SRCOM quer plano de prevenção do «burnout» nos médicos

por Vitalino José Santos | foto de SRCOM / Rui Ferreira | 20.07.2016

Apresentação de resultados de estudo na zona Centro  
«Fizemos muitas visitas a hospitais e a centros de saúde e percebemos que havia muitos problemas de “burnout”», afirmou o presidente do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos (CRCOM), Carlos Cortes, na sessão de apresentação do estudo «Burnout nos médicos da zona Centro» reagendada para a noite de 14 de Julho, em Coimbra, e seguida de debate.

«Percebemos que existem muitas condicionantes e dificuldades que afectam os médicos e os profissionais de saúde, em geral», frisava o patologista Carlos Cortes, no encontro participado pelo grupo de trabalho multidisciplinar que, dando resposta também às sugestões do Gabinete de Apoio ao Médico (GAM) da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos (SRCOM), avançou com um estudo considerado inédito em Portugal, no qual intervieram 1577 médicos dos 8042 inscritos na SRCOM, durante o ano de 2015.

A síndrome de Burnout – cujo conceito foi definido por Maslach y Jackson (em 1981), conforme registámos num anterior trabalho jornalístico em torno dos resultados mais salientes deste estudo, para o qual foram convidados a participar todos os médicos abrangidos pela SRCOM – tem a ver com o desgaste profissional e é, igualmente, conhecida por síndrome de «combustão completa».

Daí que Carlos Cortes reconheça a importância do estudo que «demorou algum tempo a construir», contribuindo para que a SRCOM possa «zelar pelo bem-estar dos seus associados», além das funções disciplinares e reguladoras que lhe competem. 

«A vertente de apoio e de defesa dos médicos tem uma relação directa com a realidade dos serviços de saúde», observou o presidente do CRCOM, argumentando que, se os clínicos «estiverem bem», «vão estar melhor para prestarem cuidados de saúde de qualidade», em colaboração com os demais profissionais do sector.
 
Porque a investigação recente leva a admitir que esta síndrome resulta da «interacção de factores pessoais, profissionais e contextuais», a SRCOM procurou, assim, compreender as áreas da Medicina em que esta síndrome é mais frequente, bem como correlacionar as três dimensões do «burnout» (exaustão emocional, despersonalização e falta de realização profissional/pessoal) nos médicos e estabelecer um adequado plano de prevenção.

Prevenir síndrome de Burnout na classe médica

A título de curiosidade, na sequência de um trabalho de investigação já antigo e de menores dimensões (que envolveu o estudo observacional, analítico e transversal nos centros de Saúde de Braga, de Vila Nova de Famalicão e de Fafe, com uma população de 100 médicos de Medicina Geral e Familiar – MGF) e no qual «não se verificaram resultados estatisticamente significativos» nas variáveis que os autores se propuseram a correlacionar, já tinha sido considerada, no âmbito do 14.º Congresso Nacional de Medicina Familiar (em Novembro de 2009), a necessidade de realizar «outros trabalhos nos quais se estude a prevalência de Burnout utilizando uma escala diferente», no sentido de prevenir esta «patologia» cada vez mais frequente na classe médica.
 
O presente estudo – «Burnout nos médicos da zona Centro» – teve como instrumentos de medida um questionário sociodemográfico, laboral e de saúde, o inventário de Burnout de Maslach (MBI-HSS) e a escala «Depression, Anxiety and Stress Scale-21 (DASS-21)», a par da escala «Work-related Acceptance and Action Questionnaire (W-AAQ)» e do instrumento de rastreio do consumo excessivo de álcool «Alcohol Use Disorders Identification Test (AUDIT)», como destacou a médica de família Ana Paula Cordeiro, que integra o grupo de trabalho da SRCOM


Ao intervir no encontro de quinta-feira (14 de Julho), na Sala Miguel Torga, nas instalações da SRCOM em Coimbra, a coordenadora da Unidade de Saúde Familiar (USF) Fernando Namora (em Condeixa-a-Nova) esclareceu ainda acerca dos objectivos do referido estudo e do material utilizado e métodos, informando que foram efectuadas, pelo respectivo grupo de trabalho, sete sessões de sensibilização sobre factores relacionados com a síndrome de Burnout e correspondentes estratégias de prevenção.

As ditas sessões decorreram nos hospitais de Castelo Branco, da Covilhã e de Aveiro, no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Coimbra e na própria sede da SRCOM, bem como no 19.º Congresso Nacional e no 14.º Encontro Nacional de Internos e Jovens Médicos de Família (em Viseu), e também nas XXIX Jornadas de Coimbra da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF). 

«Trabalhar estas questões» com outros profissionais

Segundo notou Ana Paula Cordeiro – dando continuidade à breve intervenção do responsável pelo GAM da SRCOM, o médico de família José Augusto Simões (que exerce na USF Marquês de Marialva, em Cantanhede) –, «a todos os profissionais inscritos na SRCOM foram enviados questionários “on-line”, aos quais só era possível responder uma única vez».

No encontro que serviu para apresentar, de forma mais pormenorizada, os resultados do estudo sobre «burnout» na área de influência da SRCOM, intervieram também a psicóloga clínica Fernanda Duarte (responsável pela Consulta de Burnout do Centro de Responsabilidade Integrada – CRI – de Psiquiatria e Saúde Mental e do Serviço de Saúde Ocupacional do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra – CHUC) e o psiquiatra João Redondo, que integra igualmente o grupo de trabalho da SRCOM e coordena o Centro de Prevenção e Tratamento do Trauma Psicogénico do CRI de Psiquiatria e Saúde Mental do CHUC.

