A ciência da «poupança» 

por José M. Antunes | 21.04.2016

Os médicos portugueses já aceitam tudo como «normal»?
Pode debater-se o que recomenda o Infarmed, Autoridade do Medicamento?

Quando demos a notícia de que a actual direcção do Infarmed, através do que chamou «recomendações para melhorar a prescrição», recomendou, simplifico, uma espécie de «prescrevam genéricos, são mais baratos»,  confesso que balancei a minha opinião pessoal entre um raciocínio «mais uma nota que ficará perdida na “espuma dos dias”, ninguém ligará a isto» e um, dicotómico reconheço, «então o organismo que supostamente sabe e coordena em Portugal o que de científico há sobre a tecnologia do medicamento, faz recomendações não com base científica mas numa lógica económica-financeira…»

Ou seja, o que está publicado cientificamente -- sendo, de resto, a base das aprovações várias, do Infarmed, da Agência Europeia do Medicamento (EMA), da FDA, etc – e pode  (deve, diria) – ser aplicado na prática por todos os médicos de qualquer especialidade é «esquecido» por técnicos especializados em medicamentos, que ao invés de recomendarem o adequado ao doente concreto antes recomendam o que se chama vulgarmente «poupanças»? 
Texto integral aqui

Houve mais quem achasse estranho.
José Manuel Silva colocou uma opinião inequívoca sobre o assunto aqui

O Bastonário juntou ainda mais alguns dados na sua crónica no jornal «Correio da Manhã»
 Dados esses, note-se, que mostram ainda algo de pior, digo eu, pressões, complicações, dificuldades, criadas aos prescritores, visando objectivamente condicionar actos clínicos, fazendo perder tempo, condicionando a própria consulta em algo cada vez mais relevante, o tempo.

Os médicos portugueses já aceitam tudo como «normal»?

Por mim, regresso neste momento a uma das minhas frases favoritas lida há alguns anos, escrita por Augusto Abelaira, comentando uma situação também ela absurda: «Se isto não demonstra a existência de Deus, ajuda pelo menos a mostrar a existência do Diabo».

O que estranho ainda mais, entretanto? Esta situação só parecer incomodar, pelo que se lê em espaço público (OCS, «redes sociais», etc), ao que contabilizo, duas ou três pessoas, dois ou três médicos…

Sendo provocador: 
--Os restantes médicos «gostam» de ser «incomodados», «acossados», «repetidamente condicionados», «gozados», nas palavras da colega citada por José Manuel Silva no «CM»? 

 jose.antunes@tempomedicina.com 



O que escreveu José Manuel Silva, para quem não gosta de «links»:

Não se entende a conduta do Infarmed, que aprova e comparticipa medicamentos, porque considerou que trazem vantagens para os doentes, mas depois não quer que os médicos os utilizem, dificultando ao nível do inferno o acto da prescrição e prejudicando a sua relação e tempo para os doentes!!! Não faz sentido nenhum.

A Ordem dos Médicas está disponível para discutir orientações clínicas, que podem incluir justificadas sequências de prescrição, caso tenham fundamentação técnica e científica e respeitem o Código Deontológico, incluindo o nº 4 do artº 5º, que afirma "O médico, no exercício da sua profissão, deve igualmente, e na medida que tal não conflitue com o interesse do seu doente, proteger a sociedade, garantindo um exercício consciente, procurando a maior eficácia e eficiência na gestão rigorosa dos recursos existentes".

Porém, não podemos admitir esta inconsistência do Infarmed, que aprova medicamentos e depois quer transformar o acto de prescrição num inferno de janelas, clicks e justificações, na prática visando impedir os médicos de os prescrever, tornado a consulta num calvário para o médico e o doente.

Se esta estratégia do Infarmed se generalizasse, obviamente idealizada por quem não lhe sofre as consequências, seria impossível continuar a trabalhar com sanidade nos Cuidados de Saúde Primários, por exemplo. Mas se for só para 'informar' os médicos, como é alegado, então já podem retirar os pop-ups das estatinas, pois os médicos já estão informados; ao fim de visualizarem a mesma janela dez vezes, já chega, não?!
E porque é que é permanentemente exigida justificação, mesmo depois de já ter sido justificado para o mesmo doente?!...

Mas se o Infarmed pede justificações para que os médicos prescrevam medicamentos que foram aprovados pelo próprio Infarmed, sem restrições, e comparticipados pelo Estado, que assim reconhece o seu interesse para os doentes, então sugiro a todos os médicos a seguinte justificação sistemática, quando entendam adequada:

"MEDICAMENTO APROVADO PELO INFARMED E COMPARTICIPADO PELO MINISTÉRIO DA SAÚDE COM BASE EM EXTENSOS ESTUDOS CLÍNICOS E ESTUDOS DE FARMACOECONOMIA, TENDO SIDO CONSIDERADO PELAS AUTORIDADES COMPETENTES COMO UMA MAIS VALIA PARA OS DOENTES."

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21 de Abril de 2016

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