«Trapalhada na escolha de vagas!», afirma Carlos Cortes
por Vitalino José Santos | 11.12.2015
Ordem dos Médicos e CNMI criticam processo do concurso
É consensual a contestação relativamente ao concurso deste ano para o Internato Médico, quando, de forma inédita mas não inesperada, o País passa a ter uma preocupação acrescida: 113 médicos indiferenciados.
Logo após as reuniões promovidas regionalmente pela Ordem dos Médicos para reflectir sobre a formação médica e as vagas para a especialidade, que não chegam para todos os recém-graduados, o novo ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, recebe hoje, 11 de Dezembro, as sugestões das «vozes críticas» do processo.
O Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos (CRCOM), a exemplo dos seus congéneres do Norte e do Sul, está preocupado com a falta de vagas para a formação específica dos recém-graduados e, por isso, promoveu na noite de 9 de Dezembro, em Coimbra, uma reunião, em parceria com o Conselho Nacional do Médico Interno (CNMI), para discutir os concursos para o Internato Médico de 2015 e do próximo ano, encontro que também contou com as participações da Associação Nacional dos Estudantes de Medicina (ANEM), do Sindicato dos Médicos da Zona Centro – SMZC (afecto à Federação Nacional dos Médicos – FNAM) e do Sindicato Independente dos Médicos (SIM).
«Num momento de grande preocupação com o futuro da formação de jovens médicos e quando a estrutura formativa de muitos serviços já não consegue dar resposta ao número crescente de candidatos», como afirma a Ordem dos Médicos (OM), num comunicado dirigido aos jornalistas, «a razão principal desta reunião tem a ver com aquilo que ocorre, agora, nesta escolha das vagas para a especialidade», sublinhou o presidente do CRCOM, Carlos Cortes.
«Aconteceu um facto inédito: ficaram médicos de fora», sem possibilidade de escolha, devido à ausência de vagas para 113 recém-graduados, a nível nacional, declarava Carlos Cortes ao «Tempo Medicina» («TM»), momentos antes do início da sessão, na Secção Regional do Centro da OM.
«Aconteceu um facto inédito: ficaram médicos de fora», sem possibilidade de escolha, devido à ausência de vagas para 113 recém-graduados, a nível nacional, declara Carlos Cortes
«A ACSS não foi capaz de prever nem de se preparar para resolver estas situações», observou o presidente do CRCOM, dando conta de várias irregularidades ao longo do processo concursal
«Falávamos nisto há algum tempo! Alertei, em muitas intervenções públicas, para a eventualidade de, pela primeira vez e de forma forçada pelo próprio Ministério da Saúde, termos médicos indiferenciados no País», prosseguiu o presidente do CRCOM, disposto a «apoiar estes médicos», bem como aqueles que, em 2016, «se vão confrontar, provavelmente, com uma situação ainda mais complicada do que esta».
«Irregularidades» no processo concursal
Segundo o dirigente regional da OM, a reunião visou «explicar todo o processo, tudo aquilo que aconteceu» e que justificou também o seu insistente pedido de demissão do conselho directivo da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), estrutura à qual Carlos Cortes imputa responsabilidades na «trapalhada» do recente concurso para a especialidade médica.
«A ACSS não foi capaz de prever nem de se preparar para resolver estas situações», observou o presidente do CRCOM, dando conta de várias irregularidades ao longo do processo concursal, a exemplo das falhas no sistema informático relativas ao número de vagas e aos candidatos que deveriam ou não constar na lista, a par de erros formais na listagem e de outros aspectos comunicacionais que fizeram «parar e retroceder» o próprio concurso.
«A OM concedeu algum tempo para que os hospitais e os centros de saúde tivessem condições diferentes para fazerem formação médica», notava Carlos Cortes ao «TM», criticando o presidente da ACSS (Rui Ivo), que não terá sido sensível aos «apelos» da OM para adiar o concurso deste ano do Internato Médico, iniciado a 23 de Novembro, quando a lista final de vagas deveria ser legalmente conhecida 10 dias antes.
