«O modelo assistencial é o mais eficaz»

por Andreia Vieira | 16.07.2015

Álvaro de Carvalho comenta dados de relatório europeu sobre cuidados de Saúde Mental
O diretor do Programa Nacional da Saúde Mental não tem dúvidas que «o modelo assistencial é o mais eficaz» e faz uma análise exaustiva das razões que estão a travar a sua disseminação em Portugal.

Entre estas conta-se a perceção que alguns psiquiatras terão de que os cuidados em ambulatório representam uma «redução de estatuto ou de comodidade».

Recentemente apresentado entre nós, o relatório da Joint Action on Mental Health and Wellbeing, com dados nacionais e europeus sobre a transição dos cuidados de Saúde Mental (SM) para a comunidade, revela que continuam a faltar cuidados na comunidade e ao domicílio, mantendo modelos há muito ultrapassados.

«Tempo Medicina» quis saber a opinião de Álvaro de Carvalho, diretor do Programa Nacional da Saúde Mental sobre o assunto.

Tempo Medicina (TM) – No relatório refere-se que a maior parte dos serviços de saúde portugueses, incluindo os baseados nos hospitais gerais, continuam a concentrar a maioria dos seus recursos em atividades intra-hospitalares e a ter uma escassa atividade na comunidade, privilegiando modelos de cuidados há muito ultrapassados. Concorda com esta conclusão?

Álvaro de Carvalho -- Provavelmente concordo.
Esta minha reserva resulta apenas de não termos atualizados os números de equipas comunitárias nem os da sua evolução a nível nacional.

Mas reconhecer isto não põe em causa a minha convicção, baseada na evidência empírica de 35 anos de especialista, de que o modelo assistencial é o mais eficaz.

Se os doentes mentais mais graves não têm consciência do seu estado patológico, a melhor forma de o compensar é a existência de serviços de proximidade, considerados aliás pela lei de Saúde Mental em vigor.

Por outro lado, se a epidemiologia nos mostra que a maioria das pessoas com perturbações mentais comuns recorre espontaneamente aos cuidados de saúde primários [CSP], em particular à Medicina Geral e Familiar -- onde muitas vezes a psicogenia não é detetada ou adequadamente tratada -- importa viabilizar articulações regulares entre os profissionais das equipas comunitárias e dos CSP.


TM -- O que é que travou a existência de mais equipas comunitárias em Portugal?

AC -- Fundamentalmente dois motivos.
Por um lado, o facto de a SM não ser reconhecida pelas gestões dos hospitais gerais, onde se localizam a maioria dos serviços locais de SM, como distinta das outras especialidades médicas, que são mais dependentes de tecnologias de saúde e das respostas tradicionais hospitalares, nomeadamente de internamento.
Tal situação parece-nos ser reformulável apenas pela alteração do modelo de financiamento, provavelmente passando a seguir-se o doente e não a patologia.

Por outro lado, alguns psiquiatras consideram uma redução de estatuto ou de comodidade realizarem o ambulatório na comunidade, em articulação com os CSP.

TM – A situação verifica-se em todo o País de forma uniforme?

AC -- Conhecem-se exemplos recentes de sentido contrário.
Por exemplo, Coimbra começou há cerca de 3 anos a implementar equipas comunitárias, embora de modo ainda incipiente quanto ao conteúdo da intervenção; passou de zero para quatro, com perspetiva de mais duas ou três a curto prazo.

Também Évora reativou o investimento comunitário e as camas da unidade de internamento da Psiquiatria passaram a estar disponíveis para outras especialidades, enquanto o recurso ao Serviço de Urgência reduziu significativamente.

Por seu turno, depois de finalmente conseguir fixar psiquiatras, Beja ativou a unidade de internamento para doentes agudos e retomou a articulação médica comunitária com os CSP, até aqui só viabilizada por não médicos com preparação adequada e apoio clínico indireto.

Também Faro implementou cuidados de proximidade nos últimos anos com apreciável redução do número e duração de reinternamentos, que aconteciam sobretudo em porta rotativa.


TM -- Por que razão os programas colaborativos com os CSP, os programas integrados para doentes mentais graves ou os programas de intervenção domiciliária, entre outros, continuam a ser uma realidade diminuta?

AC – Além dos motivos de fundo já considerados antes, é possível juntar outras particularizações. Desde logo, a redução do número de psiquiatras, por reformas antecipadas, não reposto por admissões correspondentes.
Também as resistências dos conselhos de administração de hospitais gerais a disponibilizaram viaturas para as indispensáveis deslocações programadas, invocando necessidade de contenção de custos financeiros.

A redução do já diminuto número de não médicos disponibilizados para as equipas comunitárias e, sobretudo, continuar a não haver lugar para o registo da sua atividade, mesmo dentro de cada hospital, inviabilizando o financiamento por ato desenvolvido.

Há ainda menor disponibilidade de algumas unidades de CSP, sobretudo por parte de médicos de unidades de saúde familiar, para articularem com as equipas comunitárias. Refira-se também a inexistência de coordenação nacional e regional com capacidade para apoiarem ativamente a atividade clinica, particularmente a estratégica e inovadora.


TM – E os cuidados continuados integrados de Saúde Mental?

AC – Finalmente, the last but not the least, a não implementação dos cuidados continuados de Saúde Mental, inviabilizando respostas comunitárias indispensáveis para gerir in locu muitos casos graves, que tendencialmente acabam por ter de ser reinternados e desesperançados, com risco sério de agravamento do prognóstico e consequente agravamento da dependência e do risco de institucionalização.

Andreia Vieira

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Destaques

Álvaro de Carvalho defende a alteração do modelo de financiamento nos cuidados de Saúde Mental, de forma a desbloquear a criação de mais equipas comunitárias


«Se os doentes mentais mais graves não têm consciência do seu estado patológico, a melhor forma de o compensar é a existência de serviços de proximidade»

COMENTÁRIOS

José Manuel Antunes

1649 dias atrás

A ver vamos se e quando haverá decisão de investimento nesta área, caro Álvaro de Carvalho. É que há doentes (e famílias) em dificuldades... Quando as mesmas são dos Bancos, inventa-se dinheiro, já para os doentes...
José M.Antunes

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