A vontade de cuidar não chega. É preciso cuidar

por Andreia Vieira | 08.05.2015

«Sinais e Sintomas»
Num país como o nosso, em que a população envelhece sem dó nem piedade, as notícias desta semana deixam-nos (ainda mais) preocupados com o futuro de todos nós, que é já o presente de muitos. 

Senão vejamos: com a publicação, esta semana, do relatório de actividade em 2014 da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI), confirma-se que a região de Lisboa e Vale do Tejo é das que apresenta maiores lacunas. 

Da totalidade dos doentes a aguardar vaga a nível nacional para uma unidade de cuidados continuados, 42% são desta região.

Esta é também a área do País com mais utentes em espera para cuidados paliativos (76%).

As carências de cuidados paliativos parecem ser, de facto, um assunto para encarar com seriedade, a avaliar pelas declarações de Manuel Luís Capelas ao «Tempo Medicina».

Segundo o presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, «as lacunas são gritantes», e a «iniquidade no acesso a estes serviços» idem.

Ao mesmo tempo, o responsável avisa que «não existe nenhum planeamento estratégico a nível nacional», pois «cada ARS planeia à sua maneira e de acordo com os seus objectivos e prioridades».

Algo de muito errado se passa

A preocupação sobe de tom quando se percebe que a opinião do responsável pelo Programa Nacional para a Saúde Mental não foi tida nem achada para a concretização das novas unidades de cuidados continuados para a saúde mental que vão abrir em Junho.

Isso mesmo ficámos a saber pela boca do próprio Álvaro de Carvalho quando, esta semana, afirmou perante a Comissão Parlamentar de Saúde, que «grande parte da actividade [nesta área] deveria ser apoiada por equipas comunitárias, que são menos onerosas e mais eficazes».

Porém, neste caso, «terá havido a opção política de construir unidades em sítios periféricos, o que obviamente discuto e não subscrevo», afirmou aos deputados, acrescentando ainda que só soube «oficiosamente» desta situação. 

Algo de muito errado se passa quando o responsável por um assunto não é envolvido na tomada de decisão do mesmo.
Dizemos nós.

A necessidade de cuidados que não chegam a quem deles mais precisa é uma realidade no País e os resultados recentemente divulgados da operação «Census Sénior 2015» vêm acentuar a preocupação.

A GNR sinalizou 39.216 idosos a viverem sozinhos ou isolados em todo o País, mais 5.253 do que na operação "Censos Sénior" realizada no ano passado.

Foram ainda encontrados 6.727 idosos a viver acompanhados, mas «em situação de vulnerabilidade fruto de limitações físicas ou psicológicas», o que não deixa de ser um alerta.

Alguns destes idosos estarão, com certeza, contabilizados nos números de quem aguarda por um lugar na RNCCI.

Quem não tinha acesso a cuidados e passou a ter são os doentes de hepatite C que, actualmente, estão já a beneficiar dos tratamentos inovadores, disponibilizados em hospitais do SNS. 

Reforços orçamentais prometidos mas que tardam em chegar

O problema é que estas instituições continuam a aguardar os reforços orçamentais prometidos mas que tardam em chegar, como revelou a presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) durante a conferência promovida pela Apifarma, no dia 6 de Maio, para debater o investimento e a inovação na Saúde.

Segundo Marta Temido, a situação «coloca dificuldades diárias», pois «mais uma vez, os gestores hospitalares estão a assinar despesas sem cabimento».

A responsável da APAH chamou ainda a atenção para a necessidade de equidade no acesso às terapias inovadoras independentemente da patologia: «Custa-me que o acesso à inovação dependa de quem tem voz. Então e quem não tem?», questionou.

A pergunta de Marta Temido – que na altura ficou sem resposta – faz eco com outra notícia desta semana, ao sabermos que o presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica garante que o doente queimado grave fica com sequelas permanentes e necessita de um acompanhamento para toda a vida.

Por isso mesmo, a Associação Amigos dos Queimados quer que as pessoas queimadas com gravidade tenham direito ao estatuto de doentes crónicos, com os cirurgiões plásticos a defender que se trata de um «imperativo clínico e moral».

Esta semana ficámos a conhecer ainda algumas das imagens que poderão passar a constar dos maços de tabaco com o objectivo de dissuadir o hábito tabágico.

Imagens chocantes

A proposta que altera a Lei do Tabaco deu entrada no Parlamento esta quarta-feira e acompanha a directiva europeia sobre o assunto.

Além de mensagens escritas, o Governo obrigará a que sejam incluídas nos maços diferentes imagens – chocantes na opinião de muitos – que prometem abalar as consciências de fumadores ou potenciais fumadores.


E porque chocados ficaram muitos dos portugueses com as declarações do secretário de Estado Adjunto da Saúde a propósito das condições dos doentes nos serviços de Urgência do País, o Bloco de Esquerda pediu ao ministro da Saúde para «ter a coragem» de demitir Fernando Leal da Costa.

O pedido foi feito durante um debate que o BE requereu de urgência sobre a situação da Saúde em Portugal e que se realizou no dia 7 de Maio. Na mesma ocasião, a deputada bloquista Helena Pinto acusou o ministro da Saúde de ter facilitado a saída de médicos do SNS, considerando que se vive «uma situação de descalabro» no que se refere a recursos humanos.

Para fazer face à carência de recursos humanos, a Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo recorreu a uma estratégia que não é nova e anunciou a oferta de alojamento aos clínicos de Medicina Geral e Familiar que estejam dispostos a trabalhar no Centro de Saúde local.

Preocupação com a qualidade e segurança dos cuidados

O Dia Internacional do Controlo de Infecções assinalou-se a 5 de Maio e a Associação Nacional de Controlo de Infecção mostrou-se preocupada com a qualidade e segurança dos cuidados. Isto porque Portugal, apesar dos esforços feitos nos últimos anos, continua a apresentar uma taxa de infecções associadas aos cuidados de saúde superior à média europeia, situada entre 9 a 10%.

Mas nem tudo vai mal no nosso país.

Também a 5 de Maio assinalou-se o Dia Mundial da Asma e, através de dados revelados na ocasião pela Global Asthma Network, tomámos conhecimento que Portugal é o terceiro país do mundo onde menos se morre por asma, só ultrapassado pela Holanda e Itália.

Outra boa notícia foi a que deu conta que a vacina Prevenar vai, afinal, passar a ser gratuita para todas as crianças nascidas a partir de 1 de Janeiro de 2015, passando a integrar o Programa Nacional de Vacinação.

Esta vacina destina-se a prevenir doenças como a meningite e a pneumonia.

«Pára-me de Repente o Pensamento»

Terminamos com uma sugestão de evasão, mas que pode ser um convite para olhar com atenção um mundo que muitas vezes preferimos ignorar. Propomos o mais recente trabalho de Jorge Pelicano, realizador dos documentários «Ainda há Pastores» e «Pare, Escute, Olhe», que desta vez nos vem mostrar o que é isso de Saúde Mental.

Em «Pára-me de Repente o Pensamento», apresenta-nos um actor que mergulhou, durante três semanas, na realidade do Hospital Psiquiátrico Conde de Ferreira, no Porto, para a preparação e pesquisa de uma peça de teatro sobre a loucura.

Os utentes contribuem para o processo de construção da personagem e o cinema documenta.  Exibições no Cinema City Alvalade, em Lisboa, no UCI Arrábida Shopping, no Porto (até 13 de Maio) e no Teatro Municipal da Guarda (12 de Maio).

Andreia Vieira

8 de Maio de 2015
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