«Problemas de “performance” podem estragar manhã de consultas»

por Vitalino José Santos | 27.02.2017

SRCOM realizou questionário sobre as aplicações dos SPMS
Os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) estão a fazer um esforço na organização dos servidores informáticos «aproveitando a tradição das redes locais» e a olhar para a dimensão formativa dos profissionais de Saúde neste domínio, mas os médicos queixam-se de constrangimentos na prescrição electrónica e reclamam mais apoio no terreno.
        
Perante «os resultados chocantes» do inquérito recentemente efectuado pela Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos (SRCOM), para aferir o impacto das aplicações informáticas dos SPMS na prática clínica diária, principalmente nas consultas e na prestação de cuidados aos utentes, esta estrutura profissional realizou uma sessão de esclarecimento, na noite de 16 de Fevereiro, sobre «Prescrição Electrónica Médica: Desafios do Médico de Família».

Embora as expectativas tenham sido defraudadas quanto ao número de médicos que se deslocaram à Sala Miguel Torga (na Avenida D. Afonso Henriques, em Coimbra), as presenças do presidente do Conselho de Administração (CA) dos SPMS (Henrique Gil Martins), do coordenador/director de Sistemas de Informação dos SPMS (Alfredo Ramalho) e do gestor de projecto dos SPMS da Receita Sem Papel (António Alexandre), bem como a participação da médica de família (MF) Inês Rosendo (recém-doutorada e membro do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos – CRCOM), animaram o debate que se seguiu aos dados ali apresentados pelo MF Ivo Reis.

Na oportunidade, o presidente do CRCOM (Carlos Cortes) observou que «a Ordem dos Médicos [OM] já tomou várias posições conhecidas sobre algumas dificuldades que os médicos têm ao utilizarem os programas informáticos e até o material ou equipamento (hardware), causando transtornos aos doentes».

«Praticamente em todas as semanas, recebo referências a dificuldades com a informática. É algo que preocupa muito os médicos, no dia-a-dia!», disse Carlos Cortes.

«Já não basta a carga burocrática!»

«Quando chego a um centro de saúde, verifico que, muitas vezes, os problemas têm a ver com dificuldades informáticas», sublinhava o presidente do CRCOM, ao constatar que 82,1 por cento dos inquiridos no âmbito do «Questionário de Avaliação da Satisfação e Qualidade das Aplicações dos SPMS» enfrenta situações adversas com o «hardware» e que 93% declara obstáculos no acesso à Internet.

Daí o desabafo de Carlos Cortes: «Já não basta a carga burocrática que actualmente esmaga os médicos, retirando-lhes tempo para o que é mais importante: tratar os doentes!»



«O trabalho preparatório desta reunião resulta de um levantamento junto dos médicos, para termos a noção do que estamos a falar», esclareceu o coordenador do Gabinete de Informação e Tecnologia (GIT) da SRCOM, Ivo Reis.

«Não quero que transpareça que nos estamos a queixar de tudo e que não valorizamos aquilo que temos.
E não queremos culpar toda a gente pelos problemas que aparecem», avisou o clínico, reconhecendo que a informatização dos cuidados de saúde também contribui, por exemplo, para «medir aquilo que se faz». 

«Provavelmente, até conseguimos aumentar o número de consultas», notou Ivo Reis, adiantando: «Os problemas de “performance” dos computadores e da informática já não são a falha de tinta da caneta Parker! Neste momento, pelo impacto que têm, poderão estragar uma manhã de vinte consultas.»

Foram 560 os médicos que responderam ao referido inquérito promovido pela SRCOM, dos quais 85,1% eram utilizadores do programa SClínico (sistema de informação evolutivo que os SPMS desenvolveram a partir das aplicações SAM – Sistema de Apoio ao Médico e SAPE – Sistema de Apoio à Prática de Enfermagem).

Os SPMS pretendem que venha a ser, brevemente, uma aplicação única e comum a todos os prestadores de cuidados de saúde centrados no doente.

Médicos especialistas foram os que mais responderam

Curioso é o facto de 67,7% dos respondentes serem especialistas em Medicina Geral e Familiar, enquanto apenas 23,0% dos inquiridos são internos.

«Normalmente, em todos os questionários, sucede o contrário!», reparava Ivo Reis, dando conta que «91,6% dos médicos sofre constrangimentos importantes na utilização da prescrição electrónica [médica]» (PEM).

