Prova de evidência de baixeza

por Andreia Vieira | 21.04.2015

A propósito da «prova de evidência de leite»
Opinião de Andreia Vieira*

Chamam-lhe a prova de evidência de leite e eu, de cada vez que leio o título de mais um artigo sobre o assunto, dá-me vontade de dizer que aquilo que está a ser feito nalguns hospitais do Norte, a provar algo, só se for a baixeza a que se pode chegar quando se detém poder hierárquico.

Pedir a mulheres que esguichem leite para provar que amamentam, e assim poderem continuar a beneficiar da redução de horário laboral, é algo só comparável às denúncias que volta e meia nos chegam de funcionárias de cadeias de hipermercados ou fábricas espalhadas por esse país fora.

São situações que nos indignam porque são, em regra, lamentáveis e vis.
O que me leva a estranhar, aqui, este caso é que o mesmo se está a passar, hoje, em hospitais públicos.

Aquilo que está a ser feito nalguns hospitais do Norte, a provar algo, só se for a baixeza a que se pode chegar quando se detém poder hierárquico 

E há médicos envolvidos neste processo de validação láctea. 

Um hospital deve ser – como tantas vezes ouvimos os nossos governantes dizerem – um local de saúde e não de doença. Ou, pelo menos, um local de promoção de hábitos saudáveis.

Ora, parece-me que agir com má-fé é desonesto, logo, muito pouco saudável.

Um hospital deve ser – como tantas vezes ouvimos os nossos governantes dizerem – um local de saúde e não de doença 

Sujeitar uma mulher à condição de ter de espremer a mama para, em troco, lhe permitir desfrutar daquilo que a lei consagra como seu direito, não só revela insensibilidade como se trata de um comportamento antiético, mesquinho e com laivos de doença.

Doença moral

Numa altura em que a promoção da amamentação junto das utentes é cada vez mais uma boa prática dos hospitais do SNS, o que é que este comportamento nos vem revelar?

Que as administrações destes hospitais acham que dar de mamar é muito bom e bonito, mas apenas para as funcionárias dos outros?  Sim, bem sei.

O argumento é o das amamentações fraudulentas.
Mas será que a única forma de fazer prova neste caso é a aspersão constrangedora da mama? Não é.

E perceber que há patrões que, em pleno século XXI, recorrem a esta metodologia, própria do tempo da caça às bruxas, é algo que surpreende pela brutidão que acarreta.

Mais desassossego me traz saber que há médicos eventualmente coagidos a assumir o papel de «polícia da teta».

Deplorável, isto tudo. E diz que este sábado é 25 de Abril.

Resta-me como único consolo saber que as mulheres do Norte não têm papas na língua.
Como tal, darão a esta prática o nome certo, com as letras todas.

E «prova de evidência de leite» não será, com certeza, o epíteto que irão usar.
Para bem da sanidade de todos nós, que bem sabemos como o uso do palavrão adequado nos pode ajudar em momentos lamentáveis como este.

Deplorável, isto tudo. E diz que este sábado é 25 de Abril 


*jornalista

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