvolvimento da lesão».
Referiu que pelos dados recolhidos é previsível que uma lesão do LCA acontece a cada 2 épocas e que a média de retorno à actividade é de 6/7 meses. Um outro exemplo referido foi as lesões meniscais no futebol: «Há uma maior prevalência de lesões no menisco externo, que demoram mais tempo a recuperar que as do menisco interno». Especificou em seguida que existe no FRG um elemento especializado em lesões do LCA.
Na base de dados constam cerca de 100 lesões documentadas, quase todas são tratadas cirurgicamente e os dados recolhidos, que incluem também jogadoras femininas na Escandinávia, mostram que «cerca de 95% dos atletas retornam à actividade competitiva de elite num espaço de 10 meses e que em 2 anos 100% destes jogadores retomam a actividade plena».
O Prof. Ekstrand em seguida colocou o seguinte problema: após efectuar a revisão da literatura que analisa o retorno à actividade ao nível da execução anterior à lesão em não desportistas, que este é muito baixo, entre 30, 50 e 60% consoante o estudo: «Qual a razão desta grande diferença?». Apontou para quatro factores: 1 - O diagnóstico precoce realizado no máximo prazo de 8 dias. Comparou, referindo que um cidadão «normal» poderá esperar até um ano devido à evolução do processo clinico normal; 2 - A capacidade dos cirurgiões. Referiu que os jogadores são enviados para os melhores cirurgiões do mundo e que geralmente são operados com o enxerto retirado do tendão patelar; 3 - O processo de reabilitação altamente individualizado onde o atleta pode estar várias horas seguidas diariamente na fisioterapia ao invés da população em geral; 4 - A questão volitiva.
O facto de serem profissionais impele os atletas para uma recuperação mais acelerada. Analisados estes aspectos colocou a questão: «Será que podemos aprender alguma coisa este processo de recuperação de elite? Como podemos incrementar as nossas taxas de sucesso, no retorno à actividade, noutros níveis de prática desportiva?». Na sua opinião «é no processo de reabilitação que estão as grandes diferenças quando comparados os processos de reabilitação e que por isso seria nessa área que deveria estar o grande foco» de atenção.
Voltando ao tema da prevenção de lesões o Prof.
Ekstrand reafirma que o objectivo primordial do FRG é a prevenção de lesões para conseguir manter os atletas em actividade mais tempo e questionou se é possível considerando que a resposta certa “é um sim e um não!”. Apontou que a nível amador e na formação, através de programas como o FIFA11, têm sido alcançados bons resultados mas refere que ao nível do futebol de elite «na globalidade, o risco de lesão não tem decrescido».
O Prof. Ekstrand proseguiu a sua prelecção referindo que as lesões musculares são grande problema ao nível do desporto de elite e que o número de lesões musculares tem crescido em cada época cerca de 3%. Apontou a causa deste aumento como sendo a evolução do jogo referindo-se ao aumento da velocidade de jogo e de ser tecnicamente mais exigente. Fez notar que as lesões dos isquiotibiais, também conhecidas como a «lesão dos sprinters», são as prevalentes devido aos factores técnicos enunciados.
Segundo o Prof. Ekstrand o focus da pesquisa tem de evoluir para a prevenção das lesões musculares ao nível de elite. Para este caso especifico refere que existe um exercício o «nordic hamstrings» recomendado como prevenção para este tipo de problemas «mas ao contactar com os treinadores eles dizem que precisam de práticas especificas para o futebol». Na sua opinião refere: «a comunidade clínica deve ser um pouco mais orientada para o desporto, deve sair do laboratório e trabalhar em consonância com os treinadores para se descobrir como prevenir estas lesões».
Na sequência da sua apresentação o Prof. Ekstrand focou o seguinte aspecto: «se o risco de lesão não desce por que razão se hão-de preocupar os treinadores?»
Apontou que os clubes estão focados fundamentalmente em 2 factores: «o rendimento e o negócio do futebol». Por este motivo referiu ser necessário demonstrar aos clubes o significado das lesões desportivas em termos de performance e qual o seu custo financeiro. Referiu que o custo da ausência de competição de um jogador de alto nível durante cerca de um mês ronda os 600.000€ pelo que sugeriu a contratação de serviços médicos empenhados no trabalho preventivo de lesões.
