Celso Cruzeiro| 23.05.2016

Cirurgia plástica: uma especialidade na defesa da saúde dos pacientes

Opinião de Celso Cruzeiro. 

A evolução da Cirurgia Plástica em termos técnicos e científicos tem vindo a evoluir muito rapidamente e a oferecer melhores soluções e, principalmente, mais simples para uma plêiade de problemas apresentados pelos pacientes. 

E estes tomam consciência progressiva das possibilidades que a Especialidade lhes oferece de várias formas inclusive, também em consequência de alguma visibilidade mediática que, embora muitas vezes não sendo exemplar, informa as pessoas de que é possível dar soluções a problemas que até então eram tidos como fatalidades.

Poderemos citar como exemplo o facto de a mulher hoje saber que a sua mama pode e deve ser reconstruída depois de sujeita a mastectomia.

Exemplos

Também se sabe que cada vez mais os Cirurgiões Plásticos são capazes de obter resultados satisfatórios neste campo e noutros campos de desenvolvimento da especialidade, assim a Cirurgia Plástica viu aumentar a sua visibilidade na Sociedade aumentando também a procura destes serviços. 

Todavia, um Cirurgião Plástico leva seis anos para completar a sua formação na especialidade de Cirurgia Plástica, num esquema diário de ensino tutelado “de mestre a aprendiz”, só acede a este ensino mediante provas altamente selectivas e adquire o grau de especialista só depois de avaliações contínuas e de um exame soberano e eliminatório muito exigente.

O Ensino pós-graduado em Portugal pode assim ser considerado exemplar a nível europeu e comparável, na sua organização e rigor, ao que de melhor se faz no Mundo.

Lembrar que devido às exigências técnicas características da Especialidade e à capacidade formativa existente hoje nos Serviços de Cirurgia Plástica naciona

Celso Cruzeiro

Presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva

is, todo o SNS raramente forma mais de três Cirurgiões Plásticos por ano. Isto torna esta Especialidade de muito difícil acesso. 

Por outro lado, o crivo de equiparação legal de títulos obtidos fora do espaço Europeu, da responsabilidade da Ordem dos Médicos, é rigoroso e incorruptível em Portugal.

Só assim é possível à Ordem dos Médicos atestar que, no fim da sua formação, um Especialista credenciado está apto a lidar correctamente com as situações clínicas e com as complicações que podem surgir, seja na área da Cirurgia Reconstrutiva ou na da Estética. 

O organismo humano não é uma matéria inerte

Saber empilhar tijolos sem que caiam não faz de ninguém um engenheiro e do mesmo modo, ter aprendido umas técnicas de lipoaspiração não faz de ninguém Cirurgião Plástico.
Este é o fio da navalha que convém à defesa dos pacientes que permaneça aguçado. Quem “ultrapassa os limites das suas qualificações e competências” (e este conceito “tem em conta as especialidades, sub-especialidades, competências e formações reconhecidas pela Ordem dos Médicos”) viola o art. 36º do Código Deontológico publicado no DR II Série de 13 de Janeiro de 2009 sob a designação “Ordem dos Médicos Regulamento nº 14/2009”. Não existem estatísticas da conflitualidade ligada a estes casos mas é notório o aumento exponencial deles, e um já era demais Infelizmente, entre os regulamentos e a sua aplicação vai em Portugal uma distância onde se infiltra o oportunismo, a ganância, o aventureirismo, a irresponsabilidade e ainda o “nacional-porreirismo” que tudo vai deixando passar alegremente.

Estas questões são no entanto complexas… o organismo humano não é uma matéria inerte e as suas reacções são muitas vezes pouco previsíveis, não trabalhamos com uma ciência exacta nem com um sistema controlado de causa/efeito,  mas com organismos vivos, pessoas, pelo que um Médico responsável não poderá em absoluto garantir “resultados”, nem o doente os pode exigir ou julgar que tem direito a eles. 

O Médico tem a obrigação de garantir “meios” e o primeiro e mais importante dentre eles é a sua formação.
No nosso entender quem não tem formação considerada adequada não respeitou a obrigação tinha para com o seu paciente.

