Olhar sem ver, quanto mais reparar

por João Paulo de Oliveira | 20.04.2015

Uma reportagem e palavras infelizes(?) porém extraordinárias...
 «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.»
                                   José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira

Opinião deJoão Paulo de Oliveira*

Ao longo de um mês, Ana Leal, repórter da TVI percorreu com câmara oculta o serviço de Urgência de 15 hospitais do País, depois do pico da gripe.

As imagens de corredores onde se amontoam macas, por vezes dificultando a circulação dos profissionais de saúde, falam por si, e são o denominador comum da situação em todas as unidades; chocam e comovem.

As declarações de médicos e enfermeiros, alguns anonimamente, bem como a descrição da jornalista, não são menos esclarecedoras.

  No Hospital Universitário de Coimbra, em espaços com capacidade prevista para 17 doentes, chegam a estar 70 e mais; no CHUC, há espaços em que apenas um enfermeiro fica responsável por 30 a 40 doentes (muitos destes enfermeiros chegam a acumular 300 horas a mais de trabalho).

No Hospital da Figueira da Foz, apenas seis enfermeiros para os turnos da manhã e da tarde, três para a noite.

  No Hospital da Guarda, mais de 30 macas distribuídas pela zona dos balcões, um espaço com capacidade para 11 doentes (oito enfermeiros para os turnos da manhã e da tarde, seis para a noite).

No Hospital de Seia, antes de uma visita autorizada os corredores chegaram a ter 16 doentes em macas, alguns sentados em cadeirões; três enfermeiros nos turnos da manhã e da tarde, dois à noite; dois internistas para 25 doentes internados, mais o apoio à Sala de Observações).

No Hospital Distrital de Chaves, «não há ventiladores suficientes para os doentes todos, é frequente faltar detergente para lavar as mãos ou termos de lhe acrescentar água. Às vezes, nem macas há». (Manuel Cunha, médico).

No Hospital de Santa Maria da Feira, «um único médico dos Cuidados Intermédios durante o período nocturno, das 20 às 8 horas, tem a seu cargo 11 doentes da Unidade de Cuidados Intermédios, mais quatro da Unidade Coronária, mais a ida à Sala de Reanimação.
Se algum doente na Sala de Reanimação nos ocupa três, quatro ou cinco horas, os doentes dos Cuidados Intermédios e da Unidade Coronária não têm médico». (Paulo Marçal, que se demitiu de director da Urgência).

No Hospital de Garcia de Orta, Almada, as macas estão agora mais escondidas (depois da demissão dos sete chefes de equipa do Serviço de Urgência).
«Estão no primeiro andar longe da vista da população» (João Proença, neurologista).

No Hospital Distrital de Portalegre, «em algumas especialidades precisávamos de ter o dobro dos médicos que temos; e um dos pisos do hospital ficou com camas para convalescença, perdemos capacidade de internamento». (Hugo Capote, médico).

«Familiares já foram comprar fraldas para mudarmos o doente, e deixam-nos as que sobram para outros». (Um enfermeiro) 

No Hospital de Faro, não se vê uma única maca no corredor.
«A única coisa que mudou foi tirar as macas da vista do público e juntá-las num open space que tem lotação para 24, mas raro é o dia em que não se excede em muito essa capacidade». (Um enfermeiro).
Pedro Nunes, presidente do Conselho de Administração: «Nós aqui não escondemos nada. As enfermarias também não estão à vista do público».
A jornalista: «Estamos a falar de macas, não de camas». «Estamos a falar de doentes, que em vez de estarem num corredor estão num sítio onde têm rampas de oxigénio, médicos, enfermeiros e cortinas, onde estão no máximo 12 horas porque depois vão para a enfermaria ou para os Cuidados Intensivos». As 12 horas já foram largamente ultrapassadas.
Documentos exibidos provam que há doentes com mais de 20 horas de permanência; e há imagens do mesmo espaço com mais de 60 doentes.

«Familiares já foram comprar fraldas para mudarmos o doente, e deixam-nos as que sobram para outros». (Um enfermeiro).

Extraordinárias palavras

Instado a comentar a reportagem, o secretário de Estado Adjunto da Saúde, Fernando Leal da Costa, considerou que «é uma reportagem que só vem confirmar a opinião que eu tenho, de que os serviços de Urgência em Portugal funcionam muito bem». 

Segundo Leal da Costa, «o que nós vimos foram pessoas bem instaladas, bem deitadas, em macas com protecção antiqueda, em macas estacionadas em locais apropriados, algumas dos quais em trânsito eventualmente para outro serviço.
 Vimos pessoas em camas articuladas, vimos pessoas com postos de oxigénio, vimos hospitais modernos, vimos sobretudo profissionais muito esforçados».
Sobre as declarações dos médicos entrevistados na reportagem, o secretário de Estado Adjunto disse que nenhuma das afirmações «é demonstrada» e que são «opiniões» de «reputados e reconhecidos militantes do Partido Comunista e da oposição», pessoas que «estão politicamente motivadas para fazer algumas afirmações».
Para quem viu as imagens da TVI (eu tornei a vê-las, depois de esfregar os olhos, não estivessem eles a trair-me) estas extraordinárias palavras de Leal da Costa demonstram (sem pôr em causa a sinceridade do seu autor…) que se pode olhar sem ver, quanto mais reparar!, o que não será o mais elucidativo; além da curiosa confusão de factos com opiniões (e do banal expediente da focagem no pormenor -- a qualidade das macas – para desviar a atenção do conjunto – a aglomeração das mesmas), elucidativa é a confissão implícita do secretário de Estado Adjunto de que expulsou a perspectiva crítica da João Crisóstomo para a sede dos partidos da Oposição; como elucidativa é a assunção explícita de que o relevante de uma declaração não é, em primeiro lugar, a sua substância, mas a filiação partidária de quem a profere; e – não, aqui faço-lhe a justiça de não considerar elucidativo o recurso à qualificação que a Ditadura reservava para todos os que se lhe opunham: eram perigosos comunistas. Mas registo o mau gosto.

Agrada-me, todavia, pensar que Leal da Costa não tardará a recuperar a perspectiva crítica que, a seu ver, é privilégio da Oposição, e que eu desejaria obviamente partilhada com a João Crisóstomo, para bem do Serviço Nacional de Saúde.

Agrada-me pensar que Leal da Costa não tardará a recuperar a perspectiva crítica que, a seu ver, é privilégio da Oposição, e que eu desejaria obviamente partilhada com a João Crisóstomo, para bem do Serviço Nacional de Saúde


  Antes disso, porém, recupero a afirmação de um enfermeiro do HUC, feita na reportagem: «Houve pressões directas, ordens dadas verbalmente por elementos do Conselho de Administração aos elementos da triagem para apressar o processo de triagem, para assumir os doentes mesmo sem os observar, para que informaticamente pareça que o doente já está a ser observado sem, no entanto, ainda o ter sido». Será verdade? Não se investiga?



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