Outra conclusão retirada do mesmo estudo da SRCOM é a de que 77,2% dos médicos inquiridos «já perdeu informação importante para o tratamento dos seus doentes, na utilização desta aplicação electrónica», obrigando os clínicos a repetirem todos os procedimentos informáticos.

Segundo os responsáveis pelos SPMS (estrutura presidida pelo médico Henrique Gil Martins), esses constrangimentos prendem-se com a «rapidez» de todo o processo de informatização e de implementação dos sistemas, «sem desenvolver a rede de suporte necessária».
Ou seja, a estrutura da própria rede é obsoleta e deficitária e, muitas vezes, o «software» e os equipamentos informáticos são inadequados.

«Praticamente em todas as semanas, recebo referências a dificuldades com a informática. É algo que preocupa muito os médicos, no dia-a-dia!», disse Carlos Cortes 

«Não quero que transpareça que nos estamos a queixar de tudo e que não valorizamos aquilo que temos. E não queremos culpar toda a gente pelos problemas que aparecem», avisou o coordenador do GIT da SRCOM, Ivo Reis 

No que respeita à utilização das aplicações SClínico e MedicineOne, verifica-se diferenças percentuais na percepção dos constrangimentos, no contexto dos cuidados prestados às populações.

O My MedicineOne foi o primeiro «software» de prescrição electrónica protocolado com a OM, em Março de 2015, e constitui um instrumento de gestão clínica simplificado, permitindo também gerir pequenos consultórios de forma autónoma.

Assim, «57,8% das pessoas referem problemas ou constrangimentos na sua aplicação», informa o coordenador do GIT, enquanto 89,3% dos médicos que recorrem ao SClínico dão conta de dificuldades na sua utilização. 

Quanto à perda de informação considerada importante na prática clínica, há igualmente «discrepância nos dados apresentados».
Ou seja, com o SClínico, há queixas em 70,9% dos respondentes ao inquérito. Porém, na utilização do programa MedicineOne, os médicos que terão perdido dados importantes representam 44,4% dos inquiridos.

Refira-se que os SPMS, após a conclusão do processo de implementação da versão 2.2.2 do SClínico nos agrupamentos de centros de saúde (ACeS), também pretendem saber a opinião dos utilizadores (médicos e enfermeiros).

Por isso, têm disponível («on-line») um inquérito de satisfação sobre esta aplicação, atendendo aos parâmetros inerentes à usabilidade, eficiência, acessibilidade, optimização e desenvolvimento de novas aplicações.

Caixa 

Aplicações «fiáveis e confiáveis» para 13,0% dos inquiridos.

Na ocasião, o MF Ivo Reis (que integrará um grupo de trabalho, tendo em vista uma parceria entre o CRCOM e os SPMS) mencionou que «apenas 18% das pessoas» acredita que estas aplicações foram desenhadas na perspectiva do utilizador (neste caso, o médico) que presta cuidados na sua consulta.

Neste domínio, 15% crê que as mesmas aplicações interagem entre si. Outro «dado muito importante» é o de que «apenas 13,0%» dos inquiridos afirma que as aplicações «são fiáveis e estáveis».

O responsável pelo programa SClínico e coordenador dos Sistemas de Informação dos SPMS admite haver «uma pressão tremenda entre a tutela e as entidades» de Saúde, relacionada com «a solicitação de mais sistemas».
«O melhor que poderíamos fazer era parar os SPMS durante algum tempo!», ironizou Alfredo Ramalho, embora reconheça a contínua necessidade de «melhorar e corrigir», em função das decisões ministeriais. 

Na área dos cuidados de saúde primários (CSP), por exemplo, os SPMS querem potenciar as mais-valias dos sistemas de informação. Mas a articulação entre os CSP, os cuidados hospitalares e os cuidados continuados integrados é o caminho que a multifacetada equipa dirigida por Henrique Martins quer percorrer, seguindo o cidadão e tendo uma perspectiva panorâmica do seu historial clínico.

«Estamos a ser pressionados para fazermos mais coisas. E tem sido um esforço muito grande, que começou de forma sistemática no ano passado», frisou Alfredo Ramalho, que particularizou: «É, com certeza, estratégia dos SPMS e do Ministério da Saúde desenvolverem um novo centro de informação que olhe para o utente como sendo o núcleo do sistema; e que comece a perceber os fluxos de informação, desde os administrativos até aos diferentes profissionais.
Este é um projecto de longo prazo.»


 

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