MORQUIO ADVANCES EXPERTS’ MEETING

25.03.2015

O diagnóstico de uma doença crónica é crucial na vida de uma doente, condicionando mudanças na sua visão sobre o mundo, a relação com as outras pessoas e sobre si próprio. Contudo, se além de crónica, a mesma doença for rara, muitos outros desafios ir-se-ão colocar: onde obter informações sobre a doença, onde procurar uma equipa de profissionais de saúde especializados nessa patologia, onde encontrar alguém na mesma situação. Além destas perguntas com as quais o doente se depara, outras questões relacionadas com o tratamento, desenvolvimento de novos fármacos e investigação científica revestem-se também importância extrema. Na Europa são reconhecidas como raras cerca de 7000 doenças, que no seu conjunto afetam entre 27 e 36 milhões de pessoas. Estima-se que 600 mil portugueses sejam seus portadores. Do ponto de vista da patologia humana, o conceito de doença rara é transversal, distribuindo-se por hereditárias de causa genética (80%), sendo as restantes 20% doenças infeciosas, oncológicas e degenerativas, entre outras. São geralmente debilitantes, incapacitantes, causando perda de autonomia, e muitas delas são crónicas e degenerativas, frequentemente fatais, e com enormes repercussões em toda a família. 

Em seguimento da recente publicação das diretrizes internacionais para a gestão e tratamento da síndrome de Morquio tipo A (MPS IVa), a BioMarin promoveu este Janeiro no Porto, um encontro de especialistas mundiais em MPS IVa, uma doença genética rara que afeta perto de 3000 pessoas no mundo, e para a qual não existe cura até ao momento. O objetivo foi debater os avanços terapêuticos na patologia.  O encontro teve início com a apresentação de uma visão geral da problemática da dificuldade de diagnóstico, prevalência e sobre o tratamento único, aprovado pela Agência Europeia do Medicamento em Abril de 2014. De seguida, abordou-se a questão dos ensaios clínicos, que contaram com a participação de especialistas portugueses — com um centro único a nível ibérico, que recebeu doentes de Portugal e Espanha — o debate sobre recomendações internacionais e a aprendizagem no que respeita ao tratamento e gestão de doentes.  “Foi um dia muito importante e cumprimos o nosso principal objetivo, que era alertar para a patologia — a sua apresentação global, o diagnóstico e muito particularmente, para a necessidade de termos uma equipa multidisciplinar que permita uma qualidade de vida e uma evolução diferente do doente desde sempre” explica a Dr.ª Elisa Leão Teles, Diretora da Unidade de

Doenças Metabólicas do Centro Hospitalar de S. João e a coordenadora, em conjunto com o Dr. Paul Harmatz (Oakland), desta reunião que juntou especialistas das áreas de Doenças Metabólicas, Ortopedia, Neurocirurgia, Anestesia, Pneumologia,Cardiologia, Medicina Interna, Farmácia, e sendo uma doença transversal, envolveu profissionais de Pediatria até adultos. A MPS IVa é uma doença hereditária do metabolismo, rara, crónica, progressiva, debilitante e com morbilidade e mortalidade aumentada. Normalmente diagnosticada na infância, afeta cada indivíduo de forma distinta e há diferentes formas de progressão da doença, geralmente sem afetação cognitiva sendo que estes doentes mantêm um nível de inteligência normal. A síndrome pode resultar em complicações músculo-esqueléticas levando a uma estatura baixa, bem como problemas potencialmente graves a nível cardíaco, pulmonar, sistema nervoso, olhos, ouvidos, nariz e garganta entre outros. Cerca de 30-45% das pessoas afetadas com a doença usam cadeira de rodas, o que reduz em muito a qualidade de vida e independência.

«Levar estas patologias ao conhecimento geral»