«Percebemos que existem muitas condicionantes e dificuldades que afectam os médicos e os profissionais de saúde, em geral», frisa o patologista Carlos Cortes, presidente do CRCOM 

«A vertente de apoio e de defesa dos médicos tem uma relação directa com a realidade dos serviços de saúde», observa o representante da OM na região Centro, Carlos Cortes

Interessado em «trabalhar estas questões com outras ordens profissionais» (a exemplo da Ordem dos Enfermeiros, que se fez representar por dois elementos da sua estrutura regional, na sessão de exposição dos resultados da pesquisa sobre «burnout»), o médico Carlos Cortes sublinhava tratar-se de «problemas que afectam todos os profissionais de saúde».

Por isso, «estas coisas têm de ser divulgadas», com o objectivo de «criar sinergias» e de «estabelecer a ligação a outras classes profissionais», independentemente de estarem ou não representadas por ordens ou estruturas associativas que visem promover as respectivas auto-regulação e descentralização administrativa. «Assim, continuamos a desenvolver contactos», acentuou o presidente do CRCOM, para quem «se pode fazer muito em conjunto, na área da Saúde».

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Amostra «bastante representativa»

Embora a amostra do estudo «Burnout nos médicos da zona Centro» corresponda a cerca de 20% do universo dos profissionais inscritos na SRCOM, Carlos Cortes diz ser «bastante representativa, em termos de investigação».

Nessa medida, são muito importantes os resultados que indicam «burnout» elevado em 40,5% dos inquiridos, afectados por exaustão emocional, enquanto 17,1% revela pouca empatia e desinteresse, pressupondo despersonalização. 

Na dita amostra, que envolve 1577 médicos (996 mulheres e 581 homens, com a média total de idade de 42,83 anos, sendo 49,5% a percentagem dos casados e 55,4% a percentagem dos que têm filhos), e interpretando as percentagens dos médicos com pontos de corte elevados nas três dimensões da síndrome de Burnout, apurou-se que 23,3% são especialistas de MGF e que «os médicos com mais de vinte anos de experiência, comparativamente com os médicos com menos experiência (superior a três anos), apresentam níveis mais baixos de exaustão emocional e de despersonalização e níveis mais elevados de realização profissional».

No que respeita à carga horária, «os resultados sugerem que os médicos que trabalham mais de 40 horas semanais, quando comparados com os médicos que trabalham menos de 40 horas semanais, apresentam mais exaustão emocional e mais despersonalização e menos realização pessoal/profissional».

Um aspecto para o qual a psicóloga clínica Fernanda Duarte (da Consulta de Burnout no CHUC) chamou a atenção prende-se com os resultados que levam a concluir que os médicos com cargos de gestão denotam níveis mais baixos de exaustão emocional e de despersonalização e níveis mais elevados de realização profissional do que os médicos sem cargos de gestão.
Outro aspecto a ter em conta é que os médicos que trabalham regularmente na Urgência mostram graus mais elevados de exaustão emocional e de despersonalização e menores níveis de realização profissional, quando comparados com os profissionais que não trabalham regularmente nos serviços de Urgência.

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«A prevenção pressupõe uma mudança na cultura organizacional»

Enquanto orador na sessão de apresentação do estudo «Burnout nos médicos da zona Centro», o psiquiatra João Redondo relacionou a crise económica e social com a violência que se verifica no mundo do trabalho e falou de muitas repercussões negativas que se fazem sentir no ambiente laboral, ajudando a interpretar diversos factores de risco psicossocial nos locais de trabalho e a desdobrar o conceito de «violência», de acordo com a Organização Mundial de Saúde (2002), nas vertentes física, sexual, psicológica e de privação.

Em face dos problemas de Saúde Pública, como a síndrome de Burnout, que implica alterações cognitivas e riscos psicológicos e emocionais, o coordenador do Centro de Prevenção e Tratamento do Trauma Psicogénico do CRI de Psiquiatria e Saúde Mental do CHUC apelou para uma maior sensibilização junto dos gestores e dos próprios governantes, a fim de dar «visibilidade» aos problemas, de divulgar os resultados e de estimular ou motivar os profissionais (incluindo os do sector da Saúde) a pedirem ajuda, além de sinalizarem as situações de violência.

Nessa conformidade, o grupo de trabalho da SRCOM que acompanhou o estudo sobre «burnout» nos médicos da região Centro entende que «as organizações têm o dever de criar estratégias e de planear a prevenção dos seus trabalhadores no que se refere a um possível aparecimento deste problema». «Isto deverá constituir uma responsabilidade social/organizacional que implicará um investimento no presente, para que haja resultados no futuro», acrescenta o mesmo grupo de trabalho, que integra ainda os psiquiatras João Amílcar e Pinto Gouveia, os anestesiologistas Joaquim Viana e Teresa Lapa, bem como as médicas Catarina Pestana, Sónia Pimenta e Maria Isabel Antunes (directora do Serviço de Saúde Ocupacional do CHUC).

Convicta de que «a prevenção pressupõe uma mudança na cultura organizacional, nas normas de desempenho estabelecidas, no ritmo intenso do trabalho, na competitividade, nos objectivos, na carga horária e no bem-estar [de cada] colaborador», a Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos considera, assim, a possibilidade de criar instrumentos, «no sentido de prevenir e encaminhar as situações que são identificadas com Burnout», realçando a existência da respectiva consulta para profissionais do CHUC, a funcionar no Serviço de Saúde Ocupacional.


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19 de Julho de 2016

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