Dificuldades na formação e candidatos vindos de fora
O responsável regional da OM, alegando «ser cada vez mais difícil fazer formação médica nos hospitais, devido aos agrupamentos, às fusões e às aposentações» dos profissionais, salientou «outra questão importante, que não existia no passado: a vinda de médicos portugueses que foram estudar no estrangeiro». «Neste ano, foram cerca de 300 os candidatos que vieram de fora!», informou Carlos Cortes, antecipando o progressivo regresso em maior número dos jovens que, por exemplo, procuraram universidades espanholas, da República Checa e de alguns países do Leste para se licenciarem em Medicina.
Uma das sugestões avançada por Carlos Cortes, ao «TM», prende-se com a limitação de «numerus clausus».
Por outro lado, a tutela deve «reforçar a componente de formação dos hospitais e dos centros de saúde», acrescentava o presidente do CRCOM, notando que «os médicos internos são mais utilizados para suprir deficiências de recursos humanos, do que propriamente para serem formados».
«Não temos vantagem em desperdiçar recursos a formar médicos e a desperdiçar cérebros, sabendo que vão ser claramente excedentários!», diz o jovem clínico Ricardo Marques, representante regional do CNMI
A este propósito, o jovem clínico Ricardo Marques – que é o coordenador da região Centro do CNMI – também pensa que «o trabalho em serviço de urgência geral (fora do âmbito da especialidade) não faz parte do programa formativo que os médicos internos têm de cumprir».
Num recente artigo de opinião, no «Diário As Beiras», o coordenador regional do CNMI denunciava que «algumas unidades hospitalares têm, contudo, utilizado os médicos internos como recurso para suprir necessidades nessa área, à custa de trabalho extraordinário».
Não obstante afirmar-se que Portugal tem uma distribuição de médicos, «per capita», superior à média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), Ricardo Marques diz que «importa definir onde é que estão estes médicos e como são distribuídos».
«E não temos vantagem em desperdiçar recursos a formar médicos e a desperdiçar cérebros, sabendo que vão ser claramente excedentários!», concluía o representante do CNMI.
Caixa
«Obrigar hospitais e centros de saúde a retomarem a vocação formativa»
Ao subscrever Carlos Cortes na ideia de que se deve «obrigar os hospitais e os centros de saúde a retomarem a vocação formativa», ampliando as próprias capacidades, Ricardo Marques esclarecia tratar-se de «uma reunião no rescaldo do processo de escolha de vagas para a especialidade», o qual deixa uma questão em aberto: «Os recém-graduados não colocados ficam indiferenciados?»
A OM informa que a média das vagas dos últimos anos foi de 1423 e que, no corrente ano, as capacidades formativas foram 1516. Porém, as três centenas de candidatos não formados no País vieram alterar e complicar as contas.
E ainda «não há resposta na legislação, nem a nível regulamentar» para a situação de «médico indiferenciado».
Assim, tendo finalizado com aproveitamento o Ano Comum, estes jovens médicos (sem vaga para a especialidade) têm autonomia clínica e podem exercer.
Daí que Carlos Cortes, a exemplo da sua intervenção no Congresso Nacional de Estudantes de Medicina, reitere «a preocupação face a esta realidade», exortando «os estudantes de Medicina a defender a qualidade e a excelência da profissão».
A ANEM está, naturalmente, insatisfeita e contesta «frontalmente» a situação de que «nem todos os recém-graduados tenham conseguido ter acesso a uma vaga de formação específica».
Por isso, em 4 de Dezembro, a mesma estrutura estudantil emitiu um comunicado em que reprovava a criação da «primeira geração de médicos indiferenciados desde 2004», argumentando que «a inexistência de vagas de formação para todos os recém-graduados leva necessariamente à desintegração da formação médica pré e pós-graduada, com consequências deletérias para a qualidade da saúde em Portugal».
Ao assumirem o seu habitual papel de defensores de «condições dignas de trabalho», as estruturas sindicais convidadas a participar na reunião promovida pela SRCOM e pelo CNMI apresentarem posições não coincidentes.
O médico sindicalista Noel Carrilho, em representação da FNAM (SMZC), asseverava, em declarações ao «TM», ser necessário «anular este concurso» e reiniciar todo o processo, mesmo sabendo da sua morosidade.