O diagnóstico da MPS IVa é quase sempre problemático pois é vulgar o médico, durante toda a sua vida clínica, não observar estas doenças e, na sua confrontação, ter dificuldades de enquadramento. São doenças geralmente complexas e o conhecimento é muitas vezes escasso. O principal entrave ao diagnóstico é o não reconhecimento dos sinais físicos sugestivos da doença. Tratando-se de uma patologia muito rara é de extrema importância que haja divulgação da sua existência, investindo na formação de profissionais de saúde. “É fundamental levar estas patologias ao conhecimento geral, e daqui partir para uma população profissional ainda mais indiferenciada, como por exemplo, a Medicina Geral e Familiar, a Medicina Interna, a Pediatria em geral e outros grupos. Há que alertá-los para os sinais de risco e para o diagnóstico. Trabalhamos atualmente com 800 patologias ao nível das doenças hereditárias de metabolismo. É fundamental aproveitarmos estes momentos, como a reunião realizada no Porto” comenta a Dr.ª Elisa Leão Teles, especialista em Doenças Metabólicas.  “Independentemente disso, o que pretendemos conseguir é um diagnóstico precoce e uma qualidade de vida do doente. Além de ser essencial alertar, era fundamental apresentar o programa consensual por parte de peritos internacionais para a orientação e avaliação destes doentes, apresentar os resultados da terapêutica e, por outro lado, dizer que a grande experiência destes doentes está na pediatria mas que os mesmos vão chegar à idade adulta havendo a necessidade de criação de equipas de adultos devidamente identificadas e organizadas de tal maneira que haja uma evolução adequada e otimizada. É muito importante haver uma transição suave do doente para a equipa de adultos e que o mesmo e a família sintam estabilidade e confiança. Existem registos internacionais dos doentes com MorquioA mas os profissionais que aqui estiveram reunidos sentem a necessidade da criação de um registo que caracterize a nossa população a nível nacional. A junção destes especialistas, que são poucos, a trabalhar com este número reduzido de doentes permite que saibamos o que se passa com a nossa população e identificar os seus problemas específicos. Temos a capacidade da discussão e de colocarmos em conjunto os nossos problemas a peritos internacionais.  Desde longa data que são usadas terapias sintomáticas para minorar a longa lista de complicações desta doença multisistémica. Estes tratamentos não específicos são importantes porque melhoram a dor e o funcionamento dos órgãos afetados, mas não tratam a causa da doença. Esta intervenção é apenas paliativa na maioria dos casos, no entanto a prestação de cuidados adequada pode sempre melhorar a qualidade de vida dos doentes. Pode modificar-se a esperança de vida em menos de 30% das doenças raras conhecidas até agora, em que se aplicam vários modelos terapêuticos que incluem a utilização dos chamados medicamentos órfãos, de difícil desenvolvimento por serem dirigidos a pequenos grupos de doentes. 

Tratamento

Neste contexto, o tratamento específico desenvolvido para a MPS IVa foi aprovado em 2014 e classificado como medicamento órfão, sendo de administração exclusivamente hospitalar, semanalmente e por via endovenosa. Esta nova e única terapêutica trouxe uma nova esperança a Sofia e à sua família, tendo sido a única portuguesa que participou no ensaio clínico em Inglaterra para doentes MPS IVa com mobilidade reduzida. Foi com a coragem e determinação de quem tem o diagnóstico de uma doença rara, enfrentando o desconhecido, a barreira linguística, o cansaço e as suas limitações físicas, que durante 48 semanas, Sofia e a mãe tiveram de viajar semanalmente de Serpa para Birmingham para que Sofia pudesse receber este tratamento cujos resultados se demonstraram tão positivos, relatados na primeira pessoa e que fez questão de marcar presença na Reunião.

Conclusões

Uma das principais conclusões desta reunião foi que uma terapêutica integrada é a melhor abordagem para melhorar a qualidade de vida de cuidadores e doentes com MPS IVa. Apesar destas novas perspetivas, ainda há muito em que trabalhar. É necessário aplicar e melhorar as políticas de saúde, garantindo a equidade plena ao acesso aos cuidados, a consolidação de equipas multidisciplinares completas e funcionais, incluindo os cuidados primários, aprofundar a educação dos profissionais de saúde e investigação otimizando os recursos alocados, assegurar modelos de suporte social de apoio a doentes e suas famílias. Ficou ainda demarcado que, para melhorar a qualidade de vida destes doentes, é necessário melhorar a política de intervenção a este nível e criar modelos educativos, socioculturais, legislativos e de saúde verdadeiramente centralizados no doente e sua família. No campo da saúde, a existência de equipas multidisciplinares completas e funcionais que incluam obrigatoriamente os cuidados primários revelaram-se fundamentais. Os especialistas consideram que as associações de doentes devem ter um papel ativo nesta dinâmica. Em conclusão, deve-se estreitar a colaboração entre todos os stakeholders envolvidos: Estrutura politica e Sistema de Saúde, Academias e Comunidade Biomédica e Farmacológica, Associações de Doentes e a Sociedade em geral, assegurando uma prestação assistencial centrada no doente e sua família.

