«O nosso SNS é o melhor do mundo»
por Teresa Mendes | foto de Luís Ribeiro | 23.06.2016
Bastonário da OM considera que Portugal tem mais a ensinar do que a aprender
«Temos que abandonar este nosso provincianismo e reconhecer que o nosso SNS é, na relação da qualidade, acessibilidade e custo per capita, o melhor do mundo», evidenciou o bastonário da Ordem dos Médicos (OM), no passado dia 21 no Fórum «Os Hospitais – Reforma do Serviço Nacional de Saúde», em Lisboa Teresa Mendes «Inovação nos Modelos de Organização e Gestão» foi o tema subjacente às intervenções dos bastonários das três principais ordens da saúde no Fórum «Hospitais – Reforma do Serviço Nacional de Saúde».
Para José Manuel Silva «temos que obviamente melhorar, evoluir e modernizar-nos, mas não precisamos de andar a aprender as realidades diferentes da nossa».
No papel assumido de «Velho do Restelo», o responsável salientou que «falamos com alguma reverência sobre o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS)» quando, na sua opinião, «temos mais lições para dar do que para aprender».
A comparação entre os dois foi feita. «Portugal tem 4,3 médicos no ativo por cada 1000 habitantes e o Reino Unido tem 2,8 e é por isso que o NHS tem alguns problemas e recorre a outros profissionais para fazer funções dos médicos», alertou.
Já no rácio de enfermeiros o NHS fica a ganhar com 8,2 por 1000 habitantes, contra os 6,1 do SNS, apelando o dirigente para que o «Governo contrate rapidamente 20 mil enfermeiros», até porque, sublinhou, «precisamos de ter o número certo de todas as profissões da saúde e não se pode gerir um SNS sem profissionais».
Para além disso, continuou, «números deste ano do Eurostat mostram que Portugal está acima da média europeia no número de mortes potencialmente evitáveis, com 32 %, e o Reino Unido está abaixo da média com 34,6%», dados que para o dirigente demonstram que «o SNS é melhor do que o NHS».
Bastonário da OM defende nomeação dos CA por concurso público
Relativamente à gestão, e lembrando que «a escolha da Saúde é sempre política», o bastonário considera essencial «preservar as carreiras médicas», lembrando que «se há algumas circunstâncias em que a nomeação de diretores de serviço não respeita as carreiras médicas, também os gestores deviam ter uma carreira hospitalar onde progredissem por qualidade e avaliação e não por nomeações públicas».
Na sua opinião, «os conselhos de administração (CA) deviam ser nomeados por concurso público, porque não são órgãos políticos mas sim técnicos, concurso esse que obviamente deve ser imune às pressões políticas ou às pressões das pessoas ditas importantes que condicionam a nomeação». «Isto é a antítese da boa gestão e da independência da gestão», sublinhou, garantindo que «qualquer modelo funciona bem se as pessoas certas forem colocadas nos lugares certos».
Depois, de nada valem os modelos inovadores se não houver uma avaliação eficiente e consequente.
Segundo José Manuel Silva, «passamos a vida a falar de experiencias inovadoras, mas depois não as avaliamos e elas eternizam-se quer corram bem, quer corram mal».

Por outro lado, os modelos inovadores de organização também de nada servem ser não existir autonomia.
«Até há despachos, já no atual Governo, que condicionam totalmente a autonomia dos CA e isso é a antítese da boa governação, pois o que é básico da boa gestão, e que toda a gente diz mas nenhum governo aplica, é a autonomia e a responsabilização dos CA dos hospitais», advertiu.
José Manuel Silva deixou ainda um desejo, de que «houvesse tanta preocupação com a boa gestão dos bancos como há com a boa gestão do SNS», lembrando que «Londres institui multas aos bancos para financiar o NHS e em Portugal os portugueses financiam os bancos».
O responsável não esqueceu de apelar para a «necessidade de lutar contra a ‘McDonaldinização’ da Saúde» e «apostar na qualidade», incitando o atual Governo a eliminar o que considera «a medida mais disruptiva da saúde em Portugal», que é não publicação dos dados de mortalidade e morbilidade por patologias e instituição, medida inscrita na proposta para a sustentabilidade do SNS da OM, entregue na anterior legislatura e também já nesta.
