Se isto fosse no Facebook… 

por Andreia Vieira | 15.04.2015

Há alturas em que a política de Saúde nacional parece uma cena saída directamente das redes sociais para a vida real.

Hoje, durante a apresentação de um estudo sobre hipertensão, o secretário de Estado Adjunto do ministro da Saúde revelou que cerca de três milhões de utentes inscritos nos centros de saúde não teriam ido uma única vez ao médico de família durante o último ano.  Para Fernando Leal da Costa, esta é uma situação que urge mudar.

Estas pessoas devem ser chamadas – mesmo as que não vão porque se sentem saudáveis – para que se possa fazer aquilo que se designa por prevenção. Disse. E isto é de louvar, naturalmente que é.

Ter um responsável político a dizer que é necessário «transformar os nossos centros em centros de saúde e não apenas em sítios de doença» é merecedor de um «gosto», à moda do Facebook.  Mas, como se sabe, a vida real não é a que se passa nas redes sociais.

Ter um responsável político a dizer que é necessário «transformar os nossos centros em centros de saúde e não apenas em sítios de doença» é merecedor de um «gosto», à moda do Facebook

E como tal, muito estranho que o senhor secretário de Estado venha falar desta necessidade (que é real, como sabemos) uma semana depois de ter vindo a público a intenção de o Ministério da Saúde aumentar as listas de utentes dos médicos de família

Como dizem as avós de toda a gente, «não bate a bota com a perdigota». Se se aumentam listas, reduz-se o tempo para atender o utente, diminui a disponibilidade do médico para ouvir quem está sentado à sua frente e o contacto visual é substituído por um erguer de sobrolho por cima do computador.

Os parâmetros e os campos por preencher dos programas informáticos – já não falando das «quedas» constantes dos sistemas -- deixam pouco espaço para que a relação médico-paciente exista -– e progrida -- como tal. Poder-se-ia alegar que estes números da eventual fraca assiduidade aos centros de saúde são os que permitem, precisamente, alargar as listas.  Mas e se a intenção ministerial de chamar os faltosos acaba por vingar?

Os parâmetros e os campos por preencher dos programas informáticos – já não falando das «quedas» constantes dos sistemas -- deixam pouco espaço para que a relação médico-paciente exista -– e progrida -- como tal


E se, depois, todos querem fazer os rastreios atempados e as análises e os check-up?  Isto, claro está, teria um enorme «gosto» nesta rede social inventada, mas traria consigo imensas questões.

Talvez trouxesse até um sabor amargo aos cofres do Estado… Ou, como diriam (ainda) as nossas avós: seria pior a emenda que o soneto.  Actualmente -- com as listas que têm e mesmo com os utentes que já faltam -– os médicos de família enfrentam dificuldades para dar resposta atempada, prescrever o adequado e cumprir as exigências burocráticas do sistema.

Então, como seria depois, caso não fossem tomadas as medidas necessárias para garantir resposta a quem fosse «cutucado» em casa para ir ao centro de saúde? 

Será que iríamos mesmo «gostar» do resultado?


Andreia Vieira

15 de Abril de 2015

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