«Arranjar uma âncora para a atenção»  

por Vitalino José Santos | foto de "DR" | 02.12.2016

Conferência de Pinto Gouveia sobre «mindfulness» na SRCOM
«A mente não é só pensamento!» é o que nos faz reconhecer uma atitude preventiva do «burnout» através do «mindfulness».

Com o objectivo de ajudar os médicos a cortar com determinados hábitos e ciclos prejudiciais no seu quotidiano, o psiquiatra José Pinto Gouveia proferiu uma conferência sobre esta temática, na noite de 17 de Novembro, na sede da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos (SRCOM).

  Na sessão, moderada pelo também psiquiatra João Redondo (membro do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos – CRCOM), José Pinto Gouveia salientava que o «mindfulness» nos ensina a «importância do corpo, como amplificador das emoções».

Esta conferência enquadra-se na campanha «Saúde e bem-estar dos profissionais de saúde» promovida pela SRCOM, iniciativa considerada «pioneira» no País em organizações do género. 



Como sublinham os responsáveis da estrutura regional do Centro da Ordem dos Médicos (OM), trata-se de um projecto que envolve três áreas: a prevenção do «burnout», a prevenção da violência contra os profissionais de saúde em contexto laboral e a criação de um gabinete de mediação de conflitos.

Quando se conhecem os resultados do estudo nacional «Burnout da Classe Médica» – apresentado no dia 28 de Novembro, na sequência do trabalho conduzido pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, em colaboração com a OM –, refira-se que a SRCOM já tinha efectuado um inquérito sobre «burnout», com a intenção de «conhecer os factores que desencadeiam a exaustão e, em simultâneo, desenvolver programas que visem a sua prevenção».

Como informámos na oportunidade, os resultados desse inquérito mostravam que 40,5% dos médicos indagados na região Centro dá sinais de exaustão emocional. O estudo agora divulgado em Lisboa, em que 29% dos médicos contactados responderam, indica que «mais de 66%» dos inquiridos revela «uma exaustão emocional alta».

«Competências aprendidas e praticadas»

Na sua intervenção, o presidente da Associação Portuguesa para o Mindfulness (APM) e membro efectivo do International Committee of World Congresses of Behavioural and Cognitive Therapies fez notar que o «mindfulness» tem um papel muito importante no bem-estar psicológico dos indivíduos (profissionais de saúde ou não), incidindo num «conjunto de competências ou aptidões que podem ser aprendidas e praticadas».

Ao contextualizar a conferência de José Pinto Gouveia, o psiquiatra João Redondo (do CRCOM) afirmou que «os factores de risco associados ao “burnout”», no exercício da medicina e na prestação de outros cuidados de saúde, «têm contribuído para o aumento da vulnerabilidade» dos próprios médicos (a exemplo dos demais profissionais do sector), «com consequências graves para a saúde e o bem-estar». Por isso, importa «objectivar, discutir e definir estratégias». 

José Pinto Gouveia admitiu, logo no início da sua conferência, que «a maioria dos médicos tem algumas dúvidas e defesas em relação a métodos terapêuticos relacionados com a meditação». No entanto, após tentar definir «mindfulness» e de ter esclarecido como «funciona», avançou com «duas ou três “brincadeiras” experimentais» interagindo com os médicos presentes na Sala Miguel Torga, da SRCOM.

«Independentemente dos benefícios, aquilo que vos vou tentar mostrar é que o “mindfulness” é para o cérebro o que deixar de fumar é para o corpo», observou o médico psiquiatra e doutorado em Psicologia Clínica, o qual realiza investigação na área das Terapias Cognitivo-Comportamentais de Terceira Geração, há vários anos. 

«Falam dos doentes mas não os querem ver»

Descrevendo a síndrome de «burnout» como um «quadro psicopatológico associado a uma exposição prolongada a factores indutores de “stress” no trabalho», José Pinto Gouveia caracterizou-a em três aspectos: exaustão emocional (com diminuição da capacidade de experimentar emoções relacionadas com o trabalho), baixo sentido de realização pessoal e despersonalização (em que se verifica distanciamento em relação aos doentes e atitude negativa para com os pacientes, para com os colegas e para com a própria instituição).

A este respeito, o presidente da APM particularizou: «Há muitos anos, aprendi que um dos sinais de que os médicos estão a ficar em “burnout” é quando falam dos doentes mas não os querem ver. É, eventualmente, o primeiro sinal de “burnout”.»

