Tutela aprova criação da especialidade de Medicina de Urgência

por Teresa Mendes | 21.06.2017

Reunião junta representantes da Ordem, do Ministério da Saúde e da EUSEM
 
A criação da especialidade de Medicina de Urgência está cada vez mais perto de ser uma realidade em Portugal. Após uma reunião com o Ministério da Saúde, Vítor Almeida, presidente do Colégio da Competência em Emergência Médica da Ordem dos Médicos (OM), garante que existe abertura por parte da tutela para avançar com o processo.

«Medicina de Urgência/ Emergência – A Especialidade: Solução?» foi o tema em destaque numa reunião, no passado dia 10 de junho, na sede da OM, em Lisboa, que juntou representantes da Competência em Emergência Médica, do Ministério da Saúde (Raquel Ramos, do Instituto Nacional de Emergência Médica), e que contou com a presença da presidente da European Society for Emergency Medicine (EUSEM), Roberta Petrino.

No dia anterior, já estas personalidades tinham reunido com responsáveis do Ministério da Saúde, incluindo o secretário de Estado Adjunto da Saúde, que, de acordo com a responsável europeia, demonstrou «uma grande abertura» para a criação da especialidade de Medicina de Urgência/ Emergência e para «os benefícios que daí possam advir para a sociedade e utentes».

Vítor Almeida também não tem dúvidas. «O Governo mudou, o bastonário da OM também. Este é o tempo da mudança», defendeu o presidente do Colégio da Competência em Emergência Médica (CCEM).

«Todos concordaram em avançar com o processo»

O responsável começou por apresentar as prioridades do Colégio, que terá eleições em novembro próximo, lembrando que um primeiro passo já foi dado, com a aprovação da revisão dos critérios da CEM em maio, um processo que se encontrava estático desde há 17 anos.

Aprofundar os contatos com a EUSEM, bem como «promover a ligação com a OM e Ministério da Saúde» é outra das prioridades, que já está em curso. «Fomos oficialmente recebidos pelo ministro da Saúde e pelo secretário de Estado Adjunto da Saúde, Fernando Araújo, e tivemos uma discussão muito aberta sobre os prós e contras da criação da especialidade de Medicina de Emergência.

E embora nenhuma decisão tenha sido tomada de imediato, todos concordaram em avançar com o processo de uma forma ponderada, organizada e calma para que as coisas cresçam de forma correta e sem cometer erros», assegurou Vítor Almeida.

«Na minha opinião o processo deverá demorar pelo menos um ano a ser concretizado, mas é evidentemente uma situação delicada sobre a qual temos que ponderar», avançou o representante do CCEM, acrescentando que «a criação da especialidade é uma das soluções estruturais para resolvemos os problemas da Urgência». 

Segundo Vítor Almeida, «após 17 anos a trabalhar na criação da Medicina de Urgência como especialidade, abre-se agora uma janela de oportunidade para todos, incluindo os jovens médicos que correm cada vez mais o risco de não conseguir a especialização, bem como para melhorar a resposta às necessidades sociais».
«Não quer dizer que seja a solução para todos os males, mas definitivamente todos os países que têm a especialidade ficaram a ganhar», recordou. 

Outra missão do CCEM é a participação em grupos de trabalho, tendo o dirigente informado os presentes que «haverá novas guidelines» resultantes do trabalho com a Direção-Geral da Saúde. Por outro lado, o Colégio tem trabalhado em conjunto com o INEM, estando envolvido na discussão da nova carreira dos paramédicos.

De acordo com o responsável, «a Ordem dos Médicos vai formalmente apoiar e acompanhar o processo de uma forma ativa», lembrando que «os médicos para além de discutir os protocolos dos paramédicos têm de discutir o treino básico destes profissionais».

CCEM vai realizar estudo sobre formação dos médicos da rede de Urgência

Relativamente aos projetos futuros, o CCEM vai realizar um estudo sobre o nível de formação dos médicos, nos diferentes departamentos de Urgência dos hospitais, ou seja, um inquérito sobre qual a formação existente na rede de Urgência. «Vamos arrancar com o inquérito a três centros como combinado com o Ministério da Saúde, depois apresentar os problemas e as soluções para esses mesmos problemas.
No fundo, queremos saber o que está a ser feito do ponto de vista formativo com os médicos», explicou Vítor Almeida.

«Embora nenhuma decisão tenha sido tomada, de imediato, todos concordaram em avançar com o processo de uma forma ponderada, organizada e calma para que as coisas cresçam de forma correta e sem cometer erros», assegurou Vítor Almeida

«Temos um secretário de Estado Adjunto muito aberto à discussão e pelo menos os resultados preliminares deste inquérito deverão estar concluídos antes das eleições do Colégio, que são em novembro», acrescentou o responsável.

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«De entre 19 países europeus apenas cinco não têm a especialidade»

«De entre 19 países europeus, apenas cinco não têm a especialidade, entre os quais Espanha e Portugal», destacou a presidente da European Society for Emergency Medicine (EUSEM), Roberta Petrino, lembrando como é fundamental a existência desta especialidade.

«Queria mostrar-vos a diferença entre o trabalho de um profissional de Emergência Médica e um profissional que vai fazer apenas um turno no Serviço de Urgência, que manda a enfermeira chamar o Cardiologista para olhar para o ECG, que depois precisa de chamar o anestesiologista e por aí fora…

O médico de emergência é aquele que sabe e toma decisões, que faz tudo o que é necessário de forma imediata, sabe ler ECG ou é o líder da equipa no caso de um trauma de emergência», explicou a dirigente à audiência presente no auditório da Ordem dos Médicos.