CAIXA
Um testemunho
 
“A partir dos 3 anos, o meu crescimento estagnou. Quando comecei a andar, não conseguia levantar-me sozinha e a minha mãe levou-me a um médico que não me conseguiu diagnosticar, apesar do número de exames que me pediu para fazer. Até que, numa outra visita a um médico de outra especialidade, o diagnóstico foi quase instantâneo, este médico estava informado e percebeu logo que eu sofria de Morquio. Apesar de tudo, frequentei a escola normal e consegui fazer formação profissional e estágio na secretaria da escola. Quando terminou, fui convidada a ficar lá como voluntária! Como vivemos num meio pequeno, nunca me fizeram sentir diferente, todos me conhecem e estão habituados a mim, tratam-me bem. Hoje sei que tenho bons amigos. Tenho muitas limitações, ando pouco e com andarilho, uso aparelho auditivo e tenho problemas de voz. Tenho de fazer ventilação durante a noite e preciso de ajuda para todas as necessidades básicas da vida como comer, ir à casa de banho, vestir, lavar os dentes…Por isso, fiquei muito feliz quando fui selecionada para o ensaio clínico, apesar de terem sido semanas muito cansativas. Foi um grande esforço, mas que valeu a pena. Hoje, já consigo abrir e fechar bem as mãos, notei muita evolução em mim mesma. E agora que já posso fazer o tratamento em Portugal, reduzi bastante os dias de viagem e sinto-me muito melhor, muito menos cansada e com mais força para continuar a lutar”, revelou Sofia Ramos.

1515701C10115JMA08


A Dr.ª Elisa Leão Teles coordenou a reunião, em conjunto com o Dr. Paul Harmatz
Na reunião participaram especialistas de várias áreas médicas que contribuem para o acompanhamento de doentes de síndrome de Morquio A

Dr.ª Elisa Leão Teles:  “Foi um dia muito importante e cumprimos o nosso principal objetivo, que era alertar para a patologia — a sua apresentação global, o diagnóstico e muito particularmente, para a necessidade de termos uma equipa multidisciplinar que permita uma qualidade de vida e uma evolução diferente do doente desde sempre”
 

E AINDA

por Teresa Mendes | 06.11.2018

Infarmed e ENSP-NOVA estabelecem parceria para capacitar doentes

O Infarmed e a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa (ENSP-NOVA) estabelec...

por Teresa Mendes | 07.11.2018

Ministra assegura mais 40 novas USF até ao final da legislatura

A ministra da Saúde, Marta Temido, assegurou, esta terça-feira, que, até ao final da legislatura, vã...

por Teresa Mendes | 07.11.2018

«Sr.ª ministra da Saúde, ponha termo à publicidade enganosa da SPMS»

O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) apela a Marta Temido para que ponha termo à «publicidade...

por Manuel Tavares de Matos | 06.11.2018

Dores nas costas e espondilartrose

 Opinião de Manuel Tavares de Matos<br /> <br /> A espondilartrose é uma doença que afeta as artic...

por Teresa Mendes | 07.11.2018

Regulamento de dispensa de segredo profissional em discussão pública

A Ordem dos Médicos (OM) colocou em discussão pública uma proposta de regulamento de dispensa de seg...

06.11.2018

«Não podemos continuar a fingir que não existem milhares de cuidadores»

A propósito do Dia do Cuidador, assinalado esta segunda-feira, o Presidente da República renovou o a...

06.11.2018

Marcelo quer alargamento da vacinação contra o HPV aos homens

O Presidente da República elogiou a «continuidade institucional» no que respeita à política de vacin...

por Teresa Mendes | 06.11.2018

Médicos do CHLN prejudicados em seis horas extra por semana

Há mais de um ano que alguns médicos especialistas do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (CHLN) além...

por Teresa Mendes | 05.11.2018

Elevados níveis de ácido úrico podem ser fator de risco para doença bipolar

Doentes deprimidos com elevados níveis de ácido úrico no sangue poderão estar em vias de desenvolver...

A reprodução total ou parcial deste site é proibida,
excepto se autorizada expressa e previamente pela Impremédica, Imprensa Médica, Lda.,
nos termos da legislação em vigor.