«Existe um pedido excessivo de análises de “rotina”» em Portugal

por Teresa Mendes | 30.03.2020

Estudo publicado na Acta Médica Portuguesa
Um estudo liderado por seis investigadoras, publicado na mais recente edição da Acta Médica Portuguesa, conclui que em Portugal «existe um pedido excessivo de análises de “rotina”», facto que pode levar a «sobrediagnóstico e sobretratamento».

Na opinião das autoras é, por isso, «imperativa a mudança cultural de uma perspetiva patogénica para salutogénica, o que só será conseguido através de estratégias que permitam implementar mudança de pensamento aliada a literacia em saúde da sociedade atual, dado que o papel do médico de família, nesta alteração, é ínfimo». 

Para a mudança deste paradigma uma estratégia globalizada «terá um impacto muito mais significativo do que ações individualizadas ao nível da Medicina Geral e Familiar», considerando as investigadoras que deveriam ser criadas «estratégias de marketing social para mudar a cultura vigente no sentido de reduzir o risco público associado a sobreutilização, sobrediagnóstico e sobretratamento que a realização inapropriada de exames acarreta».

O estudo incluiu médicos especialistas em MGF e internos de terceiro e quarto ano desta especialidade a trabalhar no Serviço Nacional de Saúde e concluiu que «mais de metade dos médicos ainda prescreve análises de rotina (AR), o que não está de acordo com as recomendações atuais que defendem não existir benefício (mas sim um potencial aumento do risco de causar dano) para o doente na requisição de AR».

Um estudo liderado por seis investigadoras, publicado na mais recente edição da Acta Médica Portuguesa, conclui que em Portugal «existe um pedido excessivo de análises de “rotina”», facto que pode levar a «sobrediagnóstico e sobretratamento»

O trabalho revelou igualmente que «grande parte dos médicos prescritores de AR são especialistas, o que se reflete no facto da média das idades dos médicos não prescritores ser 10 anos menor que a dos médicos prescritores». 

«Podemos constatar que existe uma associação entre ser especialista ou interno e a requisição de AR, sendo que os especialistas prescrevem mais AR», lê-se nas conclusões do estudo, considerando as autoras que «outros estudos são necessários para compreender o motivo desta diferença que, poderá ou não, dever-se a discrepâncias na formação dos diferentes profissionais, ou influência da experiência prática nos padrões de requisição».
 
Relativamente ao local de trabalho verificou-se que na região centro existem mais prescritores que não prescritores, na ARSLVT o número de prescritores é bastante semelhante ao de não prescritores, sendo a região norte onde se verifica o menor número de médicos prescritores. 

Das análises estudadas verificou-se uma maior incidência na requisição de colesterol e glicemia, talvez este facto possa ser justificado pela maior prevalência de patologias como dislipidemia, doença cardiovascular e diabetes mellitus.

Por fim, é concluído que não só existem diferenças estatisticamente significativas, entre especialistas e internos, no facto de pedir ou não AR como também no tipo de análises requisitadas.

«Verificou-se que existe uma associação entre prescrever AR e o pedido de AR para realização de rastreio (hemograma, perfil glicémico, urina II, perfil lipídico, função hepática, função renal, velocidade de sedimentação, função tiroideia, PSA).

Esta associação parece demonstrar que os médicos que referem prescrever AR têm a intenção, com as mesmas, de rastrear diversos tipos de patologia, embora os doentes não apresentem sintomatologia ou riscos que o justifiquem». 

«Podemos concluir que a maior parte dos médicos que não prescreve AR, não concordam com o rastreio de indivíduos assintomáticos através da requisição das análises incluídas neste estudo. Esta prática está de acordo com a evidência científica, tendo sido esse o principal motivo indicado por estes médicos para a não requisição de análises.

Em oposição, a maior parte dos médicos que responderam ao questionário pede AR com a intenção de realizar rastreio remetendo para a problemática da manutenção de cuidados de saúde não baseados na melhor evidência científica», sublinham as autoras.

O trabalho destaca também o facto de haver discrepâncias no tipo de análises requisitadas, ou seja, nem todos os médicos que referem requisitar selecionaram o mesmo grupo de análises para avaliar os seus utentes, o que demonstra que «poderá não existir homogeneidade nos cuidados de saúde, variando conforme o médico assistente». 

O artigo completo, intitulado «Requisição de Análises de “Rotina” em Medicina Geral e Familiar: Um Estudo Observacional Transversal Analítico Baseado na Prática em Portugal», está disponível para consulta aqui.

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30 de Janeiro de 2020
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Publicada originalmente em www.univadis.pt

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