Comunicar. Sim, não ou só às vezes?

por Andreia Vieira | 24.07.2015

Texto da Newsletter «Sinais e Sintomas»
Diz-se e repete-se que é preciso comunicar e estreitar a relação médico-doente, colocar o utente no centro do sistema e reforçar os cuidados de saúde primários (CSP).
Diz-se.
Mas depois tomam-se medidas incompreensíveis como esta, relatada hoje pelo «Diário de Notícias».
Lê-se no artigo que a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) terá emitido uma circular cujo resultado prático é a proibição de médicos e enfermeiros fazerem chamadas para o exterior, a não ser mediados por pessoal administrativo.

Mesmo que em causa estejam o acompanhamento do doente, marcação de consultas ou convocação para rastreios.
Os profissionais contestam a medida – que consideram de contenção de custos – mas a ARSLVT diz que apenas foram cortados acessos que não eram utilizados.

Sobre este assunto, opto por partilhar aqui o que Ricardo Costa escreveu no seu Expresso Curto de hoje: «Não sei de quem foi a decisão, mas aconselho o génio a consultar os tarifários das operadoras e a perceber o que são coisas com VOIP, Viber, Skype, Whatsapp, entre outras. Sim, os telefones estão para as telecomunicações como a penicilina para um centro de saúde.»

Medidas deste tipo chocam em absoluto com o caminho que os vários responsáveis ministeriais têm vindo a trilhar, nos últimos anos, com o objetivo de agilizar a partilha de dados.

A provar isso mesmo, foi publicado esta semana um despacho segundo o qual a Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) espera disponibilizar, até ao fim deste ano, uma versão adaptada a dispositivos móveis do aplicativo de prescrição eletrónica médica (PEM).

A qual poderá vir até a ser alargada aos médicos privados.

E se nuns sítios se opta por retroceder anos de trabalho, através de circulares, noutros anunciam-se as vitórias das melhorias de comunicação.

É o caso dos centros de saúde dos Açores que passaram, desde ontem, a dispor de monitores desfibrilhadores que permitem transmissão de dados clínicos em tempo real para qualquer ponto do arquipélago, segundo anunciou o Governo Regional.

Urgências que não são e utentes que não vão aos CSP

Os hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) atenderam mais de seis milhões de urgências em 2014.

No entanto, cerca de 40% dos casos não se tratavam de verdadeiras urgências, pois os doentes, após a Triagem de Manchester, receberam pulseiras verdes, azuis ou brancas – o que significa que poderiam ter sido tratados noutro local, como os CSP.

Os dados constam do «Relatório Anual sobre o Acesso a Cuidados de Saúde nos Estabelecimentos do SNS e Entidades Convencionadas de 2014», enviado para a Assembleia da República, a que o jornal «Público» teve acesso. 

Mas o bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, recusa falar em «urgências desnecessárias» e aponta o dedo ao Ministério da Saúde, que acusa de desinvestimento nos CSP.

Na sua opinião, «se o SNS funcionasse bem os doentes não iam para as urgências».

Já o ministro da Saúde parece ter uma visão diferente, tendo voltado a lembrar que há cerca de dois milhões de portugueses que não recorrem ao médico de família, um número que, nas suas palavras, é superior aos utentes ainda sem clínico atribuído.

«Temos muito mais portugueses com médico de família do que aqueles que o utilizam», afirmou Paulo Macedo aos jornalistas, comentando os dados do Relatório, documento em que se indica que no final do ano passado havia 1,4 milhões de utentes sem médico de família.

Mais (ou menos) despesa em saúde

O que também se ficou a saber esta semana foi que, em 2014, a despesa corrente em saúde aumentou 1,3% face a 2013, fixando-se nos 15.681,9 milhões de euros, de acordo com dados provisórios do Instituto Nacional de Estatística divulgados esta quinta-feira.

A subida foi sobretudo sentida do lado da despesa privada, com os gastos das famílias a aumentarem 3,1% em relação a 2013.

Números do Infarmed também tornados públicos esta semana vêm indicar que, entre janeiro e maio deste ano, a despesa do Estado com medicamentos dispensados em meio hospitalar aumentou 16,9% face ao mesmo período de 2014, totalizando 470 milhões de euros.

Os medicamentos para a hepatite C e VIH são os principais responsáveis por este aumento, já que os gastos nesta área cresceram 52% face ao ano passado.

Já o encargo médio dos portugueses por embalagem de medicamento diminuiu 0,9%, nos primeiros quatro meses de 2015, tendo sido registado um aumento do número de embalagens dispensadas no mercado ambulatório, que atingiu os 52 milhões, mais 2,1% que em 2014.

Unidades em risco

Uma situação que parece não ter melhoria à vista é a das farmácias de pequena dimensão. Segundo as conclusões de um estudo económico-financeiro realizado pela Universidade de Aveiro, as farmácias com menor volume de faturação continuam com um prejuízo estimado em cerca de 20 mil euros por ano.

Nesta situação encontram-se 18% das farmácias, que registam perdas de 6 euros por cada 100 euros de vendas.

Em «risco de colapso» está também o Serviço de Anestesiologia do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro, que abrange os hospitais de Vila Real, Chaves e Lamego.

A situação tem vindo a tornar-se cada vez mais preocupante com a saída, desde janeiro de 2014, de nove médicos daquela especialidade, com o consequente cancelamento de cirurgias. Atualmente existem apenas 18 anestesistas em funções, quando deveria haver 41.

