«Temos que ser mais e temos que ser melhor compensados»

por Teresa Mendes | 19.12.2016

Luís Campos, nos 65 anos da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI)
A SPMI propõe-se mudar o paradigma da resposta aos doentes crónicos, que tem sido «fragmentada, reativa e episódica através das Urgências, centrada nas doenças e não no doente».

Um internista de referência para cada cidadão, à semelhança do médico de família nos CSP, e a criação de «grandes departamentos, onde os internistas tomem conta de todos os doentes agudos, coordenando a intervenção das outras especialidades», são algumas das medidas propostas.

Os 65 anos da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) –  a aprovação dos estatutos data de 12 de dezembro de 1951 – foram assinalados com toda a pompa e circunstância, na solene Sala dos Atos da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Nova de Lisboa (UNL), no passado dia 16, perante uma audiência de notáveis da Medicina.

Foi também em dezembro, mas de 1952, e também nesta mesma sala que se realizou a primeira sessão SPMI. 

Luís Campos, presidente da SPMI, salientou, no seu longo discurso, que as «circunstâncias atuais são claramente favoráveis para a Medicina Interna (MI) se colocar como uma especialidade nuclear no sistema de saúde». 

Segundo o responsável, são três os fatores que condicionam esta realidade. A modificação da demografia hospitalar é o primeiro deles. Para o especialista, existe uma «invasão avassaladora dos hospitais por parte dos doentes crónicos e, entre estes, de um grupo com multi-morbilidades, os grandes consumidores dos recursos de saúde, e a Medicina Interna poderá ser a chave para uma resposta eficaz a estes doentes».

O segundo fator determinante é «o aumento exponencial do conhecimento em Medicina, que tem induzido a alguma fragmentação de algumas especialidades e à geração de especialistas que sabe cada vez mais sobre cada vez menos».

Na opinião do internista, «este é um movimento desejável», contudo, «o problema é que os doentes andam ao contrário, pois são cada vez mais complexos e com multi-morbilidades, exigindo uma abordagem holística», alertou, acrescentando que «os internistas têm a capacidade que lhes permite abordar estes doentes, mas também fazer a ponte com outras áreas da Medicina».

O terceiro fator é a ameaça à sustentabilidade do setor induzido pelos custos da inovação e, nesse campo, segundo o presidente da SPMI, «a MI tem a ferramenta para três quartos dos diagnósticos, sendo a sua forma racional e por etapas de estudar os doentes mais eficiente e a que mais poupa o doente a riscos desnecessários».

No entanto, como sublinhou, «estamos inseridos em organizações e sentimos que a forma como nos organizamos não é a mais adequada». 

«O rio mudou de curso, mas a ponte ainda está no mesmo lugar»

Na opinião de Luís Campos, «o rio mudou de curso, mas a ponte ainda está no mesmo lugar».
E, embora não haja uma resposta simples para um problema complexo, o responsável partilhou com os presentes algumas ideias «que começaram a surgir de forma consensual». 

«Não podemos deixar deambular estes doentes com multi-morbilidades entre silos dedicados a órgãos ou sistemas.
Temos que criar grandes departamentos onde os internistas tomem conta de todos os doentes agudos, coordenando a intervenção das outras especialidades», defendeu Luís Campos, especificando que «estes departamentos devem ter também unidades diferenciadas em determinadas patologias».

Em Portugal, este modelo está implementado no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, ou no Hospital Cuf Porto. 

Outra «necessidade imperiosa», segundo o presidente da SPMI, é a de «alterar o modelo de apoio aos serviços cirúrgicos», defendendo «os internistas em permanência nos serviços cirúrgicos». «Os doentes que entram nos serviços devem ser acompanhados desde o início pela MI para agilizar o momento pré-cirúrgico e prevenir as complicações num período pós-cirúrgico, exemplo já implementado por exemplo no Hospital da Luz, em Lisboa, no Hospital Nossa Senhora da Ajuda, em Espinho, e no Hospital de S. Francisco Xavier, em Lisboa», concretizou.

No que respeita ao ambulatório hospitalar «deviam ser disseminadas unidades de medicina ambulatória que reunissem os hospitais de dia, unidades de diagnóstico rápido, programas de hospitalização domiciliária e unidades de cuidados integrados», afirmou o especialista.

Para Luís Campos, esta seria uma solução para «amenizar a falta de camas hospitalares, permitindo ainda manter em casa uma percentagem significativa de doentes diminuindo o recurso à Urgência, bem como o número de internamentos».

Recorde-se que a Medicina domiciliária já está implementada no Hospital de Pedro Hispano, em Matosinhos, e começou há cerca de um ano no Hospital Garcia de Orta, em Lisboa.

O responsável propôs ainda que «cada cidadão, para além do seu médico de família, tenha um internista de referência, um médico que sabe quais são as doenças do doente, mas acima de tudo que conhece o doente que tem aquelas doenças».

«Defendemos mais competências, mas não defendemos mais especialidades»

Para que toda esta modificação no paradigma hospitalar aconteça, «precisamos de muitos mais internistas. Não chegam os 1000 internos que temos em formação», considerou Luís Campos, concluindo que «a necessidade da MI tem sido mais acelerada do que a formação». 

