Uma semana «crocante»

por Andreia Vieira | 29.05.2015

Nem todas são assim
Nem todas as semanas são assim como esta foi.

É que apesar das temperaturas parecerem de verão, as notícias vieram, a cada dia, desmentir a possibilidade de estarmos em plena silly season.
Uma autêntica semana crocante, pois.

E «crocante» foi precisamente o adjetivo que a investigadora Sónia Pires escolheu para designar o Hospital de Santa Maria (HSM) na apresentação do estudo que realizou sobre a perceção que os profissionais desta instituição têm sobre a mesma.

Podia ter-lhe chamado outra coisa mas chamou-lhe assim.

Segundo as conclusões do estudo «Valores, qualidade institucional e desenvolvimento em Portugal», organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), o HSM está minado por uma teia de interesses que o liga a partidos políticos, à maçonaria e à Opus Dei.

E pela forma como as coisas são apresentadas quase que percecionamos uma FIFA em ponto pequeno dentro do maior hospital do País.

À conta disto, o presidente do conselho de administração do HSM, Carlos Martins, já admitiu a hipótese de processar a FFMS.

Um estudo menos «crocante» («amigável» mesmo) e um comentário «estaladiço»

Esta semana houve ainda a apresentação de outro estudo, desta feita o relatório «Review of Health Care Quality», da OCDE, sobre a prestação de cuidados de saúde no nosso país.



Francesca Colombo, responsável pelo departamento da Saúde daquela organização revelou-se «impressionada» pelos dados do relatório, nomeadamente pela forma como o Governo português parece ter respondido à pressão financeira dos últimos anos e de como fez «muito com pouco dinheiro e em circunstâncias adversas».
Claro que nem tudo são rosas e isso mesmo percebe-se ao longo das cerca de 200 páginas do relatório, onde são apontadas inúmeras desigualdades e ineficiências.
 
A tornar a divulgação do relatório um pouco mais, digamos, «estaladiça», Alexandre Abrantes, professor da ENSP, elencou muitos dos problemas identificados no documento da OCDE, mas sentidos por ele – e pela mãe, octogenária – na pele.

Numa apresentação (feita no contexto de uma «Reunião de Quadros do Ministério da Saúde», a 14ª do consulado de Paulo Macedo) que deixou muita gente incomodada e a mexer-se nas cadeiras, o ex-assessor do Banco Mundial desabafou: «Para navegar no SNS é quase preciso um mestrado».

«Corrigir», em «dois a três anos»

Ciente das desigualdades no acesso, Fernando Leal da Costa afirmou, em entrevista ao Observador que o Governo «não tem feito outra coisa que não seja corrigir assimetrias» no SNS.

Ainda assim, é difícil esperar que nesta legislatura muito mais venha a ser feito além do que já é conhecido, nomeadamente, a colocação dos 237 novos médicos de Medicina Geral e Familiar (MGF) e a entrada em vigor dos incentivos para fixar médicos nas zonas mais carenciadas.
Ao longo da conversa, o secretário de Estado adjunto do ministro da Saúde, estabeleceu ainda um prazo para que sejam corrigidos os principais problemas no setor: dois a três anos.

E se a navegação no SNS não é fácil, a forma como os marinheiros são recrutados para este barco parece estar fora de controlo. Isso mesmo foi denunciado por José Manuel Silva durante o debate «O Futuro da Saúde em Portugal», que juntou representantes dos partidos com assento parlamentar.

Segundo o bastonário da Ordem dos Médicos, há uma completa desregulação na contratação de profissionais para o SNS: «Nunca assisti a uma selva como a atual na contratação dos médicos, acontece de tudo e as instituições fazem quase o que querem e lhes apetece.»

Médicos precisam-se

Um outro tema que veio aquecer a semana noticiosa no que diz respeito à Saúde prendeu-se com a divulgação do projeto de um despacho, segundo o qual clínicos gerais com seis anos de exercício vão poder obter o grau de especialistas em MGF.

A Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) manifestou-se prontamente contra esta possibilidade.

O organismo, presidido por Rui Nogueira, reagiu prontamente, afirmando que «reconhece apenas uma via de obtenção do grau de especialista de MGF, que implica cumprir o programa de internato da especialidade MGF e realizar exame final nos termos legais e regulamentares em vigor».

Mas a verdade é que há falta de médicos de cuidados de saúde primários.

E por isso, cinco dias após a publicação do despacho que identifica as vagas carenciadas em especialistas de MGF, o Ministério da Saúde fez publicar no «Diário da República» a abertura de concurso destinado aos 237 médicos que adquiriram o grau de especialista na 1.ª época de 2015.

Apesar da falta de profissionais, sabe-se que as despesas com pessoal são um dos fatores que terão contribuído para o aumento da despessa do SNS em abril deste ano, face a período homólogo do ano passado. De acordo com a execução financeira da Direção-Geral do Orçamento, registou-se, em termos homólogos acumulados, um aumento de 3,2% na despesa e de 2,9% na receita.

Além das despesas com pessoal, considera-se que também a introdução de novos medicamentos para a hepatite C terá contribuído para o resultado.

Alterações no financiamento em saúde é o que pede José Artur Paiva, diretor do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos. Questionado pela Comissão Parlamentar de Saúde sobre como diminuir a taxa de infeções hospitalares e a resistência aos antibióticos, o responsável explicou que a solução passa por inverter o atual modelo de financiamento no SNS.

E isto porque atualmente o dinheiro vai mais para os tratamentos das doenças e para as prescrições de fármacos do que para a prevenção.

Tabaco, sal e sexo

Não são só as infeções hospitalares que Portugal precisa de baixar.
Apesar dos esforços para reduzir o consumo de tabaco, dados indicam que 25% dos portugueses são fumadores, um aumento de dois pontos percentuais em relação a 2012.

O que também precisa de ser reduzido – e com premência – é o consumo de sal por parte dos mais novos.

De acordo com os resultados de um estudo levado a cabo pela Universidade do Porto sobre os hábitos alimentares das crianças portuguesas, ficamos a saber que 93% das crianças ingerem sal a mais do que é recomendado pela OMS e 54% consomem sal acima do máximo tolerável, tendo apenas 8% das crianças ingerido as quantidades de potássio (legumes e fruta) necessárias.

A precisar igualmente de atenção está a vida sexual dos portugueses, que parece estar a ser afetada pela crise.

Essa é a chamada de atenção feita pela Sociedade Portuguesa de Andrologia, Medicina Sexual e Reprodução que, em comunicado, assegura que 52% dos indivíduos entre os 42 e os 70 anos têm disfunção erétil em algum grau.
As dificuldades financeiras, o desemprego ou os filhos que regressam a casa dos pais ou dos avós, contribuem para este cenário.

Sugestão «lisboeta»

E com o fim de semana à porta a nossa sugestão cultural não pode ser outra: um passeio à Feira do Livro, que decorre até 14 de junho e que, nesta 85.º edição, promete novidades.
Esperamos que estaladiças.


Andreia Vieira

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