Urgências são «a janela» das ineficiências do SNS
por Rita Vassal | 24.03.2015
Especialistas relatam os problemas que causaram os constrangimentos sentidos nos serviços de urgênci
Porque é que as urgências entopem? Uma pergunta com resposta múltipla, mas que José Manuel Silva resumiu numa frase: «Porque são o resultado do sistema». E o diagnóstico foi consensual entre os participantes do encontro da APEGSaúde: falta investimento nos cuidados de saúde primários (CSP), os profissionais estão desmotivados e sobrecarregados e a política de Saúde está desfasada da realidade.
As notícias sobre o caos vivido nas urgências têm inundado a comunicação social dando a conhecer, na opinião de José Manuel Silva, as insuficiências do sector público de saúde. «A urgência é a janela do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que nos permite ver como está a funcionar o SNS» sublinhou o bastonário da Ordem dos Médicos no encontro promovido pela Associação Portuguesa de Engenharia e Gestão da Saúde (APEGSaúde) a 9 de Fevereiro na Ordem dos Médicos para discutir o motivo por que entopem as urgências. O representante dos médicos deitou por terra a argumentação da tutela ao afirmar que não houve uma epidemia de gripe com números acima do esperado, nem houve «uma onda de frio siberiano» que explicasse um aumento de afluxo de doentes aos serviços de urgência hospitalares que nem chegou a acontecer. O problema que está por trás dos problemas sentidos e registados nas urgências começa com a crise social vivida no País e cujas consequências se sentem ao nível dos casos clínicos que aparecem nas unidades hospitalares: utentes mais idosos e sobretudo com mais patologias descompensadas. Depois as urgências acabam por ser «o resultado do sistema», da forma como está organizado, da falta de planeamento da tutela, das carências de profissionais de enfermagem e da incorrecta alocação dos médicos, da falta de financiamento adequado e da inexistente articulação entre CSP e hospitais. José Manuel Silva lembrou que os CSP deveriam ser a porta de entrada do utente no sistema e não o são por vários motivos, desde a falta de médicos de família aos horários desfasados das necessidades das populações. Para o bastonário o alargamento de horário de algumas unidades de CSP «não foi feito antecipadamente» precavendo o período de maior procura de cuidados de saúde usual durante a época gripal e quando foi decretado em algumas unidades pouca foi a publicidade feita junto das comunidades. A isto junta-se uma rede de cuidados continuados que está «totalmente bloqueada», burocratizada e «desfasada da realidade local» e que segundo José Manuel Silva «tem de ser reavaliada». Para os hospitais o diagnóstico do representante dos médicos não é mais simpático. Os recursos humanos «estão abaixo dos níveis mínimos de segurança» e José Manuel Silva garante que não é raro encontrar urgências a serem asseguradas por internos sem supervisão de especialistas graduados. Aliás, para o bastonário, «a desorganização das equipas de urgência foi o pior que se fez» ao fomentar a contratação de profissionais tarefeiros em vez de apostar na contratação de profissionais para os quadros dos hospitais, cada vez mais difíceis e demoradas devido à necessidade de terem de ser autorizadas pelo Ministério das Finanças.
Discutir um «assunto com barbas» As carências actualmente sentidas no número de médicos de família são, para Rui Nogueira, «um assunto com barbas». Há muito que a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) vinha a alertar para a saída de profissionais da especialidade — aposentados por limite de idade ou por antecipação — e vinha a pedir «medidas excepcionais para uma situação excepcional», lembrou Rui Nogueira, presidente da APMGF, que acompanha esta matéria há mais de 10 anos. Certo que que nem os apelos junto dos deputados da Assembleia da República, nem junto da tutela surtiram efeito e hoje faltam cerca de mil médicos de família em Portugal, 66% dos quais na região de Lisboa e Vale do Tejo. Quem sai, assegura Rui Nogueira, sai «por exaustão» e quem fica sente-se «exausto, cansado e maltratado» pela actual política de Saúde. Política que, na opinião do representante dos médicos de família, tem enveredado por um «congelamento da reforma dos CSP» que foi pensada também como uma forma de colmatar as carências sentidas no terreno. «Desde há três anos que estamos a “patinar”, não se avança nem se vislumbra interesse político [em continuar a reforma]» relatou o médico.