«Os gestores de topo têm que decidir de que lado estão»
A bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, pegou nas palavras de José Manuel Silva para dizer que «precisamos de facto de mais 20 mil enfermeiros no sistema», salientando que «este é um momento de rutura no SNS, mas provavelmente um momento histórico em que médicos e enfermeiros estão de acordo e estão juntos».
A responsável, tal como o bastonário da OM, salientou que «não há modelos inovadores ou gestão inovadora se não houver efetivamente em Portugal uma mudança clara de mentalidade».
Para José Manuel Silva «temos que obviamente melhorar, evoluir e modernizar-nos, mas não precisamos de andar a aprender as realidades diferentes da nossa»
«Números deste ano do Eurostat mostram que Portugal está acima da média europeia no número de mortes potencialmente evitáveis, com 32 %, e o Reino Unido está abaixo da média com 34,6%», afirmou o bastonário da OM
«Os conselhos de administração (CA) deviam ser nomeados por concurso público, porque não são órgãos políticos mas sim técnicos, concurso esse que obviamente deve ser imune às pressões políticas ou às pressões das pessoas ditas importantes que condicionam a nomeação», considera José Manuel Silva
José Manuel Silva: «Qualquer modelo funciona bem se as pessoas certas forem colocadas nos lugares certos»
«Este é um momento de rutura no SNS, mas provavelmente um momento histórico em que médicos e enfermeiros estão de acordo e estão juntos», afirmou Ana Rita Cavaco
«Ou optamos por algumas coisas diariamente, como se tem vindo a passar, e fazemos a vontade à tutela que nos nomeia, ou estamos do lado dos doentes e tomamos as decisões técnicas adequadas», concretizou Ana Rita Cavaco
«Não acredito que nos próximos 10 anos mantenhamos os serviços hospitalares a funcionar como os conhecemos hoje, com uma total segurança do circuito do medicamento, sem termos uma carreira farmacêutica definida e orientada», alertou a bastonária da OF
«Os gestores de topo têm que, de uma vez por todas, decidir de que lado estão, se do lado dos doentes e do SNS ou do lado de quem os nomeia», afirmou a dirigente, recordando que «o sistema não é facilitador do seu trabalho, nomeadamente dos enfermeiros diretores».
«Ou optamos por algumas coisas diariamente, como se tem vindo a passar, e fazemos a vontade à tutela que nos nomeia, ou estamos do lado dos doentes e tomamos as decisões técnicas adequadas», concretizou Ana Rita Cavaco, louvando aqueles que «tiveram a coragem de, num momento tão difícil do SNS, encerrar camas por falta de enfermeiros» para evitar colocar em perigo a vida dos doentes.
Por outro lado, a responsável também concorda que «temos que acabar com as nomeações sem ser por mérito porque são nefastas para a gestão do SNS» e dar autonomia para «garantir que as decisões técnicas estão acauteladas».
Caixa
«Estamos há 20 anos a defender uma carreira»
A bastonária da Ordem dos Farmacêuticos (OF), Ana Paula Martins, começou por salientar um aspeto positivo, que é o da reunião representar «alguma abertura do governo de poderem as ordens encontrar caminhos comuns».
Contudo, a dirigente aproveitou para transmitir à plateia a sua grande preocupação com a indefinição da carreira dos farmacêuticos.
«Não acredito, com o diagnóstico que hoje temos feito na Ordem, que nos próximos 10 anos mantenhamos os serviços hospitalares a funcionar como os conhecemos hoje, com uma total segurança do circuito do medicamento, sem termos uma carreira farmacêutica definida e orientada», alertou a responsável.
«Chegámos a um limite. Estamos há 20 anos a defender um percurso no âmbito da farmácia hospitalar e cada vez que entra um novo Governo começamos do nada», lamentou Ana Paula Martins.
A bastonária da OF lembrou igualmente a «situação muitíssimo frágil das farmácias», considerando a propósito do tema da reunião que «um modelo inovador não é possível sem transparência, meritocracia, mobilização dos profissionais e sistemas de incentivos que realmente recompensem os resultados».
Caixa
Manuel Antunes, diretor do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica do CHUC
«A ineficiência e o desperdício continuam a ser o principal problema do SNS»
«Velhos paradigmas. Novas ambições» foi o tema abordado por Manuel Antunes, diretor do Centro de Responsabilidade Integrada (CRI) do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), considerando o responsável que «a ineficiência e o desperdício continuam a ser o principal problema do Serviço Nacional de Saúde (SNS), com ligação direta à sua sobrevivência e sustentabilidade».
