Ao redor do Taj Mahal e o Relatório da Primavera

por Andreia Vieira | 16.06.2015

Um contraste e a necessidade de também «abrir o ângulo»
Uma das imagens mais fortes que retenho na memória é a de um contraste.
O contraste entre um dos monumentos mais belos que já visitei – o Taj Mahal – e a área que o circunda: um terreno baldio imenso, sujo, repleto de desesperança, abandono e lixo.

Esta imagem voltou a ressurgir em mim quando um destes dias vi um artigo que falava precisamente sobre a vizinhança dos maiores monumentos do mundo.
Dizia-se no artigo – ilustrado com fotos adequadas – que «abrir o ângulo pode fazer a diferença».

E aí voltei a encontrar o Taj Mahal exatamente como este é, ou seja, rodeado da fealdade que não aparece nos postais ilustrados. Disto tudo me lembrei hoje, a propósito do Relatório de Primavera 2015, realizado pelo Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS).

Porque para percebermos o contexto de uma realidade há que fazer a tal abertura de ângulo e procurar vislumbrar o que reside nas margens do rio magnífico ou nas traseiras do monumento famoso.

Há que perscrutar o sentir das pessoas que habitam o lugar e perceber-lhes as fragilidades e necessidades. Este ano, o Observatório dedicou-se sobretudo às questões do acesso à saúde, sendo que num dos capítulos aborda a situação das «pessoas dependentes no autocuidado». As conclusões a que chega não podem deixar-nos sossegados.

População envelhecida

Numa população envelhecida como a nossa – e em vias de envelhecer ainda mais, com consequências imprevisíveis – ficamos a saber que existem atualmente cerca de 50 mil pessoas acamadas a viver em casa. Quem nunca cuidou de uma pessoa acamada poderá pensar que isto é apenas um número.
Mas não é.

Ficamos a saber que existem atualmente (em Portugal) cerca de 50 mil pessoas acamadas a viver em casa. Quem nunca cuidou de uma pessoa acamada poderá pensar que isto é apenas um número. Mas não é

Como todos os números, este encerra em si um mundo de implicações, a que muito dificilmente se acede a partir de uma secretária ou de uma folha de excel.
Este número significa, por exemplo, que cerca de 50 mil outras pessoas serão cuidadoras daquelas. Vislumbramos aqui, imediatamente, uma espécie de jogo de reflexos de proporções incalculáveis.
Daqueles que é melhor não olhar.
Para não ver.

Nove anos depois de ter sido criada, a Rede Nacional de Cuidados Continuados e Integrados (RNCCI), não dá resposta a mais do que cerca de 30% das necessidades da população. Lê-se no documento que «as estruturas da Rede vocacionadas para prestarem cuidados em casa das pessoas (ECCI) são as que menos têm crescido, as que menos recebem referenciação e as que estão subocupadas em todo o país, apesar de serem mais acessíveis, quer do ponto de vista financeiro, quer de distância.»

  Lê-se ainda que as pessoas que cuidam dos acamados se «percecionam menos competentes no exercício das funções relacionadas com o posicionamento do doente na cama e com a transferência do doente entre a cama e uma cadeira».

Depois das conclusões do recente estudo da OCDE, divulgados como muito favoráveis para a qualidade da saúde em Portugal, o Relatório da Primavera vem ajudar a fazer o que também é necessário: abrir o ângulo

O que é o mesmo que dizer que estes acamados vão ficando, por força das circunstâncias, ainda mais dependentes. Diz-nos o Observatório que há fatores a perturbar a equidade no acesso dos doentes dependentes acamados, «sendo uns referenciados para a RNCCI e outros não». Acrescendo ainda «desigualdades regionais marcadas».

Abrir o ângulo

O envelhecimento da população é o que temos de mais certo em Portugal, a não ser que um milagre da multiplicação – dos bebés, não dos pães – venha a acontecer.

Catedráticos, oradores, especialistas de toda a espécie, alertam-nos diariamente para o problema.

Depois das conclusões do recente estudo da OCDE, divulgados como muito favoráveis para a qualidade da saúde em Portugal, o Relatório da Primavera vem ajudar a fazer o que também é necessário: abrir o ângulo.

Para que se perceba o que está oculto nas traseiras do monumento.

Andreia Vieira

16 de Junho de 2015

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