20 anos do ATLS em Portugal

por Carlos Mesquita | 10.07.2019

O interesse dos médicos portugueses pela formação na área do trauma 
Artigo de Carlos Mesquita

Os evidentes progressos das quatro últimas décadas em Portugal, no campo da assistência humanitária, da emergência médica em geral e, em particular, da traumatologia, contaram com um extraordinário envolvimento da Medicina portuguesa, com destaque para muitos cirurgiões. 

Para tal, para além do contacto permanente com a elevadíssima sinistralidade então existente, quer rodoviária quer laboral, muito terá contribuído a presença destes nos seis teatros de guerra, contra diferentes movimentos de libertação africanos, em que estivemos envolvidos de 1961 a 1974 – um na Guiné-Bissau, três em Angola e dois em Moçambique –, a que se seguiu uma imigração massiva da qual resultou, num muito curto espaço de tempo, um aumento de quase 10% na população portuguesa, de cerca de nove para dez milhões.

Admirável, a forma pacífica como todo esse processo algo desorganizado veio a decorrer, bem tradutora da capacidade de acolhimento dos portugueses.

Capítulo de Trauma da Sociedade Portuguesa de Cirurgia

Cerca de 20 anos mais tarde, teve a Sociedade Portuguesa de Cirurgia (SPC), após a criação de um Capítulo de Trauma, uma iniciativa que, outros 20 anos decorridos, se veio a revelar estratégica, a da importação e desenvolvimento em Portugal do curso Advanced Trauma Life Support (ATLS), do American College of Surgeons (ACS), um programa formativo universalmente aceite.

Desde a sua apresentação pública em Santarém (1996), da deslocação do primeiro grupo de potenciais instrutores a Columbia (SC-USA, 1998) e do arranque oficial em Lisboa (1999), já terão sido realizados em Portugal mais de 250 cursos e recebido este tipo de formação mais de 4000 médicos, situação notável se tivermos em conta o elevado custo do mesmo e o quase inexistente apoio aos formandos por parte quer do Estado quer de privados.

Com o ATLS veio, também, o Trauma Evaluation And Management (TEAM), uma versão reduzida destinada a alunos de Medicina, rapidamente adotada por boa parte das nossas escolas médicas.

O interesse dos médicos portugueses pela formação na área do trauma teve, ainda, importante expressão fora do âmbito da SPC, através de associações e grupos multidisciplinares temáticos, como a Sociedade Portuguesa de Trauma (SPT) e o Grupo de Trauma do Hospital de São João (GTHSJ), entretanto desaparecidos, ou a Associação Lusitana de Trauma e Emergência Cirúrgica (ALTEC) e o Conselho Português de Reanimação (CPR), estes ainda bem ativos.

A eles se deve, a par da SPC, o desenvolvimento doutros modelos formativos, complementares e, até, mais avançados, como o Definitive Surgical Trauma Care (DSTC), da International Association for Trauma Surgery and Intensive Care (IATSIC), desde 2003, ou o European Trauma Course (ETC), da European Trauma Course Organisation (ETCO), desde 2009, sem esquecer as variantes do primeiro, para enfermeiros de bloco operatório (Definitive Perioperative Nurses Trauma Care, DPNTC), desde 2006, e para anestesistas (Definitive Anaesthetic Trauma Care, DATC), desde 2009.

Internacionalização

Outro aspeto digno de realce foi a internacionalização, quer através de uma maior inserção em sociedades como a European Society for Trauma and Emergency Surgery (ESTES), a IATSIC, a World Coalition for Trauma Care (WCTC, World Trauma Congress) ou a World Society of Emergency Surgery (WSES), quer através da divulgação dos cursos anteriormente referidos, nos últimos dez anos, no espaço da comunidade médica de língua portuguesa, com destaque para o Brasil, através de um protocolo com a Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Traumatizado (SBAIT).

O Brasil tem, neste momento, um dos mais ricos e dinâmicos programas no âmbito da IATSIC e está agora, também, a dar os primeiros passos para fazer o mesmo com a ETCO, reconhecendo o valor intrínseco do ETC.

Este interesse tem ido, portanto, muito para além do suporte avançado de vida em trauma dirigido ao médico em geral, fruto dum enorme investimento, através das sociedades científicas, na formação específica em cirurgia de emergência, com o trauma, necessariamente, englobado.

O objetivo tem sido, também, o de colmatar uma falha decorrente duma tendência generalizada e, seguramente, exagerada para a superespecialização, a privilegiar as atividades eletivas, programadas, em relação às urgentes, a relegar para plano secundário a necessidade uma efetiva capacidade de intervenção transversal, sobretudo quando não há por perto quem saiba fazer melhor, questão tanto mais importante num país que, fruto de compromissos internacionais, acaba por ter, com caracter permanente, grupos médicos de missão, militares ou humanitários, em teatros distantes, marcados pela instabilidade política e pelo subdesenvolvimento. 

Programa de formação específica e contínua

O reconhecimento da necessidade desta dinâmica formativa, por parte da Ordem dos Médicos, através da sua inclusão num programa curricular para a obtenção de competência em cirurgia de emergência, é, sem margem para dúvidas, o importante passo que falta dar.

Infelizmente, depois da abertura e empenho de há dez anos, com a criação formal dum grupo de trabalho dedicado – que, em curto espaço de tempo, produziu o documento que veio, inclusive, a estar na base da criação, pela UEMS, da European Board of Surgery Qualification in Emergency Surgery (EBSQEmSurg) –, as direções seguintes não só não foram capazes de o assumir como, pior, conscientemente ou não, têm sido verdadeiros obstáculos à sua implementação.

Como conclusão, no momento em que celebramos os 20 anos de ATLS em Portugal, poderemos dizer, em sentido figurado, que o ATLS, o DSTC e o ETC, em função da sua complementaridade, constituem os três vértices dum triângulo amoroso que importa manter vivo.

Caberá aos responsáveis pela Ordem dos Médicos rever a sua posição e contribuir para lhe dar tridimensionalidade, entendendo-o como a base dum tetraedro de competência em cirurgia de emergência, cujo quarto vértice, qual “cereja no topo do bolo”, não poderá deixar de ser o programa de formação específica e contínua de há muito proposto, que já existe na UEMS e que, inexplicavelmente, continua por aprovar entre nós.

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*Cirurgião dos Hospitais da Universidade de Coimbra, Co-Fundador do ATLS em Portugal e Ex-Coordenador do Capítulo de Trauma da SPC, Ex-Coordenador da Competência em Emergência Médica e do Grupo para a Formação em Cirurgia de Emergência da OM, Presidente da Associação Lusitana de Trauma e Emergência Cirúrgica (ALTEC),Bastonário da European Society for Trauma and Emergency Surgery (ESTES)

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Entretítulos da responsabilidade da Redacção

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