José M. Antunes| 15.02.2017

Opções e consequências

Opinião de José  M. Antunes

O «Jornal de Notícias («JN») de hoje publica, com chamada de «manchete» e tudo, uma notícia que ilustra o actual «estado das coisas», ambiente, o que quiserem chamar, das relações, digamos assim, entre a Indústria Farmacêutica (IF) e a «opinião publicada» entre nós.

O título, por si, é muito significativo, pelo implícito nele, desde logo.
Cito: «Indústria corta medicamentos mais baratos para o cancro».  

Em resumo, o «JN», amplificado depois por um bom trabalho jornalístico da rádio Antena 1, constata que muitos medicamentos de «primeira linha», para tratamento de doentes com doenças oncológicas cujos preços baixaram muito nos anos recentes, estão a ser, com frequência, difíceis de adquirir pelas instituições de Serviço Nacional de Saúde (SNS ) que precisam deles para… tratar doentes.

Fica implícito no texto e em opiniões em torno dele -- não, não falo da “caixa de comentários” do «JN» -- que as empresas o fazem (implícito, «maldosamente») por quererem «vender» outros mais caros e rendíveis.

Ora, isto é julgado negativamente na «opinião publicada» e nos tempos que correm relativamente à IF.
Sinal dos tempos.

Noutros sectores «pode ser», neste, aparentemente, não…

Os factos são o que são e estes foram obviamente confirmados aos jornalistas por Nuno Miranda, o oncologista que há alguns anos coordena, na Direcção Geral da Saúde (DGS), o Programa de Combate às Doenças Oncológicas.

O ponto está na explicação para estes factos.

Lemos que as empresas da IF se desinteressaram pela produção e comercialização de tais moléculas por o preço, e, portanto, as margens terem diminuído. 

José M. Antunes

Médico. Director do «Tempo Medicina»


E estranha-se que tal suceda…

Complexidade e previsibilidade

Ora, por um lado, a questão é mais complexa, por outro, tal não era previsível?
Claro que sim.

Vejamos antes de mais que a questão é de maior complexidade. 
De facto, sendo Portugal um dos países onde os preços mais rapidamente e em maior dimensão «mergulharam» nos últimos anos, «acumulando» com a circunstância de ser um dos países onde mais – e mais generalizadamente -- se verificam atrasos de pagamentos por parte das instituições do SNS, era previsível que as empresas começassem a fazer contas, não?

Depois de terem adaptado as estruturas e tudo mais que entenderam necessário, foram ao âmago da coisa, «vale a pena manter este produto? E este outro?»

Tal sucedeu em variadas áreas de actividade e ninguém fez manchete do «JN» ou de outro média relevante.
Porque se há-de esperar que as empresas de IF se comportem de forma diferente?

(Quem não se deliciava com as «Bombokas» em tempos idos, e não desapareceram elas do mercado? «É a vida», costuma dizer-se) 

Era previsível que as empresas começassem a fazer contas, não?

Noutros sectores «pode ser», neste, aparentemente, não… 

Portugal é um mercado farmacêutico pequeno, ninguém contestará, pelo que, nesta área como noutras, quando há pouco de algo e o mesmo tem de
 ser «rateado» entre mercados, a tendência para os pequenotes serem preteridos acentua-se 

Por outro lado, Portugal é um mercado farmacêutico pequeno, ninguém contestará, pelo que, nesta área como noutras (ouvem-se estórias semelhantes por exemplo quanto a vacinas mas também quanto a medicamentos inovadores, recentes) quando há pouco de algo e o mesmo tem de ser «rateado» entre mercados, a tendência para os pequenotes serem preteridos acentua-se.

Sacrifício constante…tem consequências... 

Por outro lado ainda, há a previsibilidade de isto ocorrer em Portugal, mais ano menos ano. 
A alguém escapou que as empresas de IF, nos mais recentes anos (7, 8 pelas minhas contas); desde a nacional à internacional de investigação e à «de genéricos»; tem sido sujeita a um sacrifício constante de preços, margens, potenciais fórmulas de trabalho no «terreno», «contribuições extraordinárias» que se tornam permanentes «pela surra», de uma forma não assumida, etc?
Não a nós. Fomos escrevendo sobre isso. 

Não a muitos observadores do Sector («fileira») do medicamento que foram avisando que viria um momento em que se verificariam rupturas. Várias. Elas estão aí, várias. Menos comentadas outras, mas também aí estão.

​Alguém acredita ainda no «pai natal»?

Acreditava alguém que a manutenção e acentuação deste padrão seria possível de manter e manter e manter?
Que essas empresas não iriam adaptar-se, descontinuar produtos, repensar estratégias e presenças em mercados?
Alguém acredita ainda no «pai natal»? 

Aqui volto a um velho (e, ao visto «relho») argumento meu, importava que –preventivamente -- a IF e as suas empresas de todas as áreas e origens cuidassem (tivessem cuidado em tempo?) de marcarem muito bem a importância da sua acção neste País, em qualquer país na verdade, procurando prevenir o que levou a este contexto. 
Não aconteceu.

Calhou isso suceder em (mais uma!) época de dificuldade extrema nas contas públicas portuguesas e em que os políticos e os gestores de instituições de saúde tiveram absolutamente que «cortar e cortar», optando por fazê-lo nesta área do medicamento, massivamente.

Isso tem consequências. 
Estão aí.

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15 de Fevereiro  de 2017
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