«São precisas camas de internamento»
Também nos hospitais o diagnóstico não foi mais animador. Isabel Fonseca, directora do Serviço de Urgência Geral A do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) recordou que foi «o culto de que os hospitais é que eram o melhor que afastou as pessoas dos CSP». Hoje, reconhece a médica, quem está nos cuidados secundários e terciários pratica uma «Medicina reactiva» atendendo ao número crescente de utentes que tem pela frente, sendo que as urgências são o exemplo mais paradigmático. Isabel Fonseca reconheceu «alguns constrangimentos internos» nas urgências do CHUC, nomeadamente a espera pelos resultados dos exames de diagnóstico e depois o escoamento dos doentes para fora do serviço de urgências. Nesta matéria a especialista foi peremptória: «São precisas camas de internamento». Contudo, frisou, decretar a abertura de camas de internamento não é uma medida simples de efectivar no terreno pois implica mais equipamentos e a contratação de pessoal de saúde, não apenas de médicos, dando nota da carência sentida ao nível de profissionais de enfermagem e de operacionais técnicos e administrativos. Rita Perez, directora clínica do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, partilhou das preocupações relativas ao internamento hospitalar, defendendo uma maior «flexibilidade» na organização das camas. Contudo, para a médica por trás dos problemas relatados nos serviços de urgência está também o desaparecimento das carreiras médicas e a consequente perda da «cadeia de decisão». «É uma das razões porque os doentes estão mais tempo [nas urgências] à espera de uma decisão», relatou Rita Perez.
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«Desde há três anos que estamos a “patinar”, não se avança nem se vislumbra interesse político [em continuar a reforma]», relatou Rui Nogueira
«São precisas camas de internamento», afirmou Isabel Fonseca
José Manuel Silva enumerou os problemas vividos pelo SNS: falta de planeamento da tutela, carências de profissionais de enfermagem e incorrecta alocação dos médicos, falta de financiamento adequado e a inexistente articulação entre CSP e hospitais
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As notícias sobre o caos vivido nas urgências têm inundado a comunicação social dando a conhecer, na opinião de José Manuel Silva, as insuficiências do sector público de saúde. «A urgência é a janela do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que nos permite ver como está a funcionar o SNS» sublinhou o bastonário da Ordem dos Médicos no encontro promovido pela Associação Portuguesa de Engenharia e Gestão da Saúde (APEGSaúde) a 9 de Fevereiro na Ordem dos Médicos para discutir o motivo por que entopem as urgências. O representante dos médicos deitou por terra a argumentação da tutela ao afirmar que não houve uma epidemia de gripe com números acima do esperado, nem houve «uma onda de frio siberiano» que explicasse um aumento de afluxo de doentes aos serviços de urgência hospitalares que nem chegou a acontecer. O problema que está por trás dos problemas sentidos e registados nas urgências começa com a crise social vivida no País e cujas consequências se sentem ao nível dos casos clínicos que aparecem nas unidades hospitalares: utentes mais idosos e sobretudo com mais patologias descompensadas. Depois as urgências acabam por ser «o resultado do sistema», da forma como está organizado, da falta de planeamento da tutela, das carências de profissionais de enfermagem e da incorrecta alocação dos médicos, da falta de financiamento adequado e da inexistente articulação entre CSP e hospitais. José Manuel Silva lembrou que os CSP deveriam ser a porta de entrada do utente no sistema e não o são por vários motivos, desde a falta de médicos de família aos horários desfasados das necessidades das populações. Para o bastonário o alargamento de horário de algumas unidades de CSP «não foi feito antecipadamente» precavendo o período de maior procura de cuidados de saúde usual durante a época gripal e quando foi decretado em algumas unidades pouca foi a publicidade feita junto das comunidades. A isto junta-se uma rede de cuidados continuados que está «totalmente bloqueada», burocratizada e «desfasada da realidade local» e que segundo José Manuel Silva «tem de ser reavaliada». Para os hospitais o diagnóstico do representante dos médicos não é mais simpático. Os recursos humanos «estão abaixo dos níveis mínimos de segurança» e José Manuel Silva garante que não é raro encontrar urgências a serem asseguradas por internos sem supervisão de especialistas graduados. Aliás, para o bastonário, «a desorganização das equipas de urgência foi o pior que se fez» ao fomentar a contratação de profissionais tarefeiros em vez de apostar na contratação de profissionais para os quadros dos hospitais, cada vez mais difíceis e demoradas devido à necessidade de terem de ser autorizadas pelo Ministério das Finanças.