Para que isso aconteça «é evidente que o trabalho em equipa é fundamental, que temos que ter um sentimento de pertença, que temos que ter a garantia de uma carreira, de um trabalho estável», defendeu Roberta Petrino.

Por outro lado, «é um objetivo central da EUSEM assegurar que todos os médicos têm o mesmo nível de formação». Para isso, a Sociedade conta com o European Curriculum for Emergency Medicina, um instrumento vital para poder cumprir essa missão. 

Paralelamente, a EUSEM dispõe também de uma outra ferramenta, o European Board Examination in Emergency Medicine, que fornece uma certificação de qualidade.

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Prós e contras

A reunião juntou também quatro especialistas nesta área, uns contra e outros a favor da criação da especialidade de Medicina de Urgência.

Ficam as frases mais emblemáticas proferidas na ocasião:

--A favor:
António Marques, diretor do Departamento de Anestesiologia, Cuidados Intensivos e Emergência do Centro Hospitalar do Porto
•    «A Medicina de Urgência é uma especialidade dirigida para os doentes agudos e acredito que devia ser uma especialidade primária e que estes especialistas são os melhores para ter na linha da frente.» 
•    «Não acredito no modelo que temos agora, na equipa constituída pela amálgama de equipas, na indiferenciação ou inadequação para a função.»
•    «Não acredito na subespecialidade e não acredito no burnout como uma inevitabilidade. O que provoca o burnout é a má organização dos serviços e não uma questão de como se faz.»
•    «Não acredito na especialidade-mãe. Os profissionais não foram treinados para Medicina de Urgência e não têm a figura do médico que faz tudo, ou pelo menos 80%.»
•    «Acredito nas carreiras, nas equipas médicas dedicadas como motor da boa prática. Fazer mais horas não é solução, pois eu faço bem se fizer várias vezes.»
•    «O maior desafio é a transição da escala para escola. Temos de parar com a obsessão pela escala e pensar na equipa que progride como grupo, aspeto fundamental para a eficácia e eficiência, que por sua vez é vital para a gestão de risco clínico e consequente gestão orçamental, pois quando fazemos boas práticas fazemos boa gestão orçamental.»

Nuno Catorze, diretor da Unidade de Cuidados Intensivos Polivalente, do Centro Hospitalar do Médio Tejo
•    «Fizemos um inquérito online aos médicos internos do ano comum e 87% das respostas são a favor da criação da especialidade de Medicina de Urgência»
•    «A Lei 23/86 determina que o internista tem um papel fundamental, juntamente com o cirurgião, na equipa de urgência, mas depois a mesma Lei, que tem 31 anos, não define absolutamente mais nada.»
•    «Tenho 30 anos de especialidade, mas ninguém me ensinou as skills não técnicas, tais como a habilidade de comunicação, a capacidade de negociação, como ser líder.»
•    «Se olharmos para a organização dos cuidados de emergência verificamos que tudo é político. Se queremos um sistema eficiente temos que aprender os básicos.» 
•    «Considero que é muito importante cada um de nós, que quase não tivemos a prática do básico, conseguirmos ensiná-lo aos nossos jovens médicos, que precisam de consolidação técnica para manter o seu nível qualitativo assistencial.»

-- Contra:

Luís Campos, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna
•    «A especialidade de Medicina de Urgência não é a panaceia para todos os problemas, temos que pensar a Medicina a um nível sistémico.»
•    «Os nossos Serviços de Urgência são em grande parte uma loja de conveniência, pois a maioria das pessoas não precisa de lá ir.»
•    «A criação da nova especialidade dificulta a gestão eficiente dos Recursos Humanos. O hospital está muito fragmentando e fragmentar e autonomizar dificulta a gestão eficiente dos Recursos Humanos.»
•    «A criação da especialidade num país que não permite a dupla especialização é condenar um jovem licenciado a um Serviço de Emergência até que se reforme, sem a possibilidade de fazer qualquer outra coisa. E sabemos que a Medicina de Emergência é uma das especialidades com mais burnout. Para mim este é um cenário inimaginável, pelo menos em Portugal.»
•    «Nos países onde foi criada, a especialidade não resolveu os problemas da Urgência, como por exemplo em Inglaterra.»
•    «Termos aritmologistas que não sabem ser cardiologistas ou internistas, o que é problemático. Onde colocar o cut-off da criação da especialidade?»
•    «O “balcão da Urgência” é a zona de maior risco para doentes e por isso é importante ter lá pessoas competentes. Acredito que uma equipa multidisciplinar terá uma melhor conhecimento e capacidade de atuação.» 
•    «Quando a existência de uma competência ou mesmo subespecialidade permite tudo o que uma especialidade permite não se percebe o seu fundamento.»
•    «Acredito que a criação da especialidade de Emergência Médica pode ser um grande erro e não será boa para os nossos pacientes.»

António Batista, Neurocirurgião no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/ Espinho
•    «A criação de novas especialidades significa a criação da descentralização. Em causa estão a continuidade e integração de cuidados.»
•    «Acredito nas equipas multidisciplinares e perdemos isso se avançarmos para a discussão da especialidade da Medicina de Urgência.»

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