Por sua vez, Luís Filipe Silva (representante regional do SIM) assumiu uma posição mais previdente, dispondo-se a observar e a analisar atentamente o conjunto de variáveis e de perspectivas relacionadas com os concursos para o Internato Médico.
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11 de Dezembro de 2015
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Logo após as reuniões promovidas regionalmente pela Ordem dos Médicos para reflectir sobre a formação médica e as vagas para a especialidade, que não chegam para todos os recém-graduados, o novo ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, recebe hoje, 11 de Dezembro, as sugestões das «vozes críticas» do processo.
O Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos (CRCOM), a exemplo dos seus congéneres do Norte e do Sul, está preocupado com a falta de vagas para a formação específica dos recém-graduados e, por isso, promoveu na noite de 9 de Dezembro, em Coimbra, uma reunião, em parceria com o Conselho Nacional do Médico Interno (CNMI), para discutir os concursos para o Internato Médico de 2015 e do próximo ano, encontro que também contou com as participações da Associação Nacional dos Estudantes de Medicina (ANEM), do Sindicato dos Médicos da Zona Centro – SMZC (afecto à Federação Nacional dos Médicos – FNAM) e do Sindicato Independente dos Médicos (SIM).
«Num momento de grande preocupação com o futuro da formação de jovens médicos e quando a estrutura formativa de muitos serviços já não consegue dar resposta ao número crescente de candidatos», como afirma a Ordem dos Médicos (OM), num comunicado dirigido aos jornalistas, «a razão principal desta reunião tem a ver com aquilo que ocorre, agora, nesta escolha das vagas para a especialidade», sublinhou o presidente do CRCOM, Carlos Cortes.
«Aconteceu um facto inédito: ficaram médicos de fora», sem possibilidade de escolha, devido à ausência de vagas para 113 recém-graduados, a nível nacional, declarava Carlos Cortes ao «Tempo Medicina» («TM»), momentos antes do início da sessão, na Secção Regional do Centro da OM.
«Aconteceu um facto inédito: ficaram médicos de fora», sem possibilidade de escolha, devido à ausência de vagas para 113 recém-graduados, a nível nacional, declara Carlos Cortes
«A ACSS não foi capaz de prever nem de se preparar para resolver estas situações», observou o presidente do CRCOM, dando conta de várias irregularidades ao longo do processo concursal
«Falávamos nisto há algum tempo! Alertei, em muitas intervenções públicas, para a eventualidade de, pela primeira vez e de forma forçada pelo próprio Ministério da Saúde, termos médicos indiferenciados no País», prosseguiu o presidente do CRCOM, disposto a «apoiar estes médicos», bem como aqueles que, em 2016, «se vão confrontar, provavelmente, com uma situação ainda mais complicada do que esta».
«Irregularidades» no processo concursal
Segundo o dirigente regional da OM, a reunião visou «explicar todo o processo, tudo aquilo que aconteceu» e que justificou também o seu insistente pedido de demissão do conselho directivo da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), estrutura à qual Carlos Cortes imputa responsabilidades na «trapalhada» do recente concurso para a especialidade médica.
«A ACSS não foi capaz de prever nem de se preparar para resolver estas situações», observou o presidente do CRCOM, dando conta de várias irregularidades ao longo do processo concursal, a exemplo das falhas no sistema informático relativas ao número de vagas e aos candidatos que deveriam ou não constar na lista, a par de erros formais na listagem e de outros aspectos comunicacionais que fizeram «parar e retroceder» o próprio concurso.
«A OM concedeu algum tempo para que os hospitais e os centros de saúde tivessem condições diferentes para fazerem formação médica», notava Carlos Cortes ao «TM», criticando o presidente da ACSS (Rui Ivo), que não terá sido sensível aos «apelos» da OM para adiar o concurso deste ano do Internato Médico, iniciado a 23 de Novembro, quando a lista final de vagas deveria ser legalmente conhecida 10 dias antes.
Dificuldades na formação e candidatos vindos de fora
O responsável regional da OM, alegando «ser cada vez mais difícil fazer formação médica nos hospitais, devido aos agrupamentos, às fusões e às aposentações» dos profissionais, salientou «outra questão importante, que não existia no passado: a vinda de médicos portugueses que foram estudar no estrangeiro». «Neste ano, foram cerca de 300 os candidatos que vieram de fora!», informou Carlos Cortes, antecipando o progressivo regresso em maior número dos jovens que, por exemplo, procuraram universidades espanholas, da República Checa e de alguns países do Leste para se licenciarem em Medicina.
