O inaceitável caso da falta de cuidado com o doente David Duarte

por José M. Antunes | 24.12.2015

Como foi possível?
 
A notícia do caso da morte do cidadão David Duarte durante uma longa espera (demasiada, sob todos os pontos de vista) por uma cirurgia especializada, durante o passado fim-de-semana, e depois de se saberem alguns dos dados (muitos nos faltam ainda), deixou – necessariamente -- em «choque» todos os que pensam -- e gostam --  o sistema de Saúde português e o Serviço Nacional de Saúde (SNS) em particular.

Em boa verdade, o passar dos dias e o debate mediático e público que se desencadeou em torno dele, mostra até uma turbulência e polémica que, pessoalmente, considero muito bem-vinda em volta deste assunto-limite. 

Em Portugal, temos uma tendência assustadora a só nos inquietarmos com problemas e disfunções perante casos chocantes consequência daquelas.
E nós «os da Saúde», ultimamente – tenho-o escrito insistentemente – temos entrado escandalosamente nesse torpor muito «tuga»…  

Saliento que alguns de nós foram menos surpreendidos pelo caso concreto ter sucedido -- os poucos que fomos denunciando publicamente que os riscos de virem aí muitos casos destes existia principalmente com o passar do tempo e os muitos cortes que, em concreto, se foram fazendo na sequência de alguém ter decidido sucessivos cortes percentuais no orçamento do SNS e das suas instituições; por mim chamei a esse senhor, cujo nome agora omito por puro decoro, várias vezes «o ministro das finanças da saúde» – mas nem por isso, ou até por isso, estão menos chocados.
No caso, e isso acresce ao sentimento de choque, soma-se uma sensação de revolta e mesmo de impotência cívica de não ter ido além da denúncia.   

Repare-se, por outro lado, no absurdo extra de o infausto, mesmo trágico, caso ter decorrido numa das unidades mais diferenciadas e mais bem equipadas do SNS, localizada num dos «hospitais-berço» do SNS, local por excelência da melhor formação em variadas  especialidades médicas e de enfermagem e nomeadamente naquelas que podiam ajudar a tentar salvar a vida do cidadão David Duarte. 

Em Portugal, temos uma tendência assustadora a só nos inquietarmos com problemas e disfunções perante casos chocantes consequência daquelas.
E nós «os da Saúde», ultimamente – tenho-o escrito insistentemente – temos entrado escandalosamente nesse torpor muito «tuga»…  


Sublinho o termo «ajudar», pois esse é o dever de quem cuida e as equipas médicas e de enfermagem, antes de mais, existem para cuidar.

E sublinho isto também porque – como hoje mesmo ouvi um verdadeiro especialista na matéria, o colega Rui Vaz, actual presidente do Colégio de Neuro-Cirurgia da O.M. fazer em pequena entrevista na Antena 1 --  sem conhecer o caso clínico concreto compete a quem tem formação na área ser cauteloso no que diz ou escreve sobre o caso clínico concreto e as suas hipóteses de solução.

Sublinho também o nome da pessoa a quem sucedeu o que sucedeu, acentuando com isso duas coisas. Já que se tratava de um cidadão português munido de direitos constitucionalmente estabelecidos, já que, em boa verdade, ali poderia estar qualquer de nós, os outros dez milhões de cidadãos.
Claro?

Por isso, neste «escrito», e para já, fico-me por um pequeno – termo resultante do «cantinho» de onde o faço, mas ao menos manifesto porque escrito e publicado – «grito» sob forma de pergunta: Como foi possível suceder o que sucedeu?
O não cuidado?

Posto isto, há responsáveis longínquos e mais próximos pelo que sucedeu? Há.
E vão ser responsabilizados?

Como hoje explica o «Diário de Notícias» no assunto principal que trata, vão provavelmente acabar por ser responsabilizados os responsáveis mais próximos, senão em Tribunal a curto prazo, ao menos no previsível «julgamento publico» que decorrerá nas próximas semanas. Já os responsáveis longínquos…

Voltaremos ao assunto, parece-me.
Para já e tentando manter algum «espírito da época», ficam os votos de Bom Natal a quem o pode ter, na certeza infeliz de que a família de David Duarte não o terá.

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24 de Dezembro de 2015
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