O responsável lembrou os dados do Tribunal de Contas que dizem que «os hospitais desperdiçam 2 milhões de euros por dia devido a ineficiências nas unidades hospitalares», alertando que é «neste aspeto que podemos intervir». De qualquer forma, Manuel Antunes advertiu que também é preciso «ter em conta que nenhum país consegue um sistema 100% disponível e que cobre 100% da população».
Na sua opinião, é fundamental «saber responder às perguntas ‘que saúde queremos ter, quanto custa e quem paga’». Relativamente aos modelos de gestão, o diretor do CRI assegurou que «tudo o que é realmente importante na gestão de um hospital ocorre dentro dos serviços e não no gabinete do conselho de administração».
E, como tal, «a melhor equipa de gestão de um hospital não consegue nada sem uma boa coordenação e gestão dos diretores de serviço».
Essa é precisamente a filosofia do CRI que dirige desde 1988, onde imperam «a qualidade, autonomia, desconcentração de poderes e correspondente atribuição de responsabilidades que velem pela eficiência e racionalização de meios», lamentando o dirigente que «nenhum dos vários governos tenha tido interesse em replicar este modelo». Manuel Antunes recordou que tem um orçamento de 16 milhões de euros e 5 milhões de euros de lucro, que nunca tirou nenhum curso de gestão, e que todos os anos é colocado na página do CRI o relatório de atividades.
«Qualquer pessoa no mundo pode ver a evolução da nossa atividade, bem como da qualidade», sublinhou.
Para o responsável, outro aspeto importante é a motivação dos profissionais e, segundo Manuel Antunes, «não é possível motivar os profissionais sem haver qualquer compensação pelo seu desempenho», apesar de o CRI estar a funcionar desde 2010 sem incentivos.
De qualquer forma, «nós temos resultados que nenhum serviço de cirurgia cardiotorácica apresenta, facto reconhecido por muitos, inclusive pelo atual ministro da saúde que já disse muitas vezes querer a ‘manuelantonização’ dos serviços», destacou,
O dirigente apresentou ainda os resultados de uma auditoria feita aos serviços de cirurgia cardiotorácica do País que mostram que «este CRI tem menos funcionários que os outros, tem o maior número de doentes tratados, o menor índice de complicações e de mortalidade, tem um custo que é em 50% inferior ao que está decidido, e que não é feito à base da remuneração dos profissionais, incluindo os incentivos».
Por fim, Manuel Antunes citou um artigo publicado no «Tempo Medicina», no qual dizia que «Parece doer muito passar as responsabilidades», motivo que continua a ser apontado pelo dirigente para a falta disseminação das boas práticas identificadas.
Caixa
«Não nos devemos fechar nos nossos castelos»
Ana Escoval, presidente do conselho de administração (CA) do Centro Hospitalar de Lisboa Central começou a sua intervenção lembrando os vários nomes que contribuíram para a formação e sucesso do Serviço Nacional de Saúde, tendo colhido uma enorme salva de palmas da plateia.
A responsável lembrou um trabalho da Escola Nacional de Saúde Pública de 2010 sobre o futuro dos hospitais, coordenado por si e por Adalberto Campos Fernandes, no qual era defendido até 2016 uma nova visão em que o cidadão iria estar posicionado no centro do sistema.
No entanto, lamentou Ana Escoval, «já estamos em 2016». Segundo a gestora, «nós vivenciamos todos os dias coisas extraordinárias no nosso SNS», considerando que existem progressos, mas que falta ainda fazer um caminho para chegar a um modelo mais adequado.
«Não nos devemos fechar nos nossos castelos.
Importa rasgar janelas e com determinação, dedicação e paixão encontrar novas formas de acomodar as verdadeiras necessidades, incluindo os doentes na definição destes caminhos, através da literacia em saúde, porque os profissionais e os cidadãos são o mais importante e devem estar no centro do sistema», afirmou Ana Escoval, advertindo que «competir, só pela qualidade».
Miguel Castel-Branco, ex-presidente do CA do Centro Hospitalar da Cova da Beira e professor associado da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior, concordou com a administradora, prevenindo que «as administrações dos hospitais têm de ser capazes de se adaptar a uma rede hospitalar mais eficiente, facto que infelizmente não tem sido a tendência nos últimos anos».