Discutir um «assunto com barbas» As carências actualmente sentidas no número de médicos de família são, para Rui Nogueira, «um assunto com barbas». Há muito que a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) vinha a alertar para a saída de profissionais da especialidade — aposentados por limite de idade ou por antecipação — e vinha a pedir «medidas excepcionais para uma situação excepcional», lembrou Rui Nogueira, presidente da APMGF, que acompanha esta matéria há mais de 10 anos. Certo que que nem os apelos junto dos deputados da Assembleia da República, nem junto da tutela surtiram efeito e hoje faltam cerca de mil médicos de família em Portugal, 66% dos quais na região de Lisboa e Vale do Tejo. Quem sai, assegura Rui Nogueira, sai «por exaustão» e quem fica sente-se «exausto, cansado e maltratado» pela actual política de Saúde. Política que, na opinião do representante dos médicos de família, tem enveredado por um «congelamento da reforma dos CSP» que foi pensada também como uma forma de colmatar as carências sentidas no terreno. «Desde há três anos que estamos a “patinar”, não se avança nem se vislumbra interesse político [em continuar a reforma]» relatou o médico.
«São precisas camas de internamento»
Também nos hospitais o diagnóstico não foi mais animador. Isabel Fonseca, directora do Serviço de Urgência Geral A do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) recordou que foi «o culto de que os hospitais é que eram o melhor que afastou as pessoas dos CSP». Hoje, reconhece a médica, quem está nos cuidados secundários e terciários pratica uma «Medicina reactiva» atendendo ao número crescente de utentes que tem pela frente, sendo que as urgências são o exemplo mais paradigmático. Isabel Fonseca reconheceu «alguns constrangimentos internos» nas urgências do CHUC, nomeadamente a espera pelos resultados dos exames de diagnóstico e depois o escoamento dos doentes para fora do serviço de urgências. Nesta matéria a especialista foi peremptória: «São precisas camas de internamento». Contudo, frisou, decretar a abertura de camas de internamento não é uma medida simples de efectivar no terreno pois implica mais equipamentos e a contratação de pessoal de saúde, não apenas de médicos, dando nota da carência sentida ao nível de profissionais de enfermagem e de operacionais técnicos e administrativos. Rita Perez, directora clínica do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, partilhou das preocupações relativas ao internamento hospitalar, defendendo uma maior «flexibilidade» na organização das camas. Contudo, para a médica por trás dos problemas relatados nos serviços de urgência está também o desaparecimento das carreiras médicas e a consequente perda da «cadeia de decisão». «É uma das razões porque os doentes estão mais tempo [nas urgências] à espera de uma decisão», relatou Rita Perez.
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«Desde há três anos que estamos a “patinar”, não se avança nem se vislumbra interesse político [em continuar a reforma]», relatou Rui Nogueira
«São precisas camas de internamento», afirmou Isabel Fonseca
José Manuel Silva enumerou os problemas vividos pelo SNS: falta de planeamento da tutela, carências de profissionais de enfermagem e incorrecta alocação dos médicos, falta de financiamento adequado e a inexistente articulação entre CSP e hospitais
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Urgências são «a janela» das ineficiências do SNS