15% dos clínicos portugueses sofrem de burnout
por Andreia Vieira | 25.06.2015
Jovens médicos são os mais afetados
Cerca de 15% dos médicos portugueses padecem de síndrome de exaustão relacionada com o trabalho, segundo um estudo recente. Os internos são os mais afetados por esta situação que, de acordo com as conclusões, tem como fatores de risco o excesso de carga horária, o trabalho no serviço de Urgência e até a exclusividade no SNS.
Os dados resultam de um estudo levado a cabo no âmbito de uma tese de mestrado recentemente defendida na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) e vêm reforçar a necessidade de repensar a organização do trabalho médico, de forma a prevenir o esgotamento dos profissionais.
Isto porque no trabalho realizado por Sara Ferreira ficou demonstrado que o grupo dos médicos internos é o mais afetado por burnout, ao apresentarem níveis superiores de exaustão emocional, despersonalização e perda de realização pessoal, em comparação com o grupo de médicos especialistas que integrou a amostra.
Com efeito, 15,4% dos clínicos estão em burnout, sendo que este aspeto interfere na relação médico-doente, com o consequente impacto na qualidade dos cuidados de saúde prestados.
Os fatores de risco identificados no estudo prendem-se com a elevada carga horária, nomeadamente no serviço de Urgência. De realçar que cerca de 90% dos internos que participaram no estudo apresentam uma carga horária semanal superior a 40 horas, o que foi relacionado com maiores níveis de exaustão emocional e de despersonalização.
Além disso, o número de horas de trabalho está relacionado negativamente com a satisfação em relação à carreira médica.
Por outro lado, as conclusões do estudo indicam que o trabalho exclusivo no Serviço Nacional de Saúde (SNS) acaba por revelar-se também um fator de risco para burnout, com os clínicos que têm exclusividade a apresentarem níveis superiores de exaustão mental ou emocional.
O estudo, intitulado «Burnout e a empatia médico-doente», foi realizado na Clínica Universitária de Psiquiatria por Sara Ferreira com orientação de Pedro Afonso, docente da FMUL, e colaboração de Rosário Ramos, docente da Universidade Aberta.
A pesquisa teve por base uma amostra de 104 médicos, incluindo 53 internos e 51 especialistas, e destinou-se a estudar a influência da síndrome de burnout na empatia e consequentemente na relação médico-doente.
Trabalho em equipa para prevenir burnout
Em entrevista ao «Tempo Medicina», o psiquiatra Pedro Afonso fala sobre as conclusões a que se chegou com o estudo e defende a necessidade de haver mais partilha de decisões e recurso ao trabalho em equipa como formas de ajudar a prevenir o burnout.
«Tempo Medicina» («TM»)-- O que é que explica que sejam os médicos mais jovens a apresentar níveis mais elevados de burnout?
Pedro Afonso (PA) -- Os dados do nosso estudo apontam o facto de os internos trabalharem maioritariamente no serviço de Urgência (cerca de 90%), o que, juntamente com a carga horária excessiva, contribuiu para explicar o nível de burnout mais elevado. Além disso, o maior índice de exclusividade ao SNS que os internos têm, face aos especialistas, também se mostrou como um fator de risco para o burnout. Embora não tenha sido avaliado o fator remuneratório, é possível que a melhor compensação económica que os médicos especialistas obtêm no setor privado possa explicar o motivo pelo qual a exclusividade contribui para o burnout.
«TM» -- Saber que os internos estão mais propensos a sofrer de burnout é, de certa forma, indicativo de que alguma coisa deve ser mudada no período de formação. Tendo em conta os dados do estudo, que alterações devem ser feitas para ajudar a prevenir esta síndrome?
PA -- Existem algumas medidas que podem ser tomadas, nomeadamente, respeitar os períodos de folgas e descanso, o que infelizmente nem sempre acontece; possibilitar que se integrem no horário de trabalho períodos não assistenciais dedicados à formação; ou integrar os internos em equipas nas quais as decisões sejam partilhadas.
Ou seja, a partilha de decisões e o trabalho em equipa ajudam a prevenir o burnout.
Mas também existem medidas ao nível das organizações que podem contribuir e no estudo são dados alguns exemplos. É muito importante que o serviço de Urgência tenha um mínimo de condições de conforto, nomeadamente em termos de iluminação natural, espaço de trabalho, ruído, entre outros, de forma a ajudar a prevenir a situação.
