«Não acredito!»

por Andreia Vieira | 24.04.2015

Reportagens televisivas, comentários estranhos e outros absurdos
Não temos forma de o saber, mas é possível que «não acredito» tenha sido a frase mais repetida por muitos leitores ou espectadores, esta semana, de cada vez que uma nova polémica vinha a público através da Comunicação Social. 

A começar logo pela reacção governamental à reportagem transmitida pela TVI sobre o serviço de Urgências de 15 hospitais do País. Aqui se viram corredores a abarrotar de macas e evidências claras de escassez de recursos humanos.

Mas, instado a comentar, o secretário de Estado Adjunto da Saúde, Fernando Leal da Costa, afirmou que a reportagem «só vem confirmar» que «os serviços de Urgência em Portugal funcionam muito bem».


A verdade é que a opinião do secretário de Estado não é partilhada por profissionais de saúde nem sequer por muitos administradores hospitalares.
E isso ficou bem patente no debate subordinado ao tema «Urgências Hospitalares - Constrangimentos e oportunidades?», realizado no dia 17, em Lisboa, por iniciativa da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Hospitalar.

Aqui se fez o diagnóstico da situação, com Marta Temido, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, a dizer sem peias o que muitos pensam sobre o assunto: «Ninguém esperava milagres. Se tivemos reduções de financiamento e de camas é evidente que teriam que haver problemas. Agora, o que já não me parece honesto é dizer que tudo vai bem quando de facto "o rei vai nu".»

Prova de evidência de leite

Outra notícia que também nos custou acreditar foi a que deu conta da metodologia que estava a ser posta em prática nalguns hospitais do Norte para permitir às funcionárias que amamentam poderem gozar da redução de horário a que têm direito.

Aspersão da mama para prova de evidência de leite era o método em causa. Ou seja, a mulher era convidada a espremer o peito para que o clínico de Medicina Ocupacional pudesse verificar a presença de leite. Uma prática bizarra e que nos faz pensar nas «denúncias que volta e meia nos chegam de funcionárias de cadeias de hipermercados ou fábricas espalhadas por esse país fora».

Como reacção, o Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos decidiu instaurar um inquérito de averiguação disciplinar aos médicos envolvidos neste estranho caso, tendo a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE) garantido já que nenhuma mulher é obrigada a fazer prova de evidência de leite para ter direito à dispensa.

Para já, não se sabe se a prova de evidência de leite está a ser solicitada noutras zonas do País. Mas sabe-se que as assimetrias regionais existem e preocupam os profissionais de saúde e utentes.
Este foi um dos assuntos em foco na sessão de abertura do XXXVI Congresso Português de Cardiologia. Embora os dados mais recentes revelem melhorias dos indicadores das doenças cardiovasculares, há ainda muito a fazer, como assumiu na ocasião o ministro da Saúde.

Segundo Paulo Macedo, permanece o desafio de «melhorar a acessibilidade aos cuidados diferenciados e esbater as assimetrias regionais». Também Miguel Mendes, presidente eleito da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, reconheceu que «há uma enorme assimetria de distribuição» dos centros de reabilitação cardíaca.

Assimetrias

Lamentavelmente, as assimetrias parecem estender-se a outras áreas de tratamento, nomeadamente à Oncologia.

O tema não é novo, mas agora são os números que o reforçam. Segundo os dados do inquérito sobre perceções e preocupações de profissionais ligados à especialidade, desenvolvido pela Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), a maioria dos oncologistas inquiridos considera que a qualidade do tratamento do cancro varia consoante o hospital onde é administrado e que Portugal não está preparado para o aumento desta doença.

E porque a prevenção passa pela promoção de hábitos saudáveis, na reunião do Conselho de Ministros desta semana foi aprovada a lei que proíbe o consumo de bebidas alcoólicas a todos os menores de 18 anos, independentemente do tipo de bebida. Na mesma ocasião foi também aprovada a revisão da lei do tabaco, passando a ser proibido fumar (incluindo cigarros electrónicos) em todos os espaços fechados.

Para o secretário de Estado Adjunto da Saúde, com estas medidas «Não estamos a limitar liberdades».
«Bem pelo contrário, estamos a garantir a liberdade de querer ser saudável e a cumprir a obrigação de zelar pela saúde daqueles que confiam no Governo e nos seus órgãos políticos», disse num encontro promovido na Fundação Calouste Gulbenkian no dia 20 de Abril.

Esta semana foi ainda publicado o decreto-lei que isenta todos os menores de pagar taxas moderadoras a partir de 1 de Maio.

Segundo se pode ler no Portal da Saúde, esta medida visa não só a promoção da saúde junto dos mais novos, mas também «garantir a eliminação de quaisquer constrangimentos financeiros no seu acesso aos serviços de saúde assegurados pelo SNS».

Cuidados continuados e paliativos

A terminar a semana, voltamos a ter eco da situação dos cuidados continuados e paliativos em Portugal.

Em declarações à agência Lusa, a presidente da Associação de Enfermagem em Cuidados Continuados e Paliativos, Purificação Gandra, coloca o dedo na ferida e alerta para a necessidade de mais equipas domiciliárias: «O nosso drama ultimamente é ver que as pessoas estão a ser colocadas em casa a precisar de cuidados e nós não temos equipas para chegar lá. Há que mudar o paradigma deste tipo de cuidados: as camas de cuidados continuados são precisas, sim, mas essencialmente são precisas equipas domiciliárias.»

Boas notícias são, pois, necessárias para que possamos vencer a descrença e passar a acreditar mais e melhor.
Por isso, destacamos com orgulho a bolsa de 93 mil euros, atribuída pela Associação Americana para a Investigação do Cancro ao português Noel Miranda, pela sua investigação na área de tratamento do cancro colorretal.

Actualmente, Noel Miranda trabalha no Centro Médico da Universidade de Leiden, Holanda


Nem só de «sinais e sintomas» se vive…

E porque nem só de «sinais e sintomas» se vive, partilhamos uma sugestão cultural.

Até 19 de Maio, sempre nas noites de terça-feira, realiza-se a 7.ª edição do ciclo Cinema Saúde Doença, uma iniciativa do Centro Hospitalar de São João (CHSJ), comissariada por António Roma Torres, director da Clínica de Psiquiatria e Saúde Mental do CHSJ e crítico de cinema.

O ciclo de cinema realiza-se na Casa das Artes, no Porto, e a seguir a cada filme haverá debate.

O próximo filme será «Aproveita a Vida Henry Altmann» de Phil Alden Robison.


Andreia Vieira

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