É «inaceitável» que muitas farmácias hospitalares «funcionem em pré-fabricados a cair de podres» 

por Manuel Morato | foto de Nuno Almeida / SRNOM | 27.05.2016

Ex-bastonário da OF, preocupado com erros de medicação, apela ao envolvimento da gestão das unidades
A segurança nos fluxos operacionais do medicamento envolvendo a prescrição e o seu controlo, a aquisição, o armazenamento e a dispensa de medicação, assim como a identificação dos pontos críticos de mais elevado risco, sobretudo nas farmácias hospitalares, foram alguns temas em discussão na conferência Fluxo Seguro do Medicamento, que recorreu no Porto por iniciativa da APEG Saúde. 

«É inaceitável» que hospitais de grande dimensão «não tenham os equipamentos elementares» nas suas farmácias, e que estas, em muitos casos, «estejam instaladas em pré-fabricados a cair de podres», afirmou, no Porto, Carlos Maurício Barbosa, ex-bastonário da Ordem dos Farmacêuticos (OF) e comentador convidado da conferência «Fluxo Seguro do Medicamento», uma iniciativa da APEGSaúde que decorreu dia 24 de maio nas instalações da Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos. 



«É inaceitável» que hospitais de grande dimensão «não tenham os equipamentos elementares» nas suas farmácias, afirmou no Porto, Maurício Barbosa, ex-bastonário da Ordem dos Farmacêuticos (OF) 

Para Maurício Barbosa, nada se pode exigir [em termos de segurança do medicamento] «se continuarmos a ter farmácias hospitalares como muitas que temos hoje», garantindo que em Portugal, tal como é internacionalmente aceite, existem «erros de medicação na admissão e na alta hospitalar».

Na conferência, em que participaram os presidentes dos conselhos de administração (CA) de todos os centros hospitalares (CH) e unidades locais de saúde (ULS) da Região Norte, e ainda os responsáveis das respectivas comissões de farmácia, o ex-dirigente da OF considerou de extrema importância que Portugal se prepare para a introdução da «directiva comunitária dos medicamentos falsificados», que entra em vigor em 2019. «Não podemos, na véspera, pensar no assunto», disse, considerando que «é um avanço reconhecido como muito importante», e por isso «teremos que estar preparados para cumprir a directiva». 

Apesar de todos os profissionais e saúde «querem que o circuito dos medicamentos seja seguro», Maurício Barbosa reconheceu que «não se tem sabido criar condições para garantir essa segurança». «Temos que ir mais longe», afirmou, indicando que «é preciso que toda a estrutura das unidades de saúde seja envolvida» no processo. 

«Há hospitais que têm andado muito isolados»

Na abertura dos trabalhos, em que participou Leonor Furtado, responsável da Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) verificou-se que há hospitais que «têm andado muito isolados» a resolver os seus problemas, os quais, no fundo, são «problemas comuns».

Situações de «empréstimo de medicamentos» por empresas farmacêuticas, existência de «medicamentos fora de prazo», dispensa de medicamentos em ambulatório «sem identificação do doente» e, noutros casos, «sem suporte legal» - o que, como foi referido, pode «representar no SNS alguns milhões» - foram algumas «fragilidades» das farmácias denunciados por Leonor Furtado, que se pronunciou com base numa auditoria recente efectuada às farmácias hospitalares. 

Na segunda ronda do debate, que envolveu apenas os farmacêuticos, verificou-se que muitos dos hospitais têm problemas comuns, havendo no entanto unidades mais motivados, por exemplo, para a resolução e prevenção de erros de medicação. 

Unidades consideram «preocupante a cedência de medicamentos no ambulatório»

Questionada acerca dos «mais importantes riscos», a maioria das unidades considerou «preocupante» a cedência de medicamentos da área do ambulatório, como foi o caso do Centro Hospitalar do Porto, unidade que se mostrou também desagradada com a medicação pedida pelo setor privado, material que o hospital não terá possibilidades de repor.



Quanto ao CH de Gaia, lamentou-se que, em termos de «reporte de erros» em fármacos cedidos ao sector privado «não haja qualquer tipo de informação». Noutros casos foram apresentados problemas relativos à «validação da prescrição» e ao horário da farmácia hospitalar. Quanto a erros de medicação, foi referido que os que têm sido notificados são detetados no ato da administração, visto que, em muitos casos, a «rastreabilidade não têm funcionado».