Em seguida apontou os aspectos fundamentais para que este trabalho se desenvolva. «definir quais são os factores de risco e quem os controla». Conforme referiu o Prof. Ekstrand os factores de risco principais são: os factores intrínsecos do «atleta», o factor «carga» e o factor «clube»
Em seguida colocou a questão: «Quem controla estes factores? A equipa médica deverá controlar o jogador adequando a sua preparação à sua condição mas a equipa clínica é afastada nas decisões relativas ao factor carga - número de jogos e a sua preparação –- pois é controlada pelo treinador que conjuntamente com a equipa médica, é afastado se as decisões tiverem a ver com o factor clube que depende do CEO e dos directores são quem toma as decisões».
Concluiu, então, que todos os participantes e intervenientes no processo devem estar particularmente focados na prevenção de lesões pois caso contrário aumentará a ausência da actividade, diminuirá a performance do atleta e aumentarão os custos do clube.
Lesões do pé
O prelector seguinte da mesa redonda foi o Dr. Pedro Magro, que iniciou a sua prelecção referindo que iria chamar a atenção para a pormenores relacionados com a prevenção de lesões do pé. Segundo o Dr. Pedro Magro as lesões do pé e da tibiotársica são locais onde ocorrem com muita frequência no futebol e noutras modalidades mas relembrou que não são as únicas e que lesões nos maléolos do tornozelo, no tendão de Aquiles, as lesões relacionadas com a base do 5º metatarso e também lesões relacionadas com a «fascia plantar» são também comuns. Referiu em sequência outras modalidades desportivas com grande incidência de lesões no pé: ténis e a corrida mas que «também se pode falar do andebol, do rugby e do basquetebol».
Referindo-se a aspectos fundamentais para a prevenção de lesões focou primariamente o «aquecimento» dizendo que “como em tantas outras lesões é fundamental como prevenção de lesões” explicou que sobretudo a atletas em desenvolvimento, deve recomendar-se a realização de um bom aquecimento devido a este reduzir significativamente o risco de lesão nestes segmentos.
Em seguida apontou o treino físico ou «preparação muscular» para a actividade como fundamental para a prevenção de lesões: «o trabalho muscular de preparação tendo em conta a idade do atleta e o seu desenvolvimento corporal contribuirão muito para que estas lesões sejam menos frequentes».
Como terceiro aspecto fundamental para a prevenção de lesões salientou a importância da escolha do calçado. Este deve ser escolhido de acordo com o tipo de pé do atleta e também com a modalidade. Referiu não ter qualquer dúvida em afirmar que resultam de calçado não adequado ao pé do atleta apontado que «os atletas olham a aspectos estéticos da bota mas que se esquecem do próprio formato do pé». Sugeriu a realização de estudos da podometria e em particular de podometria computorizada para aconselhar o uso de palmilhas.
Referiu em seguida alguns dos lesões que surgem devido à escolha de calçado inadequado: dedos em martelo, pequenos traumatismos ungueais e calosidades. Apontou em seguida o exemplo do atletismo onde se dá muita importância ao tipo de apoio que os atletas fazem ao solo se supinadores se pronadores havendo já calçado disponivel para cada tipo de pé. Acrescentou referindo que «os atletas de nascença têm muitas deformidades no pé que requerem atenção especializada».
Enquanto ortopedista apontou que «penso que as equipas médicas devem ter apoio de podólogos que as ajudem a tratar os pés dos atletas”. Para concluir este tema apontou que “os sapatos não duram sempre» que devido às dificuldades económicas muitos jogadores utilizam sapatos que já não são adequados para proteger o pé e o calcanhar das agressões.
O quarto aspecto que aponta como fundamental é o tipo de piso onde se realiza a prática desportiva. Como referiu o Dr. Pedro Magro «a prática desportiva em terrenos irregulares contribui para o aumento de lesões em particular no pé e na tibiotársica».
Como nota final o Dr. Pedro Magro deixou uma mensagem: «Os atletas devem escutar o seu próprio corpo, não ocultar, nem ao treinador nem aos médicos, os sintomas e as dores que sentem devido a que se não escutar o seu corpo e continuar a sobrecarregar o corpo ele será um candidato a lesionar-se.»
Como prevenir algumas lesões do joelho
Em seguida o Dr. Pedro Grenate iniciou a sua prelecção referindo que iria focar os aspectos que lhe surgiram na sua prática sobre o que se poderá fazer para prevenir algumas lesões do joelho, embora aponte que «as há que não são preveníveis».