Combate à fraude com boa disposição

Entre setembro de 2012 e maio de 2015, foram conferidas faturas que somavam oito mil milhões de euros e detetadas, no âmbito do combate à fraude no SNS, faturas num total de 372 milhões de euros com indícios de fraude e corrupção.
Os números são do balanço feito esta quinta-feira de manhã numa apresentação pública.

Quem estava bem-disposto durante e após a apresentação era o ministro da Saúde, Paulo Macedo, como constatou o diretor do «Tempo Medicina», José M. Antunes: «A manhã havia sido dedicada a um dos pontos onde o sucesso da atuação do atual titular da João Crisóstomo é patente e não discutido por alguém de bom senso.»

A Saúde na próxima legislatura

Numa altura em que os balanços sobre esta legislatura abundam, começam também já a ser feitas algumas antevisões.
Foi o caso do debate levado a cabo no IX Seminário de Jornalistas 2015 que juntou representantes dos «partidos do arco da governação» para debater o futuro do SNS.  

E deu para perceber que na próxima legislatura os temas quentes vão continuar a ser o financiamento do serviço público, a concretização da reforma hospitalar e a aposta nos CSP.

Falta acordo para o SAMS

O Sindicato Independente dos Médicos e o Sindicato dos Médicos da Zona Sul juntaram-se para pedir a intervenção da Direção-geral do Emprego.

Em causa está a mediação da negociação do acordo de empresa para os trabalhadores médicos do SAMS (serviço de assistência dos bancários).

De corda ao pescoço pela Saúde Mental

Esta segunda-feira, um grupo de pessoas desfilou à porta da Administração Regional de Saúde do Norte como forma de protesto contra a falta de apoio às doenças mentais em Portugal.

Vestiam de preto e levavam uma corda ao pescoço, solidarizando-se com a Encontrar+se, uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) da área dos cuidados de Saúde Mental.

O protesto visava a integração desta IPSS na Rede Nacional de Cuidados Continuados e Integrados.

Avanços no tratamento do cancro

A Comissão Europeia aprovou, esta semana, a terapêutica anti-PD-1 pembrolizumab, para o tratamento do melanoma avançado e a notícia tem sido divulgada em grande escala.

O facto não é para menos, pois como explicou ao nosso jornal Luís Costa, diretor do Departamento de Oncologia e do Centro de Investigação do Centro Hospitalar Lisboa Norte, os anti-PD-1 «conseguem maior taxa de resposta e mais tempo de controlo da doença. São a melhor imunoterapia até ao momento.»


A este propósito, recomendo vivamente a leitura do pertinente artigo de Vera Novais no «Observador» que faz um excelente serviço ao explicar, em linguagem clara e acessível, o mecanismo desta nova terapêutica, contextualizando as investigações que decorrem neste momento. 

A Universidade de Coimbra anunciou também que as pesquisas que tem desenvolvido em torno da molécula Redaporfin, por si patenteada enquanto terapia inovadora no tratamento de vários tipos de cancro, está a revelar a «eficácia desejada».

De acordo com os ensaios realizados, «86% dos ratinhos com tumores diversos que foram tratados com esta tecnologia, seguindo exigentes protocolos de segurança, ficaram curados», salienta a instituição numa nota divulgada, adiantando que «não se observaram efeitos secundários, como acontece com os tratamentos convencionais», como a quimioterapia.

Vencer a dor do cancro com um jogo de computador

E quando as terapêuticas – por mais inovadoras – não garantem a vida, há que lidar com a morte. Ryan Green, pai de um menino que não sobreviveu à doença, optou por lidar da forma que melhor sabia: através de um videojogo que sairá ainda este ano.

A crise que não poupa ninguém

Uma das consequências mais trágicas da crise grega é o abandono de recém-nascidos.

Muitas mães deixam os bebés nos hospitais por não terem como os sustentar.

A reportagem é da estação britânica Sky News, em Atenas.


Aborto - Polémica até ao fim


Na quarta-feira, o último ato do Parlamento nesta legislatura não podia ter sido mais polémico.

Em causa esteve a discussão e votação das alterações à lei do aborto.

Acusações, protestos e gritos marcaram o momento. «Vergonha», «terrorismo» e «golpe», acusou a esquerda, como pode ler-se no artigo do «Expresso» sobre o tema.

As alterações aprovadas implicam, entre outras coisas, o pagamento de taxas moderadoras no caso de interrupção voluntária da gravidez e uma consulta de aconselhamento psicológico anterior.


Parabéns primeiro «bebé-proveta»

Louise Brown foi a primeira «bebé-proveta» do mundo e este sábado completa 37 anos.

Numa entrevista exclusiva à agência Lusa, a propósito do lançamento do seu livro Louise Brown: A minha vida como o primeiro bebé-proveta do mundo, que sábado será lançado no Reino Unido, diz sentir-se uma pessoa «normal».

Também reconhece que não foi fácil crescer debaixo dos holofotes, mas acredita que valeu a pena e, aos casais que precisam da ciência para engravidar, aconselha: «Nunca desistam.»


E quando todos falam da baixa taxa de natalidade em Portugal, eis um caso insólito.

Em apenas uma semana, a Unidade de Neonatologia do Hospital de Guimarães teve que dar apoio ao nascimento de três pares de gémeos e a dois nascimentos de trigémeos.

«Um acontecimento raro», e que os profissionais não recordam ter acontecido, pelo menos, nos últimos 20 anos.

À sua saúde!

Boa semana, boa saúde,

Andreia Vieira


 

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