Para o responsável, «a concentração de poderes e da autonomia das administrações hospitalares são aspetos que têm vindo a inviabilizar todas as premissas da qualidade».
16tm25r
23 de Junho de 2016
1625Ant5f16tm25r
Para José Manuel Silva «temos que obviamente melhorar, evoluir e modernizar-nos, mas não precisamos de andar a aprender as realidades diferentes da nossa».
No papel assumido de «Velho do Restelo», o responsável salientou que «falamos com alguma reverência sobre o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS)» quando, na sua opinião, «temos mais lições para dar do que para aprender».
A comparação entre os dois foi feita. «Portugal tem 4,3 médicos no ativo por cada 1000 habitantes e o Reino Unido tem 2,8 e é por isso que o NHS tem alguns problemas e recorre a outros profissionais para fazer funções dos médicos», alertou.
Já no rácio de enfermeiros o NHS fica a ganhar com 8,2 por 1000 habitantes, contra os 6,1 do SNS, apelando o dirigente para que o «Governo contrate rapidamente 20 mil enfermeiros», até porque, sublinhou, «precisamos de ter o número certo de todas as profissões da saúde e não se pode gerir um SNS sem profissionais».
Para além disso, continuou, «números deste ano do Eurostat mostram que Portugal está acima da média europeia no número de mortes potencialmente evitáveis, com 32 %, e o Reino Unido está abaixo da média com 34,6%», dados que para o dirigente demonstram que «o SNS é melhor do que o NHS».
Bastonário da OM defende nomeação dos CA por concurso público
Relativamente à gestão, e lembrando que «a escolha da Saúde é sempre política», o bastonário considera essencial «preservar as carreiras médicas», lembrando que «se há algumas circunstâncias em que a nomeação de diretores de serviço não respeita as carreiras médicas, também os gestores deviam ter uma carreira hospitalar onde progredissem por qualidade e avaliação e não por nomeações públicas».
Na sua opinião, «os conselhos de administração (CA) deviam ser nomeados por concurso público, porque não são órgãos políticos mas sim técnicos, concurso esse que obviamente deve ser imune às pressões políticas ou às pressões das pessoas ditas importantes que condicionam a nomeação». «Isto é a antítese da boa gestão e da independência da gestão», sublinhou, garantindo que «qualquer modelo funciona bem se as pessoas certas forem colocadas nos lugares certos».
Depois, de nada valem os modelos inovadores se não houver uma avaliação eficiente e consequente.
Segundo José Manuel Silva, «passamos a vida a falar de experiencias inovadoras, mas depois não as avaliamos e elas eternizam-se quer corram bem, quer corram mal».

Por outro lado, os modelos inovadores de organização também de nada servem ser não existir autonomia.
«Até há despachos, já no atual Governo, que condicionam totalmente a autonomia dos CA e isso é a antítese da boa governação, pois o que é básico da boa gestão, e que toda a gente diz mas nenhum governo aplica, é a autonomia e a responsabilização dos CA dos hospitais», advertiu.
José Manuel Silva deixou ainda um desejo, de que «houvesse tanta preocupação com a boa gestão dos bancos como há com a boa gestão do SNS», lembrando que «Londres institui multas aos bancos para financiar o NHS e em Portugal os portugueses financiam os bancos».
O responsável não esqueceu de apelar para a «necessidade de lutar contra a ‘McDonaldinização’ da Saúde» e «apostar na qualidade», incitando o atual Governo a eliminar o que considera «a medida mais disruptiva da saúde em Portugal», que é não publicação dos dados de mortalidade e morbilidade por patologias e instituição, medida inscrita na proposta para a sustentabilidade do SNS da OM, entregue na anterior legislatura e também já nesta.
«Os gestores de topo têm que decidir de que lado estão»
A bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, pegou nas palavras de José Manuel Silva para dizer que «precisamos de facto de mais 20 mil enfermeiros no sistema», salientando que «este é um momento de rutura no SNS, mas provavelmente um momento histórico em que médicos e enfermeiros estão de acordo e estão juntos».
A responsável, tal como o bastonário da OM, salientou que «não há modelos inovadores ou gestão inovadora se não houver efetivamente em Portugal uma mudança clara de mentalidade».