A propósito de «stress» nos profissionais de saúde, o conferencista referiu-se a um recente inquérito no Reino Unido, promovido pela Associação dos Consultores e Especialistas Hospitalares, o qual «revelou que, dos 817 médicos e especialistas que responderam, 81% tencionava reformar-se mais cedo, devido ao “stress” relacionado com o trabalho».

Por outro lado, um inquérito a 31 mil enfermeiros de países europeus «mostrou que períodos maiores de trabalho no hospital estavam associados a “burnout” mais elevado, colocando um risco potencial para os doentes e enfermeiros».

Por isso, o conferencista notava ser recorrente a pergunta: «E se, amanhã, as coisas correm mal?»

«Reprogramar o cérebro para estar no presente»

Para o presidente da APM, a meditação é um «processo de reprogramar o cérebro para estar no presente, totalmente envolvido e consciente da experiência do momento».

Ou seja, «o objectivo não é parar ou libertar a mente de pensamentos, mas estar no presente». 
O «mindfulness» é, como sublinhava o conferencista, «uma prática para cultivarmos a consciência do momento presente, deixando de lado o nosso estilo habitual de julgamentos».

Ao «arranjarmos uma âncora para a atenção», aproveitaremos «todas as oportunidades que a vida nos oferece aqui e agora», comentou José Pinto Gouveia, argumentando que «os pensamentos são como os boatos», porque «não são uma realidade».

Ou melhor, «o pensamento serve para solucionar as coisas do mundo», enquanto «as emoções são disposições para acção: são para se viver».

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«Os médicos em “burnout” cometem mais erros»

Ao reconhecer que «os médicos em “burnout” cometem mais erros, têm taxas de ansiedade e de depressão elevadas» e, ainda, forte possibilidade de consumir álcool, Pinto Gouveia apontou alguns sinais de alarme: «Sentir-se isolado; chegar ao fim de um dia duro de trabalho e sentir que o que fez não tem valor nenhum; sentir que o trabalho não é reconhecido; identificar-se de tal forma com o trabalho que não consegue um balanço razoável entre o trabalho e a vida pessoal; ou ainda, sentir que tem pouco ou nenhum controlo sobre o seu trabalho.»

Realçando o «peso» das emoções negativas dos clínicos e de outros profissionais de saúde com “burnout”, o psiquiatra aludiu a um estudo, de 2012, desenvolvido pela Associação Médica Americana, a que responderam 7288 médicos (com uma taxa de respostas de 26,2%) e no qual se verificou «existir “burnout” em 45% dos respondentes e sintomatologia depressiva em 37,8%».

Outro dado inferido nessa pesquisa norte-americana é o de que «os médicos na primeira linha de cuidados apresentavam um maior risco de “burnout”», muito superior ao da população geral.

«Mudar o tom interior» é uma das condições para ultrapassar muitos destes problemas psicológicos, aconselha José Pinto Gouveia, reparando que as pessoas não percebem que esse tom (negativo ou positivo) «influencia enormemente a sua vida psicológica e o seu bem-estar». 

E isso, consegue-se, como assegura o psiquiatra, com um «treino mental que pode conduzir a uma reprogramação mental», possibilitando a «plastia cerebral» e também modificar o desempenho da rede de modo padrão («Default Mode Network», DMN – ou rede de interacções cerebrais com actividade altamente correlacionada, quando o indivíduo não está focado no mundo exterior), bem como da «Task Positive Network» (TPN – rede de áreas cerebrais que inclui as estruturas pré-frontal e parietal, as quais, durante a execução de tarefas que exigem atenção, se caracterizam por aumentos na activação). 

Entre os vários tipos de atenção, o psiquiatra Pinto Gouveia falou do «vaguear da mente e das conversas mentais», de quando se «opera em piloto automático» ou de quando se «rumina sobre o passado», associando às «preocupações acerca do futuro» as atitudes de «julgamento e criticismo». Ao reflectir sobre o DMN e a psicologia de cada pessoa, o conferencista registava que «um aumento da conexão e actividade entre os componentes [cerebrais] do DMN tem implicações na depressão, na ansiedade e no «stress», assim como no défice de atenção, entre outras repercussões comportamentais.

Daí a necessidade de «prestarmos intencional e deliberadamente atenção aos nossos sentidos».

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30 de Novembro de 2016
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«O “mindfulness” é para o cérebro o que deixar de fumar é para o corpo», observou o médico psiquiatra José Pinto Gouveia

O «mindfulness» é, como sublinhava José Pinto Gouveia, «uma prática para cultivarmos a consciência do momento presente, deixando de lado o nosso estilo habitual de julgamentos»

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