De acordo com o internista, «criar novas especialidades é obrigar o jovem licenciado a escolher uma atividade à qual vai ficar confinada até à sua reforma sem possibilidade de mudar.
Por isso, nós defendemos mais competências, mas não defendemos mais especialidades».

Por fim, o especialista, que diz que «ser internista é uma paixão e um privilégio», não esquece o «enorme esforço que tem sido pedido aos internistas, nomeadamente nos Serviços de Urgência».

«Essa não é uma situação sustentável, principalmente se aliarmos o facto da redução substancial do rendimento mensal», afirmou o presidente da SPMI, concluindo que «temos que ser mais e temos que ser melhor compensados».
Para Luís Campos, «não há razão para que tenhamos que suportar um enorme acréscimo de doentes nas nossas Urgências, cuidar dos doentes espalhado por todos os outros serviços do hospital, e esse esforço não seja pago de forma adicional tal como acontece com o SIGIC para as especialidades cirúrgicas».

«Decisões de admissão ou de alta devem ser tarefa da MI»

O secretário de Estado da Saúde, em representação do ministro, começou por evidenciar a «capacidade da MI em termos de gestão e de organização dos serviços que nenhuma outra especialidade tem», bem como a «capacidade única de se relacionar com os médicos de família, pois há um mimetismo natural entre as duas especialidades».

Manuel Delgado, que elencou uma série de tarefas em que a MI pode fazer a diferença, considera que «todos os aspetos relacionados decisões de admissão ou de alta são matérias devem ser tarefa da MI, uma vez que é especialidade que reúne a informação de todos os especialistas».

Por outro lado, é uma especialidade que permite uma maior eficiência nos hospitais, evitando, por exemplo, a polimedicação. «É o médico de MI que tem a capacidade de avaliar a adequação dos depósitos dos medicamentos que os doentes transportam em sacos», afirmou o dirigente.

Manuel Delgado recordou igualmente que «vivemos num tempo em que o aumento de MCDT se tornou explosivo, para além da forma abusiva que dentro dos serviços se pedem exames». «É espantosa a simplicidade com que se requisitam exames», enfatizou.

Outra área onde a MI pode ser decisiva é no controlo da infeção hospitalar.
«Não vejo noutras especialidades a atenção e o cuidado e a capacidade de mobilização de vontades para combater a infeção hospitalar.

Trabalhei em muitos hospitais e com a exceção de alguns médicos de MI, a atenção que os médicos prestavam à questão era nula ou próxima de zero, o que é espantoso se pensarmos que tem a ver com procedimentos simples, como lavar as mãos».

Para Luís Campos, «não há razão para que tenhamos que suportar um enorme acréscimo de doentes nas nossas Urgências, cuidar dos doentes espalhado por todos os outros serviços do hospital, e esse esforço não seja pago de forma adicional tal como acontece com o SIGIC para as especialidades cirúrgicas»


«Não há uma justificação de natureza política ou social, mas que provoca que em muitos hospitais os doentes fiquem no SO 14,18 ou 20 horas em avaliação», considera Manuel Delgado

O «acesso exorbitante» às urgências hospitalares foi outro problema nomeado pelo governante.
«Em Portugal temos cerca de 7 a 8 milhões de urgências por ano, o que é um valor recorde a nível internacional, com os médicos de MI a terem de se superar», alertou Manuel Delgado, que considera que «não há uma justificação de natureza política ou social, mas que provoca que em muitos hospitais os doentes fiquem no SO 14,18 ou 20 horas em avaliação».

Por sua vez, o bastonário e internista José Manuel Silva deixou a garantia de ter já falado com o presidente do Colégio de MI para «aumentar a formação dos médicos de MI, inclusive até para lidar com novos desafios como as Urgências». 

Segundo o dirigente, «aumentar a formação de internistas é vital para que possamos efetivamente ocupar o terreno que a MI tem competência para ocupar e com a sua elevadíssima e eclética formação. Porque senão outros ocuparão o terreno».

Na cerimónia estiveram ainda presentes Miguel Xavier, subdiretor e presidente do Conselho Científico da FCML, e Rui Victorino, vice-presidente da SPMI.

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Valor das horas extra dos médicos vai ser atualizado em 2017

«Não está fechada a possibilidade de criarmos uma atualização do valor das horas extra dos médicos em 2017, não direi repondo completamente o valor para o praticado antes da crise, mas aproximando um pouco aquilo que podemos pagar dos interesses dos sindicatos», adiantou o secretário de Estado, Manuel Delgado. 

Falando sobre a política do Ministério da Saúde, o governante aproveitou para sublinhar a introdução do livre acesso dos cidadãos. «A medida provocou alguns desequilíbrios no início, mas estamos convencidos que vai melhorar os tempos de espera e de acesso e é essa, aliás, a conclusão que há estamos a tirar», assegurou o governante, acrescentando que «os movimentos dos doentes estão relacionados essencialmente com os tempos de espera».

O dirigente lembrou igualmente que em 2017 serão introduzidos os centros de responsabilidade integrada, bem como os benefícios para os médicos que optarem por trabalhar nas zonas carenciadas. 

O responsável acusou ainda as empresas de trabalho temporário de «usar a insuficiência de recursos médicos no SNS para chantagear o Ministério da Saúde e os hospitais com valores/hora muito mais elevados», afirmando que o Governo está «a fazer o processo contrário, criando incentivos».

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19 de Dezembro de 2016
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