Equipa vai estudar respostas para a demência

por Rita Vassal | foto de "DR" | 08.07.2016

Manuel Lopes defende que é necessário um «plano estratégico» para esta área específica dos cuidados
O Coordenador Nacional para a reforma do SNS na área dos Cuidados Continuados Integrados reconheceu a necessidade de estudar as especificidades da resposta neste nível de cuidados para as pessoas com demência.

Manuel Lopes garantiu também aos profissionais da rede que está a ser estudada a possibilidade do sistema de informação passar a incorporar informação clínica e não só de gestão de fluxo.

Na reunião organizada pela Associação Portuguesa de Engenharia e Gestão da Saúde (APEGSaúde) na sede da Ordem dos Médicos, no passado dia 30 de Junho, o Coordenador Nacional para a reforma do SNS na área dos Cuidados Continuados Integrados avançou com algumas das novidades que se preparam para este nível de cuidados.



Para além dos mais de 20 contratos programa que serão assinados durante o mês de julho para a abertura de unidades especializadas em problemas de Saúde Mental, Manuel Lopes admitiu que, neste âmbito, é necessário ter «um plano estratégico» para desenvolver as respostas direcionadas aos doentes com demências. 

Para esta população tão específica Manuel Lopes reconheceu que há «uma divergência sobre a resposta mais adequada» e, nessa medida, é imperativo encontrar consensos que permitam integrar ou não na rede nacional de cuidados continuados integrados algumas das respostas já existentes no terreno para pessoas com demência e outras que venham a ser criadas.

Para trabalhar nesses consensos e encontrar o modelo de resposta que melhor se adeque às especificidades dos doentes com demência o responsável avançou que está a ser pensada a nomeação de uma equipa, pois trata-se de uma matéria que requer toda a atenção por parte da tutela.

Afinal, explicou, o País enfrenta o «enorme desafio» da perda de população e do envelhecimento da sociedade, condição associada ao aumento das demências, que «é inexorável» problemas para os quais é necessário é necessário criar respostas.

Sistema de informação com novas valências

Uma das principais críticas que a rede tem recebido dos profissionais e dos parceiros que a integram diz respeito ao sistema de informação.

Manuel Lopes reconheceu as insuficiências do atual sistema de informação que suporta a rede e anunciou que este está a ser revisitado com o objetivo de, para além da função de gestão de fluxo, passar a integrar também a componente de gestão clínica. Segundo o coordenador estão a ser definidos os indicadores - neste momento mais de 20 já estão definidos - que vão permitir perceber «com que qualidade os cuidados são prestados, o que está a ser feito, como está a ser feito e com que resultados».

O responsável espera também que esta revisitação do sistema de informação permita trabalhar na interoperabilidade com os sistemas de informação dos hospitais, dos cuidados de saúde primários e das unidades prestadoras de cuidados na rede e também seja um passo para alterar a forma de pagamento aos prestadores da rede.

Neste momento, o financiamento das unidades é feito por capitação, mas Manuel Lopes espera que a componente dos resultados possa ser incorporada em breve no valor que é pago por cada doente assistido na rede. 

Outra alteração em marcha é a aposta na domiciliação dos cuidados, a «grande resposta estratégica de desenvolvimento da rede», sublinhou o responsável.

Um dos motivos para esta aposta, para além da preferência dos doentes, é o facto de esta resposta ser «muito custo/efetiva» como demonstram os números avançados durante a conferência: estima-se que o custo médio diário de um doente internado numa das unidades da rede ronde os 75 eurosenquanto a permanência no domicílio acarreta um custo médio de 18 euros diários por doente.

Manuel Lopes reconheceu que para a população com demências há «uma divergência sobre a resposta mais adequada»

Manuel Lopes explicou que o País enfrenta o «enorme desafio» da perda de população e do envelhecimento da sociedade, condição associada ao aumento das demências, que «é inexorável» problemas para os quais é necessário é necessário criar respostas

A domiciliação dos cuidados também levanta desafios no que diz respeito ao sistema de informação pois é necessário que a equipa de saúde que se desloca à casa onde o doente está tenha acesso a equipamento portátil que permita a recolha e registo de informação in loco sem ser necessário realizar essas operações posteriormente no local físico onde a equipa está sedeada.