Começou por dividir os factores de lesão em duas categorias: factores intrínsecos ao próprio atleta e extrínsecos que poderão ser modificados e melhorados. Explicou que factores intrínsecos como o sexo e a anatomia não são passíveis de serem alterados. Apontou para a maior incidência das lesões do LCA no sexo feminino e nas configurações em valgo mas referiu que os índices de massa corporal e os balanços musculares podem ser trabalhados para prevenir as lesões musculares e tendinosas mas referiu que este aspecto está relacionada com clubes poderem ou não prestar melhor e maior atenção à preparação física.
Um outro aspecto que apontou foi que o atleta com a experiencia ganha mecanismos de defesa que o ajudam a prevenir lesões nomeadamente devido treino especifico na posição em que jogam e a técnica que adquirem.
Como factores extrínsecos apontou: o contacto físico e as leis dos vários jogos podem ser modificadas ou melhoradas para se evitar situações onde poderão ocorrer lesões para demonstrar este aspecto deu o exemplo do rugby onde anualmente existe uma reunião onde os médicos e os árbitros são chamados a analisar lesões catastróficas para alterar as leis do jogo para prevenir este tipo de lesões.
Referindo-se à condição física dos jogadores em particular aos tempos de recuperação e fadiga como factor de aparecimento de lesões musculares e tendinosas apontou que a monitorização por GPS «indica o caminho certo», pois a análise dos dados obtidos permite encontrar padrões de fadiga e/ou de defesa dos atletas que ajudam a perceber quais os que têm mais risco de contrair lesões.
O aspecto seguinte que referiu foi previamente referido pelo Dr. Pedro Magro: o piso. Complementou referido que nos relvados e campos sintéticos há uma maior incidência de lesões musculares e tendinosas mas que em relação a lesões do LCA as superfícies duras dos pavilhões, onde a melhoria da «grip»/aderência dos sapatos parece ser o factor que indica o aumento de facto de lesões do LCA principalmente devido aos movimentos de pivot e cutting que provocam maiores torções de joelho.
Em seguida apontou duas questões fundamentais para a prevenção de lesões: o papel dos fisioterapeutas e de toda as práticas capazes de proteger e melhorar as capacidades dos atletas como as ortoses, o «strapping», a «kinesiotape» entre outras e o equipamento ressalvando a necessidade de adequar o calçado ao piso.
Terminou referindo que o jogo provoca lesões absolutamente imprevisíveis e inevitáveis onde não há nem prevenção nem capacidade física que as permitam evitar.
Prevenção de lesões do ombro
O próximo palestrante foi o Dr. Gonçalo Borges que abordou a temática da prevenção de lesões ao nível do ombro. Começou por relembrar que ombro não é uma articulação mas sim um complexo articular com suas características anatómicas e vasculares muito específicas o que torna a intervenção a este nível muito difícil e complexa. Apontou que as lesões são quase todas traumáticas ou, principalmente, lesões de sobrecarga.
Em seguida descreveu o seu raciocínio quando aborda questões relacionadas com lesões relacionadas com o ombro. Começou por referir a especificidade técnica. Explicou que o conhecimento exacto de como é realizado o gesto técnico, dificilmente se conseguirá fazer um diagnóstico correcto, uma boa prevenção e até uma boa readaptação após lesão. Apontou em seguida que os desequilíbrios musculares, os défices de estabilidade, a fadiga, a flexibilidade, o corpo, o core e a força em geral deverão ser estudados para que os atletas saibam transferir a sua eficiência muscular no gesto desportivo.
Segundo o Dr. Gonçalo Borges todos estes aspectos são motivo de carga no complexo articular do ombro e, se o médico não estiver atento a tudo isto, seguramente que lhe vão escapar elementos fundamentais. Lembrou ainda que um aspecto fundamental na prevenção de lesões no ombro é a estabilidade da omoplata. Apontou que «o ombro é um complexo articular e que a omoplata é a base desse complexo. Pelo que se esta não estiver correctamente estabilizada, toda a sobrecarga na estrutura muscular do ombro será agravada”.
Em seguida deu um exemplo concreto de desequilíbrio muscular frequente apontando que os atletas trabalham muito a parte anterior: peitoral, deltóide anterior e até o grande dorsal e descuram muito o aspecto posterior. Devido a isto existe uma anteriorização da cabeça do úmero e uma rotação interna da mesma, o que coloca o ombro em situação de conflito com facilidade.
Voltou a referir que o equilíbrio muscular «torna-se absolutamente fundamental e não se pode descurar» e deu o exemplo dos nadadores de alta competição que nadam cerca de 10km dia trabalhando principalmente os componentes anteriores e grande dorsal pelo que é necessário reeducar a musculatura posterior e que esse trabalho tem de ser muito efectivo não podendo ser curto e apressado.