Situações de «empréstimo de medicamentos» a empresas farmacêuticas, existência de «medicamentos fora de prazo», dispensa de medicamentos em ambulatório «sem identificação do doente» foram algumas «fragilidades» das farmácias denunciadas pela dirigente do IGAS 


Para Maurício Barbosa, nada se pode exigir [em termos de segurança do medicamento] «se continuarmos a ter farmácias hospitalares como muitas que temos hoje» 

Maurício Barbosa garantiu que em Portugal, tal como é internacionalmente aceite, existem «erros de medicação na admissão e na alta hospitalar» 

Verificou-se que muitos dos hospitais têm problemas comuns, havendo no entanto unidades mais motivados, por exemplo, para a resolução e prevenção de erros de medicação 

Quanto a erros de medicação, foi referido que os que têm sido notificados são detetados no ato da administração, visto que, em muitos casos, a «rastreabilidade não têm funcionado» 

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Prescrição desmaterializada é «positiva» mas está a causar distúrbios» na actividade

O presidente do Conselho Regional do Norte (CRN) da Ordem dos Médicos (OM) defendeu, no encerramento da conferência Fluxo Seguro do Medicamento, que a prescrição médica desmaterializada, na prática, está a ter um efeito «positivo» no acesso ao medicamento, mas por outro lado «está causar distúrbios na actividade médica».
 
Miguel Guimarães explicou que, como a prescrição electrónica desmaterializada obriga à utilização de um cartão - um ship -, à introdução de password e a repetição da função doente para doente, isso significa que, para aumentar o nível de segurança estamos a diminuir o tempo a dedicado ao doente».

O presidente do CRN defende por isso que, na fase de introdução de novas aplicações, como é o caso da desmaterialização da prescrição médica, «é necessário um tempo de adaptação».

Miguel Guimarães reconheceria, de resto, que os equipamentos informáticos «têm um peso excessivo e exigem cada vez mais» dos médicos. Quanto ao erro de medicação, o dirigente da Ordem dos Médicos apresentou algumas «formas fundamentais» para o reduzir, citando um artigo publicado no Wall Street Journal, segundo o qual «uma comunicação menos eficaz dentro do sistema é uma das principais causas de erro em saúde», sendo que essa falta de eficácia «afeta particularmente a área do circuito do medicamento».

Para minimizar o erro na medicação Miguel Guimarães apontou ainda para a necessidade de «envolver mais os farmacêuticos na questão dos medicamentos», na medida em estes «podem chamar a atenção para situações duvidosas», indicando ainda que a «diminuição dos erros de diagnóstico» e a «partilha dos registos electrónicos» são outras formas de evitar o erro nos medicamentos. 

«Raramente são feitas auditorias na área do fluxo do medicamento e há falta de notificação de erros», admitiria ainda o urologista, acrescentando: «Se não notificarmos os erros não conseguimos corrigi-los, sendo que com os erros apendemos muito – conseguimos melhorar e ter melhores resultados».
 
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«Entre 10 a 25% da despesa com medicamentos resulta de más práticas»

«Entre 10 a 25%» da despesa com medicamentos resulta de más práticas, quer na contratação pública, quer mesmo «ao nível da identificação de algumas práticas corruptas», admitiu na abertura da conferência a responsável da Inspeção-Geral das Atividades em Saúde - IGAS), Leonor Furtado, acrescentando que estes números resultam de uma auditoria realizada às farmácias hospitalares direcionada à prescrição médica e à utilização racional do medicamento.

Segundo a responsável, esta auditoria abrangeu 19 unidades e teve início em 2014, prolongando-se durante todo o ano de 2015. Este ano, como disse a dirigente do IGAS, estão a decorrer várias acções inspectivas para «verificação de procedimentos», na sequência dos resultados obtidos, sendo que neste momento a inspeção está direccionada para 12 entidades.

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Não uniformização da prescrição médica é vista como «um risco»

Também o problema informático, sobretudo a «não uniformização» da prescrição médica, será um risco em todo este processo: «Há procedimentos estruturais que não foram feitos e há hoje uma décalage em vários hospitais», como admitiu Pedro Morais, médico que representou a ULS do Alto Minho.

O facto da dispensa de medicamentos não estar regulamentada chegou a ser colocado, mas à questão Leonor Furtado respondeu de forma perentória: «Não está em causa que a dispensa tem que ser regulamentada, as instituições é que têm que verificar se é confirmada a identificação do doente».

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27 de Maio de 2016

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