Carta aberta aos cirurgiões gerais

06.02.2017

Concentremo-nos naquilo que é a vida da nossa especialidade
Opinião de Carlos Mesquita
 
Passada a turbulência própria de mais um período eleitoral para os órgãos sociais da Ordem dos Médicos (OM) e a um mês do próximo do Congresso Nacional de Cirurgia, importará que nos concentremos, de novo, naquilo que é a vida da nossa especialidade e das duas entidades que, globalmente, a tutelam, o Colégio de Cirurgia Geral (CCG) e a Sociedade Portuguesa de Cirurgia (SPC), sem esquecer as sociedades temáticas existentes, não só no plano nacional mas também no das entidades internacionais em que cada uma se integra. 

Se há alguns anos atrás este tipo de discurso poderia ter pouco sentido e ser, até, mal aceite, o passado recente tem vindo a demonstrar que as sinergias são possíveis e desejáveis, para além de responderem a um imperativo legal consignado no Estatuto da Ordem dos Médicos, nos termos do qual é através dos colégios que a Ordem participa na atividade científica
e profissional das sociedades médicas portuguesas existentes ou que venham a ser criadas.

No entanto, sendo verdade que os membros da SPC são, por definição, membros do CCG, dada a obrigatoriedade da inscrição, já o inverso não se verifica. 

Caberá à primeira um trabalho acrescido no sentido de ampliar o número dos seus associados, para o que será imprescindível a aposta nos capítulos, reconhecendo-lhes maior autonomia e permitindo a sua natural articulação com as diversas secções de subespecialidade que, quase todos, desejamos ver desenvolver no seio da OM.

Para o cabal cumprimento dos respectivos objectivos, colégio e sociedade deverão funcionar em sintonia, podendo as secções de subespecialidade e os capítulos, com a ajuda das sociedades temáticas, constituir meios de acoplagem e de estabilização.

Por coincidência, iniciar-se-á em 2018, para ambas as entidades, um novo ciclo eleitoral de seis anos.
Três vezes dois, do lado do CCG, dois vezes três do lado da SPC.

Para o cabal cumprimento dos respectivos objectivos, colégio e sociedade deverão funcionar em sintonia, podendo as secções de subespecialidade e os capítulos, com a ajuda das sociedades temáticas, constituir meios de acoplagem e de estabilização

Nesta medida, seria importante criar uma equipa coesa, com dois sub-grupos e pontos de contacto para um trabalho coordenado.

Particularidade interessante é poder haver, de ambos os lados, lugar a seis  vogais, tornando possível vir a caber a estes colegas o trabalho de articulação em torno das áreas temáticas que reúnem maior consenso, até já estabelecidas como capítulos no seio da SPC, e que contam, ainda, com o contributo doutras sociedades: trauma e cirurgia de emergência, cirurgia do pescoço e endócrina, cirurgia esófago-gástrica, cirurgia colo-rectal, cirurgia hepato-bilio-pancreática e cirurgia da parede abdominal, sem prejuízo de idêntica metodologia para o trauma na adolescência, os cuidados intensivos, a cirurgia vascular e a cirurgia mamária, tendo em conta, no entanto, a situação de fronteira com outras especialidades.

Penso que todos teríamos a ganhar, em especial os doentes e os futuros cirurgiões, com o estabelecimento de um programa comum a seis anos, sancionado pelas respectivas assembleias, que contemplasse as diversas áreas de actuação, projectando-as no tempo e defendendo-as de decisões pessoais e de momento sem perspectiva de futuro.


17JMA06A
06 de Fevereiro de 2017
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COMENTÁRIOS

Carlos Alberto Godinho Cordeiro Mesquita

963 dias atrás

Carta aberta aos cirurgiões gerais (2)

A Cirurgia Geral, tem sido confrontada com o avanço inexorável do conhecimento e das novas tecnologias. Talvez seja esta, de entre todas as especialidades cirúrgicas, a que mais viu crescer, em inovação, as suas armas terapêuticas. Estes factos, a que se associam novas realidades hospitalares e novos conceitos, obrigam a que repensemos permanentemente o nosso papel, enquanto médicos e cirurgiões, bem como o das organizações de classe em que nos integramos, principalmente o Colégio de Cirurgia Geral da Ordem dos Médicos (OM).
Em vésperas de mais um acto eleitoral, haverá que fazer o ponto da situação e estabelecer objectivos para os próximos anos. Sem deixar de reconhecer a parte meritória do trabalho da actual direcçao, sobretudo no tocante ao aprofundamento das relações com a Sociedade Portuguesa de Cirurgia e a União Europeia dos Médicos Especialistas (UEMS), haverá que ter em conta o facto de mais de metade dos seus elementos estar a terminar um segundo mandato, pelo que, uma eventual recandidatura não deverá ser, apenas, de continuidade mas, também, de renovação e, principalmente, de resposta a novas realidades, entre as quais sobressaem as resultantes das recentes alterações aos estatutos da OM, no tocante ao número de elementos (11, nos termos do regulamento, podendo ir até 15, nos termos dos estatutos) e à organização das subespecialidades.
Nesta medida, veria com bons olhos uma nova direção de (pelo menos) onze elementos, formada na base de cinco elementos (da direcção actual) para as posições de presidente, representante na UEMS e de coordenador regional (S/C/ N) e de seis (eventualmente novos) vogais, próximos coordenadores de seis grupos de trabalho pró-subespecilidade (a desenvolver em moldes semelhantes aos do único que existe formalmente e que tenho coordenado, o da cirurgia de emergência):
· cirurgia do pescoço / endócrina,
· cirurgia esófago-gástrica / obesidade,
· cirurgia HBP,
· coloproctologia,
· cirurgia da parede / compartimento abdominal,
· cirurgia de emergência / trauma.
Por sua vez, cada um destes grupos (à partida com 7 elementos, coordenador + 6), iria contar, desejavelmente, com colegas ligados aos capítulos da SPC e às sociedades temáticas respectivas.
Esta proposta tem, reconheço, uma aparência de "OPA", ainda que não hostil, sobre a actual direcção. No entanto, não é menos verdade que em reunião havida na Figueira da Foz, há cerca de dois anos, também em véspera de eleições, eu e outros deixámos claro que apoiaríamos (nessa altura) a recandidatura deste grupo de colegas, independentemente de questões doutra ordem (percebeu-se, pouco depois, como este apoio foi determinante para o resultado final), por entendermos (entendimento que mantemos) que um mandato de três anos era curto para terem podido fazer algo de significativo. Mas, se um mandato é pouco, dois serão suficientes (mesmo que com uma mudança de presidente a meio e um pouco menos de tempo, em função das normas estatutárias da OM) e três já poderão ser demais.
Como, atrás, afirmei, entendo estar chegada a altura de uma renovação e de, se não todos, pelo menos, alguns, colocarem o seu lugar à disposição. Se não puder ser assim, considerando ser esta uma proposta séria, estruturante e de resposta em tempo útil às alterações aos estatutos, continuarei a defendê-la, de forma aberta, como até aqui, com outros colegas que nela se revejam.

Carlos Mesquita
Cirurgião dos HUC-CHUC

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