Para José Manuel Silva «temos que obviamente melhorar, evoluir e modernizar-nos, mas não precisamos de andar a aprender as realidades diferentes da nossa»
«Números deste ano do Eurostat mostram que Portugal está acima da média europeia no número de mortes potencialmente evitáveis, com 32 %, e o Reino Unido está abaixo da média com 34,6%», afirmou o bastonário da OM
«Os conselhos de administração (CA) deviam ser nomeados por concurso público, porque não são órgãos políticos mas sim técnicos, concurso esse que obviamente deve ser imune às pressões políticas ou às pressões das pessoas ditas importantes que condicionam a nomeação», considera José Manuel Silva
José Manuel Silva: «Qualquer modelo funciona bem se as pessoas certas forem colocadas nos lugares certos»
«Este é um momento de rutura no SNS, mas provavelmente um momento histórico em que médicos e enfermeiros estão de acordo e estão juntos», afirmou Ana Rita Cavaco
«Ou optamos por algumas coisas diariamente, como se tem vindo a passar, e fazemos a vontade à tutela que nos nomeia, ou estamos do lado dos doentes e tomamos as decisões técnicas adequadas», concretizou Ana Rita Cavaco
«Não acredito que nos próximos 10 anos mantenhamos os serviços hospitalares a funcionar como os conhecemos hoje, com uma total segurança do circuito do medicamento, sem termos uma carreira farmacêutica definida e orientada», alertou a bastonária da OF
«Os gestores de topo têm que, de uma vez por todas, decidir de que lado estão, se do lado dos doentes e do SNS ou do lado de quem os nomeia», afirmou a dirigente, recordando que «o sistema não é facilitador do seu trabalho, nomeadamente dos enfermeiros diretores».
«Ou optamos por algumas coisas diariamente, como se tem vindo a passar, e fazemos a vontade à tutela que nos nomeia, ou estamos do lado dos doentes e tomamos as decisões técnicas adequadas», concretizou Ana Rita Cavaco, louvando aqueles que «tiveram a coragem de, num momento tão difícil do SNS, encerrar camas por falta de enfermeiros» para evitar colocar em perigo a vida dos doentes.
Por outro lado, a responsável também concorda que «temos que acabar com as nomeações sem ser por mérito porque são nefastas para a gestão do SNS» e dar autonomia para «garantir que as decisões técnicas estão acauteladas».
Caixa
«Estamos há 20 anos a defender uma carreira»
A bastonária da Ordem dos Farmacêuticos (OF), Ana Paula Martins, começou por salientar um aspeto positivo, que é o da reunião representar «alguma abertura do governo de poderem as ordens encontrar caminhos comuns».
Contudo, a dirigente aproveitou para transmitir à plateia a sua grande preocupação com a indefinição da carreira dos farmacêuticos.
«Não acredito, com o diagnóstico que hoje temos feito na Ordem, que nos próximos 10 anos mantenhamos os serviços hospitalares a funcionar como os conhecemos hoje, com uma total segurança do circuito do medicamento, sem termos uma carreira farmacêutica definida e orientada», alertou a responsável.
«Chegámos a um limite. Estamos há 20 anos a defender um percurso no âmbito da farmácia hospitalar e cada vez que entra um novo Governo começamos do nada», lamentou Ana Paula Martins.
A bastonária da OF lembrou igualmente a «situação muitíssimo frágil das farmácias», considerando a propósito do tema da reunião que «um modelo inovador não é possível sem transparência, meritocracia, mobilização dos profissionais e sistemas de incentivos que realmente recompensem os resultados».
Caixa
Manuel Antunes, diretor do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica do CHUC
«A ineficiência e o desperdício continuam a ser o principal problema do SNS»
«Velhos paradigmas. Novas ambições» foi o tema abordado por Manuel Antunes, diretor do Centro de Responsabilidade Integrada (CRI) do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), considerando o responsável que «a ineficiência e o desperdício continuam a ser o principal problema do Serviço Nacional de Saúde (SNS), com ligação direta à sua sobrevivência e sustentabilidade».
O responsável lembrou os dados do Tribunal de Contas que dizem que «os hospitais desperdiçam 2 milhões de euros por dia devido a ineficiências nas unidades hospitalares», alertando que é «neste aspeto que podemos intervir». De qualquer forma, Manuel Antunes advertiu que também é preciso «ter em conta que nenhum país consegue um sistema 100% disponível e que cobre 100% da população».
