«Para navegar no SNS é quase preciso um mestrado»

por Laura Alves Lopes | 28.05.2015

Alexandre Abrantes, ex-assessor do Banco Mundial comenta relatório sobre qualidade da Saúde em Portu
Alexandre Abrantes, professor da ENSP, regressado há cerca de um ano a Portugal após 25 no estrangeiro, foi o convidado para comentar o relatório da OCDE sobre a qualidade da saúde em Portugal.

Na pele do doente, decidiu circular pelo SNS, mas, encontrou um «caminho complexo», com muitas críticas no acesso ao sistema.

Para salvaguardar os interesses profissionais, corporativos ou políticos, o ex-assessor no Banco Mundial, olhou para a realidade e para o relatório «Review of Health Care Quality», apresentado no passado dia 27, em Lisboa, com os olhos do utente para saber o que «realmente interessa e beneficia» a pessoa que procura os serviços.

Com uma avaliação qualitativa de copo cheio, meio-cheio, meio-vazio e vazio, e comparando a atualidade com a sua visão de há 25 anos, quando deixou o país, Alexandre Abrantes contou a sua história e da sua mãe, de 88 anos, «que é muito doente, mas dura para sempre», quando regressou a Portugal e teve que «entrar» no SNS.

«Quando estamos no tempo das vacas gordas não é preciso tantos apoios sociais. Quanto estamos numa crise económica, aí é que o reforço social é preciso para proteger os desprotegidos», defendeu Alexandre Abrantes

A porta para os cuidados de saúde primários (CSP) já não era a mesma e confrontou-se com duas realidades. A sua, que vive em Lisboa e pertence ao Centro de Saúde de S. Nicolau, num terceiro andar, de um prédio antigo e a de um amigo que vive no Porto e pertence à unidade de saúde familiar (USF) da Foz.



Em Lisboa, quando pediu para ter um médico de família a resposta foi uma pergunta: «Não sabe que não há médicos de família?». Já no Porto, quando acompanhou o amigo, «parecia que estava no País das Maravilhas». Falou com a diretora e soube que «podia inscrever-me imediatamente».

«Para uma pessoa que está a entrar no sistema a situação é desigual e, em relação a poder escolher, o copo também está quase vazio», concluiu o também especialista de Saúde Pública.  Mas depois de entrar, «as pessoas também têm muita dificuldade em navegar no sistema», alertou, salientando que «o grande problema da falta da noção do One Stop Shop.

Ou seja, «a pessoa devia entrar nos CSP e sair de lá com os problemas resolvidos, mas são exigidos quatro ou cinco contactos porque um exame é feito num sítio, o segundo exame noutro e análises no outro, o que requer nova consulta, num processo que demora duas semanas».

«É preciso haver uma maior intimidade física»

A falta de capacidade resolutiva dos CSP é outra das críticas apontadas, nomeadamente na articulação das equipas de Saúde Pública com o médico de família ou das equipas dos cuidados domiciliários.

«É preciso haver uma maior intimidade física para que tudo funcione em articulação e não há boa vontade que se aguente com dois ou três km de distância a que estão os enfermeiros de Saúde Pública dos centros de saúde, acontecendo o mesmo com as equipas dos cuidados domiciliários, que nem se reúnem diariamente», lamentou o preletor, lembrando que «há 25 anos havia essa intimidade, que se foi perdendo, nomeadamente por motivos corporativos».



«Os seguros de saúde não são um sinal de um país rico, pois um país rico
é aquele em que os cidadãos vão ao SNS, como na Dinamarca ou na
Noruega», alertou Alexandre Abrantes 


Outra novidade, com a qual Alexandre Abrantes ficou «preocupado» é a atual situação das farmácias, estando 25% delas perto da bancarrota.
Mas, mais uma vez, perguntou o professor da ENSP, «será que os farmacêuticos não podiam fazer mais pelo SNS?» No que diz respeito ao acesso, o problema que encontra para si e para a sua mãe, «está na referência para as consultas da especialidade e para os exames complementares de diagnóstico mais complicados ou caros, como as endoscopias», pois «as listas de espera são longas», o que leva as pessoas a «optar pelos serviços privados, entrando na despesa out of pocket».