Uma das sugestões avançada por Carlos Cortes, ao «TM», prende-se com a limitação de «numerus clausus».
Por outro lado, a tutela deve «reforçar a componente de formação dos hospitais e dos centros de saúde», acrescentava o presidente do CRCOM, notando que «os médicos internos são mais utilizados para suprir deficiências de recursos humanos, do que propriamente para serem formados».
«Não temos vantagem em desperdiçar recursos a formar médicos e a desperdiçar cérebros, sabendo que vão ser claramente excedentários!», diz o jovem clínico Ricardo Marques, representante regional do CNMI
A este propósito, o jovem clínico Ricardo Marques – que é o coordenador da região Centro do CNMI – também pensa que «o trabalho em serviço de urgência geral (fora do âmbito da especialidade) não faz parte do programa formativo que os médicos internos têm de cumprir».
Num recente artigo de opinião, no «Diário As Beiras», o coordenador regional do CNMI denunciava que «algumas unidades hospitalares têm, contudo, utilizado os médicos internos como recurso para suprir necessidades nessa área, à custa de trabalho extraordinário».
Não obstante afirmar-se que Portugal tem uma distribuição de médicos, «per capita», superior à média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), Ricardo Marques diz que «importa definir onde é que estão estes médicos e como são distribuídos».
«E não temos vantagem em desperdiçar recursos a formar médicos e a desperdiçar cérebros, sabendo que vão ser claramente excedentários!», concluía o representante do CNMI.
Caixa
«Obrigar hospitais e centros de saúde a retomarem a vocação formativa»
Ao subscrever Carlos Cortes na ideia de que se deve «obrigar os hospitais e os centros de saúde a retomarem a vocação formativa», ampliando as próprias capacidades, Ricardo Marques esclarecia tratar-se de «uma reunião no rescaldo do processo de escolha de vagas para a especialidade», o qual deixa uma questão em aberto: «Os recém-graduados não colocados ficam indiferenciados?»
A OM informa que a média das vagas dos últimos anos foi de 1423 e que, no corrente ano, as capacidades formativas foram 1516. Porém, as três centenas de candidatos não formados no País vieram alterar e complicar as contas.
E ainda «não há resposta na legislação, nem a nível regulamentar» para a situação de «médico indiferenciado».
Assim, tendo finalizado com aproveitamento o Ano Comum, estes jovens médicos (sem vaga para a especialidade) têm autonomia clínica e podem exercer.
Daí que Carlos Cortes, a exemplo da sua intervenção no Congresso Nacional de Estudantes de Medicina, reitere «a preocupação face a esta realidade», exortando «os estudantes de Medicina a defender a qualidade e a excelência da profissão».
A ANEM está, naturalmente, insatisfeita e contesta «frontalmente» a situação de que «nem todos os recém-graduados tenham conseguido ter acesso a uma vaga de formação específica».
Por isso, em 4 de Dezembro, a mesma estrutura estudantil emitiu um comunicado em que reprovava a criação da «primeira geração de médicos indiferenciados desde 2004», argumentando que «a inexistência de vagas de formação para todos os recém-graduados leva necessariamente à desintegração da formação médica pré e pós-graduada, com consequências deletérias para a qualidade da saúde em Portugal».
Ao assumirem o seu habitual papel de defensores de «condições dignas de trabalho», as estruturas sindicais convidadas a participar na reunião promovida pela SRCOM e pelo CNMI apresentarem posições não coincidentes.
O médico sindicalista Noel Carrilho, em representação da FNAM (SMZC), asseverava, em declarações ao «TM», ser necessário «anular este concurso» e reiniciar todo o processo, mesmo sabendo da sua morosidade.
Por sua vez, Luís Filipe Silva (representante regional do SIM) assumiu uma posição mais previdente, dispondo-se a observar e a analisar atentamente o conjunto de variáveis e de perspectivas relacionadas com os concursos para o Internato Médico.
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«Trapalhada na escolha de vagas!», afirma Carlos Cortes