Na sua opinião, é fundamental «saber responder às perguntas ‘que saúde queremos ter, quanto custa e quem paga’». Relativamente aos modelos de gestão, o diretor do CRI assegurou que «tudo o que é realmente importante na gestão de um hospital ocorre dentro dos serviços e não no gabinete do conselho de administração».
E, como tal, «a melhor equipa de gestão de um hospital não consegue nada sem uma boa coordenação e gestão dos diretores de serviço».
Essa é precisamente a filosofia do CRI que dirige desde 1988, onde imperam «a qualidade, autonomia, desconcentração de poderes e correspondente atribuição de responsabilidades que velem pela eficiência e racionalização de meios», lamentando o dirigente que «nenhum dos vários governos tenha tido interesse em replicar este modelo». Manuel Antunes recordou que tem um orçamento de 16 milhões de euros e 5 milhões de euros de lucro, que nunca tirou nenhum curso de gestão, e que todos os anos é colocado na página do CRI o relatório de atividades.
«Qualquer pessoa no mundo pode ver a evolução da nossa atividade, bem como da qualidade», sublinhou.
Para o responsável, outro aspeto importante é a motivação dos profissionais e, segundo Manuel Antunes, «não é possível motivar os profissionais sem haver qualquer compensação pelo seu desempenho», apesar de o CRI estar a funcionar desde 2010 sem incentivos.
De qualquer forma, «nós temos resultados que nenhum serviço de cirurgia cardiotorácica apresenta, facto reconhecido por muitos, inclusive pelo atual ministro da saúde que já disse muitas vezes querer a ‘manuelantonização’ dos serviços», destacou,
O dirigente apresentou ainda os resultados de uma auditoria feita aos serviços de cirurgia cardiotorácica do País que mostram que «este CRI tem menos funcionários que os outros, tem o maior número de doentes tratados, o menor índice de complicações e de mortalidade, tem um custo que é em 50% inferior ao que está decidido, e que não é feito à base da remuneração dos profissionais, incluindo os incentivos».
Por fim, Manuel Antunes citou um artigo publicado no «Tempo Medicina», no qual dizia que «Parece doer muito passar as responsabilidades», motivo que continua a ser apontado pelo dirigente para a falta disseminação das boas práticas identificadas.
Caixa
«Não nos devemos fechar nos nossos castelos»
Ana Escoval, presidente do conselho de administração (CA) do Centro Hospitalar de Lisboa Central começou a sua intervenção lembrando os vários nomes que contribuíram para a formação e sucesso do Serviço Nacional de Saúde, tendo colhido uma enorme salva de palmas da plateia.
A responsável lembrou um trabalho da Escola Nacional de Saúde Pública de 2010 sobre o futuro dos hospitais, coordenado por si e por Adalberto Campos Fernandes, no qual era defendido até 2016 uma nova visão em que o cidadão iria estar posicionado no centro do sistema.
No entanto, lamentou Ana Escoval, «já estamos em 2016». Segundo a gestora, «nós vivenciamos todos os dias coisas extraordinárias no nosso SNS», considerando que existem progressos, mas que falta ainda fazer um caminho para chegar a um modelo mais adequado.
«Não nos devemos fechar nos nossos castelos.
Importa rasgar janelas e com determinação, dedicação e paixão encontrar novas formas de acomodar as verdadeiras necessidades, incluindo os doentes na definição destes caminhos, através da literacia em saúde, porque os profissionais e os cidadãos são o mais importante e devem estar no centro do sistema», afirmou Ana Escoval, advertindo que «competir, só pela qualidade».
Miguel Castel-Branco, ex-presidente do CA do Centro Hospitalar da Cova da Beira e professor associado da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior, concordou com a administradora, prevenindo que «as administrações dos hospitais têm de ser capazes de se adaptar a uma rede hospitalar mais eficiente, facto que infelizmente não tem sido a tendência nos últimos anos».
Para o responsável, «a concentração de poderes e da autonomia das administrações hospitalares são aspetos que têm vindo a inviabilizar todas as premissas da qualidade».
16tm25r
23 de Junho de 2016
1625Ant5f16tm25r
«O nosso SNS é o melhor do mundo»