«TM» – Tendo em conta o que se sabe sobre esta síndrome, os jovens médicos que sofrem de burnout no início da vida profissional poderão manter a tendência ao longo da carreira?
PA – Os jovens médicos estão numa fase da sua carreira em que o vínculo profissional é precário. Existe alguma competitividade e pressão, pois sabem que não podem ficar todos a trabalhar no hospital que lhes está a dar formação. A incerteza quanto ao futuro e a possibilidade de muitos dos internos virem a ter de emigrar para continuarem as suas carreiras profissionais é um fator que aumenta o risco de burnout nos jovens médicos.
«TM» -- De que forma a parentalidade pode proteger de burnout?
PA – O estudo conclui, comprovando outros estudos internacionais, que o facto de se ter filhos é um elemento protetor em relação ao burnout.
Ou seja, a maturidade e o crescimento pessoal, associados à parentalidade e aos vínculos afetivos que se criam com o nascimento dos filhos, são fatores protetores.
Ora, os jovens médicos adiam cada vez mais a decisão de ter filhos. Numa altura em que o País atravessa um grave problema de natalidade, talvez valesse a pena que os responsáveis políticos aliviassem o excesso de carga horária que existe atualmente na Função Pública, na área da Saúde.
No estudo, apenas um quinto dos médicos trabalha até 40 horas semanais, a maior parte oscila entre as 40 e as 60 horas e 13,5% permanece mais de 60 horas por semana no local de trabalho.
Finalmente, seria importante associar a remuneração a objetivos de produtividade, criando deste modo incentivos, pois os estudos sobre esta matéria indicam que este é um fator que ajuda a prevenir o burnout.
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«É possível que a melhor compensação económica que os médicos especialistas obtêm no setor privado possa explicar o motivo pelo qual a exclusividade contribui para o burnout»
«A maturidade e o crescimento pessoal, associados à parentalidade e aos vínculos afetivos que se criam com o nascimento dos filhos, são fatores protetores»
«Seria importante associar a remuneração a objetivos de produtividade, criando deste modo incentivos, pois os estudos sobre esta matéria indicam que este é um fator que ajuda a prevenir o burnout»
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Andreia Vieira
1526Ant5f15ABV26A
Os dados resultam de um estudo levado a cabo no âmbito de uma tese de mestrado recentemente defendida na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) e vêm reforçar a necessidade de repensar a organização do trabalho médico, de forma a prevenir o esgotamento dos profissionais.
Isto porque no trabalho realizado por Sara Ferreira ficou demonstrado que o grupo dos médicos internos é o mais afetado por burnout, ao apresentarem níveis superiores de exaustão emocional, despersonalização e perda de realização pessoal, em comparação com o grupo de médicos especialistas que integrou a amostra.
Com efeito, 15,4% dos clínicos estão em burnout, sendo que este aspeto interfere na relação médico-doente, com o consequente impacto na qualidade dos cuidados de saúde prestados.
Os fatores de risco identificados no estudo prendem-se com a elevada carga horária, nomeadamente no serviço de Urgência. De realçar que cerca de 90% dos internos que participaram no estudo apresentam uma carga horária semanal superior a 40 horas, o que foi relacionado com maiores níveis de exaustão emocional e de despersonalização.
Além disso, o número de horas de trabalho está relacionado negativamente com a satisfação em relação à carreira médica.
Por outro lado, as conclusões do estudo indicam que o trabalho exclusivo no Serviço Nacional de Saúde (SNS) acaba por revelar-se também um fator de risco para burnout, com os clínicos que têm exclusividade a apresentarem níveis superiores de exaustão mental ou emocional.
O estudo, intitulado «Burnout e a empatia médico-doente», foi realizado na Clínica Universitária de Psiquiatria por Sara Ferreira com orientação de Pedro Afonso, docente da FMUL, e colaboração de Rosário Ramos, docente da Universidade Aberta.
A pesquisa teve por base uma amostra de 104 médicos, incluindo 53 internos e 51 especialistas, e destinou-se a estudar a influência da síndrome de burnout na empatia e consequentemente na relação médico-doente.
