Eu também queria… 

por João Paulo de Oliveira | 04.08.2017

 Brexit, EMA, cortesias e concierge de saúde.... 
Opinião de João Paulo de Oliveira

A corrida à instalação da Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla anglo-saxónica) pós-Brexit mobiliza 19 cidades e respetivas imaginações na busca do melhor bónus, assegurado que esteja o razoável.

Contam os jornais que Copenhaga oferece vinte anos de renda grátis; Amesterdão promete até 300 milhões de euros para construir um edifício inovador; Dublin oferece dez milhões para ajudar o pessoal da EMA a estabelecer-se; o Porto acena com o programa de Residente não Habitual, que permite que os rendimentos sejam sujeitos à taxa única de IRS de 20%, existindo também a possibilidade de alguns rendimentos auferidos em outros países serem sujeitos à mesma tributação – isto para além de os funcionários superiores da EMA (tal como os das duas agências europeias sediadas em Lisboa) poderem beneficiar de alguns privilégios equiparáveis aos do corpo diplomático: o já referido estatuto de Residente não Habitual, matrícula diplomática e possibilidade de importação de bens de consumo.

A capital nortenha propõe também a criação de um Balcão Único de acolhimento, que terá como objetivo ajudar os trabalhadores da EMA e suas famílias em todo o processo de mudança.
Outras cidades oferecem igual cortesia, mas o Porto associa-lhe um requinte de personalização: o serviço de concierge de saúde.

O Dr. Eurico Castro Alves, um dos coordenadores da candidatura portuense e membro da Comissão Nacional de Candidatura, explicou ao DN (01-08) que «qualquer problema de ordem médica que (os funcionários da EMA) tenham, além de tratar imediatamente da inscrição no sistema nacional de Saúde, temos um acompanhamento personalizado para encontrar as soluções para essas pessoas.

Vão ter um número de telefone disponível 24 horas e sempre que necessitarem de algum apoio na saúde, ligam e temos alguém que fala inglês que os orienta e acompanha nos casos em que se justifique.
É um serviço inovador que não acredito que mais nenhuma candidatura ofereça. Vamos criar uma espécie de "loja do cidadão" dedicada só aos funcionários da EMA.»

Ora bem.
A designação concierge de saúde, embora de livre curso, não me parece a mais adequada para o momento.
Se é certo que a palavra concierge já não evoca, no imaginário dos franceses, o zelador da prisão da Conciergerie onde se instalou o Tribunal Revolucionário em 1793, não é menos verdade que remete para uma função ao mesmo tempo amada e odiada, a da porteira, símbolo da portuguesa que demandou terras de França com o marido, destinado à construção civil.

À função, hoje em lenta decadência por via da disseminação dos códigos de porta e dos vídeos-porteiros, não se atribui, inexplicavelmente, a dignidade social que o/a concierge de hotel reveste.

Porquê?

Porque o/a concierge de hotel reserva-nos o camarote na ópera e a mesa no restaurante trendy, chama-nos a limusina e descobre uma florista fora de horas – e a concierge do prédio, pobre dela!, lava as escadas e distribui o correio?

Não; porque à concierge do prédio assaca-se-lhe (e com fundamento) o vício do gossip.
Ora, gossip e saúde conflituam: quem gosta de ver os seus achaques debatidos na soleira da porta?

Impossível não fazer esta associação de ideias, mesmo que o concierge proposto pelo Dr. Castro Alves seja de outra extração.
Acresce que a rivalidade ancestral entre franceses e ingleses não aconselha, mormente nos tempos que correm, pretextos fúteis incendiários.

Visto isto, quer para ir ao encontro dos sentimentos de uma alta burguesia portuense que ainda toma o chá das cinco e leva as filhas a debutar no Clube Portuense, mantendo viva a tradição britânica adoçada pelo vinho do Porto, quer para proporcionar uma transição suave aos funcionários da EMA habituados a Londres, parece-me mais adequada a designação de lord ou lady-in waiting, o equivalente aos oficiais-às-ordens que ornamentam o Presidente da República.

Esta figura, a que poderíamos chamar portuguesmente escudeiro, desempenhará, deduz-se das palavras do Dr. Castro Alves, a função de «via verde», no SNS, para os eleitos da agência, com o que fará corar de inveja os nossos concidadãos. Eu também queria – e os nepalases que apanham frutos vermelhos no Alentejo babavam-se todos se tal sorte os bafejasse.

Isto tudo, claro, se o brexit acontecer realmente.

Caso contrário, o Dr. Eurico Castro Alves e eu teremos estado a perder o nosso tempo. 

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4 de Agosto de 2017
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