No entanto, como salientou, «quando o problema é grave, entrar no hospital não é difícil.
«O meu Centro de Saúde pertence ao Hospital de S. José, mas se eu quiser ser tratado no Hospital de Santa Maria, posso dar uma nova morada e não fazem nenhum controlo», afiançou, gerando uma gargalhada na plateia. 

Quanto à formação dos profissionais dos CSP foi apontado o problema da recertificação.
«Depois de os médicos serem formados pela primeira vez, está tudo feito, tal como atestei quando fui renovar a minha cédula profissional de médico e ninguém me perguntou nada», sublinhando que «a maior parte dos países mais avançados têm processo de revalidação».

Partilhando da inquietação da OCDE de que os CSP não chegam de forma igual a todos os portugueses, o professor da ENSP considera, no entanto, que esta diferença não se resolve estendendo o modelo USF ao sistema todo, como proposto no relatório: «As USF que existem foram criadas por pessoas que já tinham melhores indicadores e quando pensarmos expandir esse modelo para o sistema todo não podemos imaginar que estes ganhos de qualidade se asseguram na base total.»

Em suma, «haver quatro modelos de saúde familiar é só para entendidos e para navegar no sistema de saúde português é quase preciso um mestrado. É tão complicado que precisava de alguém que fosse um care manager para me orientar…», concluiu o especialista.

No que diz respeito aos cuidados hospitalares, Alexandre Abrantes considera que «funcionam bem em muitas coisas», até porque já passou pela necessidade de um internamento.
«O que é disfuncional é que os internamentos não sejam feitos pelas consultas externas mas sim pela Urgência», afirmou.

Outras ineficiências do relatório da OCDE são a «pouca compliance com as guidelines» e «as estadias um pouco prolongadas nos hospitais», para além das elevadas taxas de infeção hospitalar.  Por isso, apelou o responsável, «por favor, mantenham-me fora do hospital. Deixem-me estar em casa até ser mesmo preciso ir e, por favor, alguém me pode ajudar a navegar neste sistema complicado?»

Na sua opinião a grande reforma que aconteceu foi a da criação da RNCC, mas, mais uma vez, «há complexidade a mais, com vários tipos de modelos» e «pouco reconhecimento dos cuidados informais, de uma network que existe e não é reconhecida», apontou.

Para o médico «há sistemas e modelos a mais, demasiada complexidade e incentivos que não funcionam a não ser que sejam muito claros».

«No tempo das vacas gordas não são preciso tantos apoios sociais»

«Confessando» ter trabalhado «em muitas ‘troikas’» quase sempre no papel de proteger os gastos sociais durante as crises, Alexandre Abrantes deixou uma noção da chamada «política anti-cíclica», defendendo um modelo diferente do tradicional.

«Infelizmente, os governantes quando estão no tempo das vacas gordas distribuem mais benefícios sociais e, quando começa uma crise financeira, como não há dinheiro, cortam nos benefícios». Para o prelector, a política tem de ser a oposta. «Quando estamos no tempo das vacas gordas não é preciso tantos apoios sociais.

Quanto estamos numa crise económica, aí é que o reforço social é preciso para proteger os desprotegidos», afirmou, apelando para que lhe expliquem «porque é que os jornais e a oposição dizem que a despesa out of pocket subiu de 25 para 31% se 50% das pessoas estão isentas». Por fim, outro indicador, com o qual ficou impressionado foi com o aumento dos seguros de saúde, que «não são um sinal de um país rico, pois um país rico é aquele em que os cidadãos vão ao SNS, como na Dinamarca ou na Noruega».

Laura Alves Lopes

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