Idade do doente não pode ser considerada como único elemento de decisão 

por Teresa Mendes | 15.04.2020

Profissionais querem critérios éticos para priorização de doentes
A esmagadora maioria dos profissionais e investigadores do setor da saúde, incluindo médicos, enfermeiros e psicólogos, consideram que a idade não pode ser considerada como o único elemento de decisão na priorização de doentes Covid-19 em cuidados intensivos.

Este é um dos resultados preliminares de um inquérito realizado na Faculdade de Medicina da Universidade o Porto (FMUP) e no CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, mas que será estendido a todas as Escolas Médicas nacionais, durante os próximos dias.

Coordenado por Rui Nunes (professor da FMUP e especialista em Bioética) e por Altamiro Costa-Pereira (diretor da FMUP), com o apoio de Olga Magalhães (FMUP/CINTESIS) o estudo, «realizado em tempo recorde», tem como objetivo «dar resposta a uma série de perguntas que já foram colocadas noutros países, como Espanha e Itália, face à desproporção de doentes graves e muito graves com COVID-19 a necessitarem de cuidados intensivos face aos meios disponíveis para os tratar», salienta um comunicado.

Dos mais de 350 profissionais e investigadores de saúde que responderam ao inquérito online, 91% consideram que, para além dos critérios clínicos, «devem existir critérios éticos universais, explícitos, transparentes e consensualizados para admissão em cuidados intensivos».
Apenas 6% não veem necessidade da sua existência e 3% não têm opinião sobre o tema.

 Face à impossibilidade de admitir em simultâneo todos os doentes com Covid-19, cerca de 80% dos profissionais entendem que, «deve valorizar-se a maximização da sobrevivência até à alta hospitalar» 

Por outro lado, quase 90% dos inquiridos concorda também que a decisão deve ser partilhada entre a equipa de saúde, o doente e a família, no sentido de promover «uma comunicação franca e transparente». Apenas 8% dizem que não e 3% não têm uma opinião formada.

Quanto aos critérios que deverão presidir à decisão de internar um determinado doente com Covid-19 em detrimento de outro, a grande maioria entende que «a idade não deve ser decisiva».

Feitas as contas, 93% dos profissionais concordam que a idade não pode ser considerada como o único elemento de decisão. Apenas 4% dos inquiridos acha que a idade serve para decidir quais os doentes prioritários, sendo que 3% confessam não ter opinião.

Face à impossibilidade de admitir em simultâneo todos os doentes com Covid-19, cerca de 80% dos profissionais entendem que, «deve valorizar-se a maximização da sobrevivência até à alta hospitalar».

O mesmo é dizer que a maioria dos profissionais admite que, se for necessário escolher, deve ser dada prioridade a doentes com mais hipóteses de sobreviverem.
Apenas 7% discordam e 13% não têm opinião.

O consenso não é tão grande no que respeita a outro critério possível na priorização de doentes a admitir em cuidados intensivos: o número de anos salvados. Cerca de 66% dos profissionais entendem que se deve valorizar «a maximização do número de anos de vida salvados», enquanto 18% dizem que não e 16% admitem não ter opinião.

As opiniões dividem-se ainda mais no que se refere à aplicação do chamado «princípio do custo de oportunidade», evitando como regra absoluta o critério «primeiro a chegar primeiro a admitir».

Ao todo, 56% dos inquiridos respondem que sim, que se deve ter em conta o «custo de oportunidade», o que implica que nem sempre a admissão deve ser feita por ordem de chegada.

Porém, 27% discordam e 17% não têm opinião.
Neste inquérito, realizado entre os dias 6 e 11 de abril, 51% dos inquiridos são médicos, sendo que 73% têm menos de 50 anos de idade.
    
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15 de Abril de 2020
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Publicada originalmente em www.univadis.pt

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