Notícias que inquietam antes de um fim de semana «descansado»

30.04.2015

E uma experiência...
O fim-de-semana prolongado convida a pouca reflexão e alguma evasão.
Mas a realidade nem sempre acompanha a vontade.
E esta semana foi rica em assuntos complexos, a obrigar-nos a sair do conforto do óbvio para reflectir sobre bioética e alguma moral.

Um dos temas que prendeu as atenções foi a posição defendida pelo presidente do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), Hélder Trindade, ouvido na Comissão Parlamentar de Saúde.
A propósito das dádivas de sangue, o responsável defendeu a exclusão, como dadores, dos homens que afirmam ter relações sexuais com outros homens.

Ainda assim, Hélder Trindade assegura que não é feita qualquer discriminação em função da orientação sexual, mas sim da prática sexual.

Hélder Trindade alertou ainda para o facto de haver «hospitais que não estão a aplicar o questionário [prévio à colheita] como deve ser» e que, mais do que distinção, «não existem dados fiáveis» em Portugal que permitam justificar quais os critérios para a recusa.

Um avanço e um «problema»

Outro assunto que nos faz pensar – e, ao mesmo tempo, nos leva a ficarmos maravilhados com a evolução da ciência – é o do casal que foi autorizado pelo Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA) a gerar um «bebé-medicamento», isto é, que possa ser dador de medula óssea compatível com a filha do casal, uma menina de cinco anos com leucemia.
O processo está previsto na legislação portuguesa, mas trata-se de uma técnica permitida apenas por razões médicas e em poucas situações, nomeadamente, em caso de risco de transmissão de anomalias ou doenças genéticas graves, como a paramiloidose, por exemplo.
Esta é a primeira vez que, no nosso País, é usado para este fim específico.
Ainda não se sabe se o processo deu origem à desejada gravidez.

Dilema angustiante

Esta semana acompanhámos ainda o triste dilema com que se deparou o Hospital de Santa Maria, ao ter de decidir o destino a dar à gravidez de cinco meses de uma menina de 12 anos, violada pelo padrasto. Muitas questões estavam em cima da mesa, nomeadamente, de âmbito clínico, ético, jurídico e social.
Segundo apurou o Diário de Notícias, a equipa multidisciplinar que acompanha a menor, internada no Serviço de Pediatria daquele hospital, terá acabado por decidir pela interrupção da gravidez.
Antes de a decisão ter sido tomada, o director do Serviço de Obstetrícia afirmou, também ao DN, que «a gravidez, embora seja uma criança de 12 anos, não coloca em risco a vida física, mas coloca em gravíssimo risco a vida mental desta rapariga».

Polémica e consenso

Mudando para outros temas – polémicos para uns, mas consensuais para outros – temos Adalberto Campos Fernandes e José Mendes Ribeiro a concordar que directores clínicos e directores de enfermagem não devem ter assento nos conselhos de administração dos hospitais.
Durante uma conferência, integrada no ciclo de debates «ÁGORA – Ciência e Sociedade», Adalberto Campos Fernandes defendeu que «os hospitais devem ter uma direcção técnica independente, com gente muito qualificada, que sobre algumas matérias tem obrigatoriamente de ser ouvida pelo órgão executivo».


Polémica ou, pelo menos, problemática, é também a contínua saída de médicos que optam por exclusividade no privado ou emigram. A chamada de atenção foi feita por Mário Jorge Neves, dirigente da Federação Nacional dos Médicos (Fnam), numa conferência sindical realizada em Coimbra.
«Saíram milhares de médicos no auge da sua diferenciação técnico-científica e da sua experiência profissional e isto terá repercussões brutais, a curto prazo, sobre a qualidade da escola médica e do exercício da Medicina, que era uma matéria que nos distinguia – para muito melhor – em toda a Europa e no plano internacional», avisou.
O dirigente  aludiu ainda àquilo que designou como «estratégia do medo» que estará a alastrar nas instituições e que ajudará, nas suas palavras, a «levar por diante mais facilmente a estratégia de destruição do SNS».


E numa altura em que tanto se fala da emigração de alguns profissionais de saúde, nomeadamente de enfermeiros que não encontram trabalho em Portugal, a Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros concluiu que faltam 99 enfermeiros nas unidades de Saúde Pública no Sul do País.
A conclusão foi retirada de um estudo que elaborou, envolvendo os distritos da sua área de abrangência: Santarém, Lisboa, Évora, Portalegre, Setúbal, Beja e Faro.

Números

Outro assunto que está a gerar contestação, esta entre os estudantes de Medicina, é o facto de o Ministério da Educação e Ciência ter decidido manter o mesmo número de vagas do ano passado para os cursos de Medicina.
A orientação, que serve de base à definição do número máximo de novas admissões em cada ciclo de estudos foi publicada sob a forma de despacho, no passado dia 20 de Abril.


Ainda a propósito da controvérsia gerada pela intenção governamental de aumentar o número de utentes por cada médico de família, a Fnam considera que tal é «mera propaganda política, eleitoralista e demagógica», lê-se num comunicado publicado no site do sindicato.
Para a Comissão Executiva da Fnam, a tutela, em vez de estar preocupada em dar um médico de família a cada português, «pretende apenas mascarar esse desígnio atribuindo, de facto, mais portugueses a cada médico de família».

E os descansos, senhores?

Continua também a luta dos sindicatos médicos para verem regularizados os descansos compensatórios dos médicos.
Desta feita, o Sindicato Independente dos Médicos (SIM) dá conta, no seu jornal virtual, que as administrações hospitalares continuam a desconhecer este direito.
A conclusão resultou de uma reunião promovida pela Administração Central do Sistema de Saúde com os sindicatos médicos e administrações hospitalares, tendo ficado «patente o desconhecimento manifestado por estas últimas, e verbalizado pelo Sr. Dr. Francisco Ramos (ex-secretário de Estado da Saúde), enquanto presidente do conselho de administração do Instituto de Oncologia Francisco Gentil, sobre a essência dos descansos compensatórios e a validação legal para que os mesmos decorram com prejuízo do cumprimento do horário normal semanal».

Uma sugestão?

A terminar as polémicas da semana, nada melhor que uma sugestão cultural.
Mas nem aqui a escolha é pacífica.

Deixamos o desafio para a peça de teatro imersivo «E Morreram Felizes para Sempre», em apresentação no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa - Hospital de Júlio de Matos (pavilhão 30).

A peça – que não é uma convencional, já que o espectador é quem decide o caminho a percorrer ao longo da mesma – é inspirada em duas narrativas bem portuguesas: a tragédia amorosa de D. Pedro e D. Inês de Castro e a invenção da lobotomia, por Egas Moniz, vencedor do Nobel da Medicina em 1949.

Como se lê no site do espectáculo, «os visitantes são convidados a mergulhar num universo multissensorial e a descobri-lo sem qualquer tipo de barreiras ou de inibições.

As personagens movem-se sem palavras e vivem as cenas por meio de expressão corporal.
Cada visitante é livre de traçar o seu caminho e de explorar o espaço ao seu próprio ritmo».


E há avisos feitos a quem decide arriscar: Há cenas de nudez e simulação coreografada de violência; os visitantes poderão ser convidados para cenas one-on-one, à porta fechada e recomenda-se ainda o uso de sapatos confortáveis e uma boa dose de espírito de aventura.



Andreia Vieira

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