É de notar contudo que a “democratização” do conhecimento não é em si mesmo nefasta.
No entanto os limites do que se pode apropriar e do que parece exequível são escorregadios.

Tomando como exemplo a Toxina Butolínica, é essencial para a sua aplicação o conhecimento da anatomia funcional do complexo sistema dos músculos da mímica facial, do que se pode e não se pode “paralisar” do que acontece se retirarmos uma força que se aplica numa zona da face deixando os outros músculos sem contra-balanço, da profundidade a que está o músculo, da proximidade de outros que se forem atingidos provocam um “desastre” estético e mesmo graves consequências físicas não podendo aí aplicar-se a droga por mais rugas que haja etc. um sem número de saberes e de técnicas impossíveis de realizar por quem não possui a formação adequada. 

Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética, uma especialidade reconhecida

À semelhança do que se passa nos outros países desenvolvidos, e não só, surgiu entre nós toda uma indústria que vive à custa da procura incansável da boa forma física e da beleza, com uma explosão de health clubs, centros de estética, clínicas de todo o tipo e para todos os gostos, muitas vezes sem qualquer idoneidade.

A Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética constitui uma especialidade reconhecida pela Ordem dos Médicos que, desde sempre, tem dado provas no tratamento das deformidades congénitas ou adquiridas; na reconstrução cirúrgica da face, do tronco e dos membros; na reconstrução mamária; no tratamento das feridas e úlceras crónicas; no tratamento das queimaduras, etc. Para além disso, os Cirurgiões Plásticos, após conclusão de uma Especialidade que demora ainda seis anos a concluir após a licenciatura em Medicina, são os únicos profissionais devidamente habilitados para a realização das intervenções de cirurgia estética e preparados para lidar com todas as complicações que possam eventualmente surgir durante e/ou após a cirurgia.

Infelizmente, verifica-se que a inexistência de uma legislação adequada, permitindo que surjam oportunistas de toda a espécie, muitas vezes sem qualquer formação médica, que tentam vender gato por lebre, visando apenas o enriquecimento fácil. Isto é ainda mais frequente nos tratamentos não cirúrgicos, como a endermologia, a mesoterapia, a radiofrequência, a depilação laser, etc., feitos muitas vezes sem qualquer supervisão médica, pondo em risco a saúde dos pacientes.

Congresso e site (www.spcpre.org.pt)

Por tudo o que dissemos atrás, no III Congresso Ibérico de Cirurgia Plástica (http://www.cprelisboa.org/) – que decorrerá no Centro de Congressos do Estoril, nos próximos dias 2, 3 e 4 de junho – e que reunirá mais de quatro centenas de Cirurgiões Plásticos espanhóis e portugueses, a par do procura de actualização científica, estará em discussão a procura de meios para combater a realização de procedimentos da área da cirurgia plástica por pessoas sem competência para o efeito, pondo em risco a saúde dos doentes.

Queremos ainda lembrar que no site oficial da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética (spcpre.org.pt) encontra-se disponível para consulta a lista actualizada dos Cirurgiões Plásticos nacionais oficialmente reconhecidos pela Ordem dos Médicos, bem como muitas outras informações úteis sobre a Cirurgia Plástica em Portugal, podendo-se aí conferir as habilitações de quem se propõe realizar tratamentos estéticos.

Destaques

Saber empilhar tijolos sem que caiam não faz de ninguém um engenheiro e do mesmo modo, ter aprendido umas técnicas de lipoaspiração não faz de ninguém Cirurgião Plástico 

Verifica-se a inexistência de uma legislação adequada, permitindo que surjam oportunistas de toda a espécie, muitas vezes sem qualquer formação médica 

No site oficial da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética (spcpre.org.pt) encontra-se disponível para consulta a lista actualizada dos Cirurgiões Plásticos nacionais oficialmente reconhecidos pela Ordem dos Médicos  




*Presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética

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25 de Maio de 2016
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