Há SU que praticam «Medicina de catástrofe»

por Teresa Mendes | foto de Fernanda Jacinto | 30.09.2016

Denúncia do diretor do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobi
Os Serviços de Urgência (SU) dos hospitais são o «nó górdio» das infeções hospitalares devido às más práticas e resistência à introdução de medidas de prevenção, denunciou o diretor do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos.

A falta de iniciativa dos governantes foi também um aspeto acentuado por Paulo Fernandes.

Chamado pelo Bloco de Esquerda à Comissão Parlamentar de Saúde (CPS), no passado dia 28, para prestar esclarecimentos sobre o surto de infeções hospitalares por bactérias multirresistentes, o diretor do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos (PPCIRA), não podia ter sido mais esclarecedor. 

De acordo com Paulo Fernandes, «há Serviços de Urgência (SU) em que não conseguimos implementar a prática de prevenção de infeções.
É a Medicina de catástrofe.
Quando os nossos serviços funcionam de forma menos correta é muito difícil implementar medidas de isolamento.
É muito importante as boas práticas, mas SU é um dos maiores problemas que temos identificados, é o “nó górdio”».

O incumprimento de programas de rastreio e de isolamento, a falta de unidades de internamento, as camas que se amontoam nas enfermarias, a dificuldade de introduzir planos de controlo ambiental e de limpeza, bem como de recursos humanos qualificados são alguns dos problemas apontados pelo responsável do programa considerado prioritário pela Direção-Geral da Saúde.



Se algumas situações são de difícil contorno, segundo o responsável não há desculpas para o facto de, por exemplo, não haver quartos de isolamento. «Isso não significa que não se promovam medidas de isolamento ou medidas de precaução para evitar a transmissão. Isto não pode servir de desculpa para os médicos. S

ão questões estruturais que têm que ser vistas nos hospitais», evidenciou o também intensivista.

Para além disso, o «flagelo das enfermarias com macas» devido à falta de camas nos hospitais é para Paulo Fernandes uma «inversão do sistema» e «uma porta aberta para a infeção hospitalar».

«Quase todas as medidas de controlo de infeção se revelam custo-efetivas»

A mensagem da importância da higiene das mãos dos profissionais de saúde tem sido constantemente reforçada, tendo o especialista defendido ainda que estes deviam usar vestuário próprio para a observação dos doentes e não «a roupa usada em casa». Contudo, de acordo com o diretor do PPCIRA este problema «é mais grave ao nível do pessoal de limpeza por causa da rotatividade desse pessoal e a precariedade desse trabalho.É quase tudo outsourcing». 

«As empresas-base não dão a devida formação aos trabalhadores.
Nós apostamos em formação desse pessoal e ao fim de dois três meses vamos ao mesmo sítio e é tudo gente nova que temos que formar outra vez», lamentou.

O facto de a despesa aumentar com a resolução de determinadas questões é «um assunto que tem que ser conversado», até porque, alegou, «quase todas as medidas de controlo de infeção se revelam custo-efetivas. Normalmente as contas são feitas com o que se vai gastar e não com o quanto se vai deixar de gastar».

Precisa-se de «task force nacional» 

Devido ao crescimento e gravidade das infeções hospitalares Paulo Fernandes defendeu mesmo que já deveria ter sido constituída uma task force para trabalhar nessa área. 

Segundo o responsável está a ser discutida a criação de uma «task force nacional e especifica» para este problema, mas não soube dizer aos deputados quando será criada ou mesmo se conseguirá convencer a tutela a avançar com a medida.

De qualquer forma, e tranquilizando os deputados, o diretor do PPCIRA afirmou que, para já, «a situação justifica preocupação, mas não está fora de controlo» e que «as medidas em curso são muito nítidas e têm sido implantadas com grande esforço por vários profissionais».

De acordo com Paulo Fernandes, «há Serviços de Urgência (SU) em que não conseguimos implementar a prática de prevenção de infeções» 

«Empoderamento e recursos humanos são as duas coisas de que precisamos», reforçou Paulo Fernandes, apelando à tutela que «garanta de alguma forma que isso aconteça» 

«É muito importante as boas práticas, mas o SU é um dos maiores problemas que temos identificados, é o “nó górdio”» 

«As medidas em curso são muito nítidas e têm sido implantadas com grande esforço por vários profissionais»

«É indispensável a tomada de consciência sobre a seriedade do problema aos diversos níveis de decisão»

Contudo, alertou, «é indispensável a tomada de consciência sobre a seriedade do problema aos diversos níveis de decisão», assim como é «indispensável o empoderamento para medidas de combate à resistência aos antimicrobianos».

«Empoderamento e recursos humanos são as duas coisas de que precisamos», reforçou, apelando à tutela que «garanta de alguma forma que isso aconteça». Até porque, segundo o dirigente, «passamos de uma situação em que não podíamos contratar pessoas para uma em que podemos, mas temos dificuldade em encontrar profissionais para contratar».

De acordo com o intensivista, a infeção hospitalar «poderia ser reduzida em 25%» se fossem criadas determinadas condições, tais como o número de profissionais alocados a trabalhar.

Para já, e enquanto não surgem soluções concretas, a resposta nacional prevê medidas como a emissão de uma norma nacional «a ser publicada nos próximos meses», apoio e suporte a medidas locais, atenção aos cuidados continuados e aos lares e comunidade, isolamento obrigatório de “coortes”, notificação obrigatória e uso racional dos antibióticos, adiantou.

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Ponderada a dispensa de antibióticos em unidoses

Paulo Fernandes mostrou-se muito preocupado com a resistência aos antimicrobianos, considerando que «se perdermos antibióticos, toda a Medicina ficará prejudicada». 

O diretor do PPCIRA alertou os deputados para este problema relacionado com o aumento do uso de antibióticos, o prolongamento da sua toma para além do necessário e o recuso a medicamentos de largo espetro quando não se justifica, tudo comportamentos que leva a que as bactérias se adaptem e se tornem resistentes.

Perante isto, «para além de um uso mais racional e controlado dos antibióticos», o responsável defendeu que «se deveria estudar a possibilidade da sua dispensa em unidoses».

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Medidas de controlo de infeções recomendadas pelo PPCIRA

- Vigilância ativa por rastreio;
- Precauções de contacto;
- Higiene das mãos;
- Isolamento de doentes;
- “Coorte” de enfermeiros;
- Higiene do ambiente;
- Educação dos profissionais;
- Notificação e sinalização de positivos;
- “Tracing” de contatos dos positivos e restrição de uso de antibióticos.


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30 de Setembro de 2016
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