O aspecto seguinte que o Dr. Gonçalo Borges apontou foi a «flexibilidade». A sua importância deve-se à circunstância de os equilíbrios e tensões excessivas irão fazer com que a funcionalidade anatómica no gesto desportivo não esteja correcta e, por isso, existe a possibilidade de agravar lesões. Explicou que flexibilidade não é só o ombro mas que tem de envolver as cadeias posteriores tanto a lombar como dos membros inferiores.
A flexibilidade entre os componentes dos membros inferiores é o que permite uma correcta passagem da força dos membros inferiores para os membros superiores. Lembrou que em determinadas situações a força dos membros inferiores e do core é acumulada até à execução final do gesto técnico.
Em seguida apontou a questão «força» referindo que «mesmo que o gesto possa precisar de força explosiva precisa também tem de ter resistência porque senão há processos de fadiga, e estes processos, trazem naturalmente erros de eficiência do gesto técnico. Em termos do ombro pode levar a uma má estabilidade da cabeça do úmero o que irá facilitar o conflito secundário.
Por estas razões, afirmou, é um trabalho obrigatório de prevenção. Para reforçar este aspecto deu o exemplo do rugby há jogadores que pesam 100, 110kg e que com a velocidade que atingem, podem causar impactos com forças superiores a 10G e relativizou referindo que um acidente de automóvel pode ter impactos até 14,5G demonstrando porque razão todo o trabalho de preparação e prevenção tem que obrigatoriamente envolver a força.
Para finalizar resumiu a sua abordagem referindo que “para haver prevenção tem que existir naturalmente um conhecimento da técnica, da flexibilidade no equilíbrio muscular, da força específica, da força em geral, da resistência aeróbia e do diagnóstico atempado, que depende muito do atleta pois este tem de vir explicar o que tem e o que sente». Acrescentou um aspecto final: a propriocepção denotando que «quem não faz trabalho proprioceptivo não tem memória muscular e por isso nunca vai ser capaz de se defender de uma nova lesão”.
Reabilitação na prevenção de lesões
O Dr. Paulo Beckert tomou a palavra de seguida e iniciou a sua intervenção caracterizando o papel da reabilitação na prevenção de lesões denotando que existe sempre o «pré -acidente, o acidente e o pós acidente» e que é fundamental dominar a cadeia onde ocorrem estas situações: o praticante, o ambiente e o próprio equipamento.
Explicou que a reabilitação aparece como prevenção terciária pois surge no pós-acidente e que tal como o professor Ekstrand salientara essa foi uma das razões pelas quais se atingiram por exemplo resultados óptimos na prevenção do LCA. A cadeia da prevenção foi sendo dominada nas diferentes vertentes e uma delas é a da reabilitação.
Salientou que a estruturação de um plano de reabilitação, num contexto de prevenção, deve ter em conta o planeamento desse processo de reabilitação e que este se desenvolve em etapas. Em seguida descreveu as fases do sistema por si utilizado:
R0 - Fase preventiva é uma fase em que «temos de reconhecer a dimensão do problema, a dimensão dos factores de risco, dos mecanismos da lesão». Este reconhecimento permite estabelecer e estruturar quaisquer planos de prevenção e recuperação
R1- Fase aguda. «É uma etapa redutiva. Reduzir dor, reduzir edemas”. Esta fase tem uma lógica que se sobrepõe à matriz de cicatrização, à biologia e à evolução dos tecidos». O Dr. Paulo Beckert realçou que para a reabilitação «mais importante que dominar as técnicas é dominar a biologia do processo de cicatrização com algum método» comparando a sua importância na metodologia do treino para o rendimento desportivo referindo que «o rendimento inicia-se, precisamente, neste processo de reabilitação».
R3 - Fase sub-aguda ou restaurativa. Nesta fase vão-se restaurar padrões de mobilidade, padrões de força muscular e padrões de proprioceptividade.
R4 - Fase de integração. O Dr. Paulo Beckert considerou que esta fase nem sempre é contemplada mas que nos clubes de elite o é e que é a fase que vai permitir integrar o atleta na actividade.
Fez notar que ao cumprir estas fases já não se está a falar do processo de reabilitação, excepto se se estiver a falar da questão central da área de reabilitação que é a lesão ou o «reinjury», está-se sim a elaborar uma prevenção terciária que é concomitante com a prevenção primária para uma recidiva de lesão.
