José M. Antunes| 15.03.2018

E agora Sr. Ministro da Saúde?

Mário Centeno, «a “estrela europeia” do Governo» abriu uma nova  «“caça” à Saúde»


Foi ontem,14 de Março de 2018, vale a pena fixar a data, que se tornou publicamente patente a impossibilidade prática de governar o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e, assim, o Ministério respectivo, dentro das regras, financiamento, subentendidos e mal-entendidos derivados do  actual acordo político tendo em vista a governação e apoio parlamentar (vulgo, «geringonça»).

De facto, em contexto de grande dificuldade da parte da equipa «da João Crisóstomo» em equilibrar as expectativas criadas, quer aos utentes, quer aos vários grupos de profissionais do Sector, com, por outro lado (e peso político muito maior, ao que se tem visto), as limitações financeiras e funcionais em que todo o Governo se obriga a trabalhar para conseguir o cumprimento de «défices europeus», a equipa actual do Ministério da Saúde, liderada por Adalberto Campos Fernandes, passou a ter, desde ontem, uma outra preocupação. 

O Ministro das Finanças admitiu ou declarou, para o caso é semelhante, ontem, numa sessão de Comissão Parlamentar na Assembleia da República que na Saúde há «má gestão».

«Fogo “amigo”» típico e debate político inevitável

Ou seja, num contexto de grande dificuldade e em que o «mal estar» dos profissionais, um tanto «inorgânico» numa primeira fase e, cada vez mais, tomado como seu pelos sindicatos e associações do Sector,  precisamente nesta altura, eis que o Ministro das Finanças; logo a «”estrela europeia” do Governo» (imagina-se que baseado apenas nos números e gráficos deles resultantes e muito, mas muito mesmo longe da realidade concreta que se vive hoje no Sector na Saúde); abre a «caixa de Pandora»

José M. Antunes

Médico. Director do «Tempo Medicina»

das «outras razões»  das dificuldades financeiras na Saúde e, com isso, parece colocar, publicamente, em causa (coloca, será a forma verbal mais adequada), a gestão do seu colega do Ministério da Saúde (MS).

Imagina-se que nos dias próximos (talvez já hoje no «Debate Quinzenal», na mesma Assembleia da República) o líder do Governo (e não só, imagina-se) venha tentar aplacar a «onda».

Por outro lado, os poucos que ouviram em directo as palavras de Mário Centeno, testemunharão que a referência apontava não tanto para a gestão global do MS, antes para o que no intermédio, se poderia optimizar.
Essa «velha» exigência feita «aos da Saúde», que ameaça eternizar-se, e lembra sempre a também velha piada do «cavalo do inglês»…

Pouco importa nesta altura «psicanalisar» a afirmação ou afirmações de Centeno; curiosamente em resposta -- «trapalhona» ou propositada, eis outro detalhe que «agora não interessa nada…» -- a uma pergunta «aberta» de um deputado do PSD; sendo certo que, como já ontem se viu e se verá muito mais nos próximos dias, a equipa «da João Crisóstomo» vai «passar, ainda mais, um “mau bocado”» nos próximos dias ao menos no espaço público da chamada «opinião publicada».

Logo ontem, claro, Rui Rio, o novo líder do PSD, tomou como também seu o assunto, em declarações públicas fortes, após uma reunião, longa, com o Bastonário da Ordem dos Médicos.
Rio colocou desde logo o assunto no seu foco e, por tabela, no da Comunicação Social, mais quando se encontra como que «sequioso» de «pontas por onde pegar» neste Governo para quem, aparentemente (?!), «a Economia corre bem» e, portanto, a expectativa de popularidade parece positiva. 
Ainda para mais respaldado nas afirmações de Centeno e nos dados, seguramente críticos, transmitidos por Miguel Guimarães (bastará tê-lo ouvido com atenção nos tempos mais recentes).

Tudo «previsível» e estudado…

E, no entanto, nada deste quadro global agora patente era «não previsível» desde o início, para quem conhece o Sector, as suas insuficiências e dificuldades, muito agravadas por muitos anos de contenção e cortes, dos quais os quatro dominados pelas obrigações derivadas do, inevitável, «memorando de entendimento» com entidades credoras internacionais, foram muito marcantes. 

Não só pelo efeito imediato, mas também pelo, enorme, «terramoto persistente» gerado nas «fundações» e nas condições de trabalho dos protagonistas de base do SNS (desde médicos e enfermeiros a administrativos, passando por várias das estruturas intermédias). 

Nada deste quadro global agora patente era «não previsível» desde o início

Esse efeito, de resto, está estudado, documentado, em estudo academicamente inatacável, recente, correspondendo a uma tese de doutoramento do ISCTE-IUL, levado a cabo por Paulo Simões, um médico muito activo, que «foi ali ao lado», a uma escola de gestão, e fez um trabalho muito instrutivo.
Chama-se «Evolução das lógicas institucionais no campo da Saúde em Portugal». 

Documenta muito do que, nas pessoas que são a base do SNS, sucedeu e sucede com quem «vestia a camisola» do SNS e, agora, entre a «fuga» de uns e a «desistência e irritação» de muitos dos que ficaram, por razões várias, torna a situação, insisto que «lá em baixo, na base», muito difícil de reverter. 
Já agora o texto está publicado no repositório de teses do ISCTE.

Imagina-se com facilidade  que nem Adalberto Campos Fernandes nem ninguém da equipa do MS (menos ainda outras entidades responsáveis, penso na ERS e em personalidades como Jorge Simões), o tenha lido ou o venha a ler (menos ainda considerar o seu conteúdo), não só por, indiscutível, falta de tempo, mas também  (ou principalmente) pela pior «soberba» que existe em Portugal no meu ver, a que chamo «a mania da "auto-suficiência"». Achamos sempre saber quase tudo, não precisamos de aprender com ninguém.


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15 de Março de 2018
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