Trabalho em equipa para prevenir burnout
Em entrevista ao «Tempo Medicina», o psiquiatra Pedro Afonso fala sobre as conclusões a que se chegou com o estudo e defende a necessidade de haver mais partilha de decisões e recurso ao trabalho em equipa como formas de ajudar a prevenir o burnout.
«Tempo Medicina» («TM»)-- O que é que explica que sejam os médicos mais jovens a apresentar níveis mais elevados de burnout?
Pedro Afonso (PA) -- Os dados do nosso estudo apontam o facto de os internos trabalharem maioritariamente no serviço de Urgência (cerca de 90%), o que, juntamente com a carga horária excessiva, contribuiu para explicar o nível de burnout mais elevado. Além disso, o maior índice de exclusividade ao SNS que os internos têm, face aos especialistas, também se mostrou como um fator de risco para o burnout. Embora não tenha sido avaliado o fator remuneratório, é possível que a melhor compensação económica que os médicos especialistas obtêm no setor privado possa explicar o motivo pelo qual a exclusividade contribui para o burnout.
«TM» -- Saber que os internos estão mais propensos a sofrer de burnout é, de certa forma, indicativo de que alguma coisa deve ser mudada no período de formação. Tendo em conta os dados do estudo, que alterações devem ser feitas para ajudar a prevenir esta síndrome?
PA -- Existem algumas medidas que podem ser tomadas, nomeadamente, respeitar os períodos de folgas e descanso, o que infelizmente nem sempre acontece; possibilitar que se integrem no horário de trabalho períodos não assistenciais dedicados à formação; ou integrar os internos em equipas nas quais as decisões sejam partilhadas.
Ou seja, a partilha de decisões e o trabalho em equipa ajudam a prevenir o burnout.
Mas também existem medidas ao nível das organizações que podem contribuir e no estudo são dados alguns exemplos. É muito importante que o serviço de Urgência tenha um mínimo de condições de conforto, nomeadamente em termos de iluminação natural, espaço de trabalho, ruído, entre outros, de forma a ajudar a prevenir a situação.
«TM» – Tendo em conta o que se sabe sobre esta síndrome, os jovens médicos que sofrem de burnout no início da vida profissional poderão manter a tendência ao longo da carreira?
PA – Os jovens médicos estão numa fase da sua carreira em que o vínculo profissional é precário. Existe alguma competitividade e pressão, pois sabem que não podem ficar todos a trabalhar no hospital que lhes está a dar formação. A incerteza quanto ao futuro e a possibilidade de muitos dos internos virem a ter de emigrar para continuarem as suas carreiras profissionais é um fator que aumenta o risco de burnout nos jovens médicos.
«TM» -- De que forma a parentalidade pode proteger de burnout?
PA – O estudo conclui, comprovando outros estudos internacionais, que o facto de se ter filhos é um elemento protetor em relação ao burnout.
Ou seja, a maturidade e o crescimento pessoal, associados à parentalidade e aos vínculos afetivos que se criam com o nascimento dos filhos, são fatores protetores.
Ora, os jovens médicos adiam cada vez mais a decisão de ter filhos. Numa altura em que o País atravessa um grave problema de natalidade, talvez valesse a pena que os responsáveis políticos aliviassem o excesso de carga horária que existe atualmente na Função Pública, na área da Saúde.
No estudo, apenas um quinto dos médicos trabalha até 40 horas semanais, a maior parte oscila entre as 40 e as 60 horas e 13,5% permanece mais de 60 horas por semana no local de trabalho.
Finalmente, seria importante associar a remuneração a objetivos de produtividade, criando deste modo incentivos, pois os estudos sobre esta matéria indicam que este é um fator que ajuda a prevenir o burnout.
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«É possível que a melhor compensação económica que os médicos especialistas obtêm no setor privado possa explicar o motivo pelo qual a exclusividade contribui para o burnout»
«A maturidade e o crescimento pessoal, associados à parentalidade e aos vínculos afetivos que se criam com o nascimento dos filhos, são fatores protetores»
«Seria importante associar a remuneração a objetivos de produtividade, criando deste modo incentivos, pois os estudos sobre esta matéria indicam que este é um fator que ajuda a prevenir o burnout»
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Andreia Vieira
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15% dos clínicos portugueses sofrem de burnout