Sublinhou que geralmente nos modelos tradicionais se andava sempre à volta das primeiras fases: reduzia-se o edema, propunha-se descanso, recuperava-se força e voltava-se a jogar. Agora valorizando-se a última esta fase e reconhecendo-se a importância da primeira está-se perante a «moderna medicina desportiva, a moderna dimensão do tratamento». Referiu que «se na reabilitação as três fases R1,R2 e R3 são as típicas, a nova fase adequa-se à medicina em geral e na reabilitação pode ser classificada como R0 num conceito de prevenção terciária ou primária no caso das recidivas da lesão».
Em seguida aprofundou a informação sobre as fases acima referidas relatando aspectos específicos das mesmas. Na fase R1 os conceitos básicos são o controlo da dor e inflamação no processo cicatricial e que para isso existem um conjunto grande de mecanismos: medicação e agentes físicos para controlar estes processos de dor e inflamação.
Na R2, relembrou aspectos já referidos anteriormente pelo Dr. Gonçalo Borges: a mobilidade articular pela sua importância na perda de movimentos e a dor na defesa muscular, a força e a resistência muscular referindo directamente que «é necessário avaliar o tipo de fortalecimento, as questões relacionadas com o «overtraining» e condicionar os princípios de sobrecarga. A força é uma questão central nos processos de recuperação, reabilitação e de rendimento desportivo».
Em seguida abordou a fase R3 ressalvou um conjunto de parâmetros que considerou fundamentais: o tipo de cadeias cinéticas essenciais para proteger as articulações ou a adequação dos movimentos e o controlo neuromuscular ainda na fase de restauro. Desenvolveu referindo que «o controlo neuromuscular é fulcral para melhoria funcional num processo de reabilitação que integrará todo um conjunto de actividades da vida diária, irá buscar componentes de proprioceptividade estática e dinâmica e cinesiológica e todos os conceitos da proprioceptividade em termos dos sistemas aferentes e eferentes no controlo neuromotor.
O controlo neuromotor é fundamental para o controlo dos gestos funcionais. Para finalizar, quando se referiu à fase R4 apontou que «é preciso fazer a progressão dos processos reabilitativos para o gesto técnico, pois sem esta transferência a reabilitação não está completa.» Referiu que sobretudo «ainda há necessidade de criar modelos de “return to play” ( retorno à competição)».
Em seguida sintetizou o conceito de prevenção de lesões referindo que este se deve ao objectivo de manter e/ou diminuir o número de lesões em virtude do aumento do número de praticantes desportivos. Apontou vários factores relembrando o prof. Ekstrand e os estudos epidemiológicos que permitem conhecer a dimensão do problema e os seus os mecanismos.
Focou também a interacção das condicionantes de risco realçando que «em medicina desportiva o que se faz é mitigar o risco que se aceita ou não». Este aceitar do risco em termos clínicos é muito lato, mas quando se introduzem os agentes modificadores da decisão desportiva sobre o retorno à competição, o risco modifica-se de acordo com a exigência desportiva, nível de competição, exigência do treinador e conceitos médicos. Em alta competição tudo isto se mistura tal como lembrou o Prof. Ekstrand «várias partes estão envolvidas no processo de decisão».
Para finalizar referiu que para que a cadeia da lesão surja é preciso que fundamentalmente exista um conjunto de factores intrínsecos que poderão ser ou não modificáveis, que colocam os atletas como predispostos ou não para uma lesão, sendo que esta pode ocorrer ou não.
Assinalou que é necessário uma conjugação de factores para que haja efectivamente uma lesão: a fraqueza muscular, o tipo de local, o piso escorregadio ou não e, por fim o mecanismo de lesão. Rematou esta ideia dizendo «a conjugação destes factores pode ser apelidada de a tempestade perfeita».
Em seguida abordou o conceito de modelo recursivo onde a lesão nem sempre acontece mesmo estejam em presença todos os factores da cadeia. Significa que ou foi sorte ou que se surgiu um conjunto de factores que evitou o aparecimento de lesão. No caso de surgir uma lesão deverá entrar-se nos modelos de reabilitação.
Para finalizar a sua apresentação o Dr. Paulo Beckert apontou como o desafio da Medicina Desportiva o conseguir lidar com as cadeias de factores intrínsecos e extrínsecos e os mecanismos de lesão e conseguir criar programas de prevenção e reabilitação de lesões desportivas.
Frederico Nascimento
1506Ant2f15JMA06A
Prevenção de lesões, a atitude certa