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«Pressão do betão foi muito grande»

Depois de uma década a abrir unidades em várias regiões do País, Manuel Lopes está, desde que assumiu a coordenação dos cuidados continuados, a avançar que a prioridade neste momento da rede nacional de cuidados continuados integrados é a domiciliação. E na conferência o responsável admitiu que nestes 10 anos de reforma dos cuidados continuados «a pressão do betão foi muito grande» em determinadas regiões do País, sobretudo nas zonas do interior onde, de facto, o envelhecimento da população é mais acentuado e a desertificação mais visível.

Todavia, sublinhou, hoje é notório que «se construíram respostas que agora se verificam não ser as mais adequadas» e, tendo em conta esse cenário, Manuel Lopes está convencido que, se não forem deslocalizadas pessoas para o interior do País «brevemente teremos um excesso de oferta na dependência» nessas regiões.

Durante a primeira década de existência da rede privilegiou-se a institucionalização em detrimento da resposta domiciliária quando, na opinião do responsável, «o normal seria o contrário».

O desenvolvimento assimétrico da rede foi um dos problemas identificados por Manuel Lopes na conferência com as regiões de Lisboa e Vale do Tejo e do Porto identificadas como as mais carenciadas a nível nacional.

Para inverter esse cenário, contou o responsável, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa avançou com a criação de uma unidade de cuidados continuados integrados, com 78 camas, no antigo Hospital Militar da Estrela, naquela que será a maior unidade desta tipologia de cuidados da cidade de Lisboa.


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Profissionais desconhecem a rede

Abordando as questões da resposta em tempo útil da rede, Manuel Lopes reconheceu as insuficiências que têm sido reportadas, nomeadamente o facto de ser um sistema «rígido» e «burocrático».

Não obstante, frisou o coordenado, os cuidados continuados podem vangloriar-se de, mesmo com problemas, têm um sistema de referenciação facto que não acontece nos outros níveis de cuidados.

Contudo, entre os problemas do sistema de referenciação, na perspetiva de Manuel Lopes nomeou precisamente os profissionais de saúde.

O orador lembrou que «efetivamente esta é uma rede amplamente desconhecida da generalidade dos profissionais dos hospitais e dos cuidados de saúde primários» o que resulta numa má utilização do sistema de referenciação por parte desses mesmos profissionais. 

Nesta vertente, está a ser pensada a replicação de projetos como o encetado pelo Hospital Garcia de Orta onde se realizaram várias formações para dar a conhecer a rede e o sistema de referenciação com reconhecido aumento da referenciação de doentes para os cuidados continuados integrados. 

Cuidados ao domicílio pelo sector privado e social só em projetos piloto

Apesar de o terceiro sector, o social, dominar mais de 70% das respostas institucionalizadas da rede nacional de cuidados continuados integrados quando questionado sobre o papel que esse sector, e também o privado, pode ter na aposta na domiciliação dos cuidados Manuel Lopes garantiu não ter «nenhum preconceito ideológico» quanto à possibilidade de desempenharem igualmente essa valência na rede.

Ainda assim, o responsável considera que é necessário ter «muito cuidado» com a entrada destes operadores nesta nova aposta.

Isto porque, explicou, aprestação de cuidados no domicílio exige uma rede de contactos para resolver situações que não são propriamente de saúde do doente – como o apoio social, de cuidadores informais ou de câmaras municipais – que são «naturais num serviço público e podem não ser tão naturais assim para uma empresa privada».

Ainda assim, Manuel Lopes abriu a porta ao desenvolvimento de projetos-piloto de cuidados ao domicílio fora do Serviço Nacional da Saúde.

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7 de Julho de 2016

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