Generalizar modelo USF pode «traduzir-se numa deceção de resultados»

por Teresa Mendes | 12.02.2020

Pedro Pita Barros comenta posição assumida pelo primeiro-ministro
O economista da Saúde, Pedro Pita Barros, considera que a posição assumida recentemente pelo primeiro-ministro em generalizar o modelo das Unidades de Saúde Familiar, embora surja na sequência natural da satisfação dos cidadãos e profissionais, podendo vir a traduzir-se numa «deceção de resultados antecipável».

Num comentário publicado no seu blog «Momentos económicos… e não só», o professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, questiona desde logo se «as declarações do primeiro-ministro, António Costa, devem ser entendidas então como um “abrir de cordões à bolsa” para a criação de todas as USF que forem necessárias para que todos os cuidados de saúde primários do Serviço Nacional de Saúde sejam organizados dessa forma, mesmo que tal implique maior despesa».

Pedro Pita Barros considera que a posição assumida recentemente pelo primeiro-ministro em generalizar o modelo das USF, embora surja na sequência natural da satisfação dos cidadãos e profissionais, pode vir a traduzir-se numa «deceção de resultados antecipável» 

É que apesar de tudo, considera o também investigador, «não há uma evidência conclusiva cabal da vantagem financeira da extensão do modelo USF a todo o país, e se assim for, cumprir este objetivo implicará maior despesa». 

«Não estou a afirmar que as USF não são uma boa ideia. Mas é diferente dizer que a informação existente é totalmente conclusiva», observa o economista, que enumera uma série de aspetos metodológicos que «são exigentes e que é fácil de esquecer, criando avaliações enviesadas».

Entre esses aspetos, está o facto de o modelo ser voluntário, de passar a  haver uma maior concentração de cidadãos sem médico de família e, além disso, «a transformação em USF muda então também a própria atividade e características do centro de saúde de onde saiu, sendo que a comparação de desempenho tem que tomar este efeito em conta, de outro modo estará a penalizar na comparação de desempenho a unidade tradicional», refere.

Na sua opinião,  «é preciso ser mais exigente na comparação do apenas comparar custos médios, ou outra coisa qualquer, entre os dois modelos, sem atender a estes efeitos», pois «o risco é a transformação em USF das unidades tradicionais que ainda persistem se vir a traduzir numa “deceção” de resultados, e uma “deceção” que é em grande medida antecipável, desde que se realizem os cálculos adequados».

Pedro Pita Barros considera igualmente que «não existe evidência que sustente a expetativa» de que investir neste modelo é também uma forma de incentivar os utentes a deixarem de recorrer às urgências hospitalares.

Por fim, outro ponto, também ele metodológico, é que «ao transformar-se, por obrigação, em USF as unidades que ainda não o são, não se pode assumir que terão resultados similares aos das USF».

«Por um lado, quem mais acredita no modelo USF e nas suas vantagens, já avançou. É natural que os que restam tenham menor convicção no modelo, e por isso as vantagens organizacionais acabem por não ser as mesmas.
Por outro lado, as populações servidas pelas unidades tradicionais que ainda restam podem não ser similares», explica o especialista.

Em suma, «embora intuitivamente tenha toda a simpatia para a aprovação e criação de mais USF, a sua justificação, tal como apresentada, e os resultados que possa gerar, nomeadamente em termos de despesa pública no curto prazo, devem ter uma sustentação mais sólida do que apenas afirmações genéricas, e existe toda a informação, no Serviço Nacional de Saúde, para se poder dar essa sustentação», conclui.

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12 de Fevereiro de 2020
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Publicada originalmente em www.univadis.pt

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