Lítio pode reverter os danos da radiação após o tratamento de tumores cerebrais

por Teresa Mendes | 15.11.2019

Investigadores depositam esperanças na produção de um primeiro medicamento
É sabido que as crianças que receberam radioterapia para um tumor cerebral podem vir a desenvolver problemas cognitivos.
Agora, investigadores do Karolinska Institutet demonstram, num estudo em ratinhos, que o lítio pode ajudar a reverter esses danos causados mesmo que tenha passado muito tempo.

A investigação foi publicada na revista Molecular Psychiatry esta quinta-feira e os investigadores estão já a pensar em realizar um ensaio clínico.

Os cientistas constataram que a capacidade de memória e de aprendizagem dos ratos estudados melhorou quanto o tratamento com lítio foi administrado após a irradiação do cérebro.

Além disso, os ratos que foram irradiados no início da vida e só receberam o lítio desde a adolescência até a idade adulta tiveram um desempenho tão bom quanto os ratos que não receberam radiação.

Os investigadores observaram um aumento na formação de novos neurónios no hipocampo (uma área importante para a memória) durante o período em que estes receberam lítio, constatando, contudo, que a maturidade em células nervosas completas só aconteceu quando o tratamento com lítio foi interrompido.

Este grupo de investigadores já tinha demonstrado que o lítio protege contra os danos cerebrais se administrado em conjunto com a radioterapia. Agora, a equipa quer iniciar um ensaio clínico na esperança de poder produzir o primeiro medicamento para tratar os danos provocados pela irradiação do cérebro

«A partir destes resultados, foi possível concluir que o lítio, administrado de acordo com as linhas deste modelo, pode ajudar a curar os malefícios provocados pela radioterapia, mesmo muito tempo depois da sua administração», observa Giulia Zanni, a principal autora do estudo, citada num comunicado.

Este grupo de investigadores já tinha demonstrado anteriormente que o lítio protege contra os danos cerebrais se administrado em conjunto com a radioterapia, pois pode prevenir a apoptose (morte celular).

Agora, a equipa quer iniciar um ensaio clínico na esperança de poder produzir o primeiro medicamento para tratar os danos provocados pela irradiação do cérebro.

«Praticamente todas as crianças que receberam tratamento de irradiação para um tumor cerebral desenvolvem problemas cognitivos mais ou menos sérios. Isso pode causar dificuldades de aprendizagem ou de socializar e até manter um emprego mais tarde na vida.

E é por isso que esta investigação é tão importante», destaca Klas Blomgren, consultor e professor de Pediatria no Departamento de Saúde da Mulher e da Criança do Karolinska Institutet, na mesma nota à Imprensa.

Somente as células irradiadas são afetadas

O lítio é um medicamento que já é administrado a adultos e crianças com doença bipolar, mas os cientistas ainda não sabem ao certo como funciona realmente.

Contudo, algumas novas peças deste puzzle conseguiram ser encaixadas neste estudo, pois os investigadores descobriram que o lítio afeta a TPPP, uma proteína importante para o citoesqueleto e a GAD65, uma proteína que afeta o sistema GABA, que é fundamental para a maturidade neuronal.

«Só agora estamos a começar a entender os efeitos do lítio na capacidade de recuperação celular», acrescenta Ola Hermanson, cientista no Departamento de Neurociência daquele Instituto.

«Neste estudo, observamos que apenas as células irradiadas são afetadas pelo lítio. As células saudáveis foram deixadas relativamente intocadas, o que é um resultado interessante e promissor.», sublinha o responsável.

O estudo, intitulado «Lithium treatment reverses irradiation-induced changes in rodent neural progenitors and rescues cognition», pode ser consultado aqui.
    
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15 de Novembro de 2019
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Publicada originalmente em www.univadis.pt

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