Artur Miguel Quaresma Pereira Miler| 05.12.2016

A diabetes e saúde oral 

Opinião de Artur Miguel Quaresma Pereira Miler

A relação entre diabetes e saúde oral tornou-se mais insistentemente notícia neste ano de 2016 pela visibilidade que lhe foi dada pelos média, quer devido à circunstância de o Dia Mundial da Saúde ter sido dedicado a esta doença, quer pelo facto do Dia Europeu da Saúde alertar para o seu impacto na saúde oral, quer ainda, embora numa dimensão por ora ainda residual, pelo facto dos pacientes diabéticos serem um dos grupos alvo contemplados no acesso ao Médico Dentista nos Centros de Saúde que integram o Projeto Piloto de Integração da Medicina Dentária no Serviço Nacional de Saúde, mormente nos Cuidados de Saúde Primários (CSP). 

Os dados da Direção-Geral da Saúde apontam para a existência, em Portugal, de quase 1 milhão e 300 mil pessoas com diabetes, sendo que apenas 7% dos casos estarão diagnosticados.

Particularmente comum nos doentes diabéticos
 
A doença periodontal é particularmente comum nos doentes diabéticos sendo por isso necessária uma especial diligência para que estes doentes possam ter acesso e serem sujeitos a consultas regulares de saúde oral. 

Os dados e as tendências atuais alertam para os seguintes factos preditores: entre os jovens adultos, as pessoas com diabetes correm duas vezes maior risco de desenvolverem periodontite; adultos com idades entre os 45 ou mais anos, com diabetes mal controlada, são 2,9 vezes mais propensos a contrair periodontite severa do que aqueles sem diabetes; pessoas que fumem e que tenham persistentemente níveis elevados de glicemia têm 4,6 vezes maior risco de desenvolver periodontite; por fim, cerca de um terço das pessoas com diabetes possuem periodontite severa. 

Mas, apesar da doença periodontal ser a complic

Artur Miguel Quaresma Pereira Miler

*Médico Dentista (CP nº7660) no Centro de Saúde de Montemor-o-Novo; *Pós-Graduado e Mestrando em Geriatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra; *Especializado em Reabilitação Oral pela Faculdade de Medicina Dentária da Universidade d

ação mais comum associada à diabetes, existem outras condições associadas a esta doença como xerostomia, perda dentária, cáries e abcessos dentários, candidíase oral, líquen plano oral e síndrome de boca ardente, todas elas com graus de intensidade e incomodidade variáveis de doente para doente, cursando de diferentes modos mas com repercussões por vezes muito acentuadas na qualidade de vida e de saúde dos doentes diabéticos. 

Uma oportunidade

Os profissionais de saúde oral, nomeadamente os Médicos Dentistas, têm aqui uma oportunidade e uma inegável incumbência de serem parte importante, senão primordial, de uma equipa necessariamente empenhada no combate a esta verdadeira síndrome oro-metabólica. Infelizmente, muitos dos profissionais de saúde envolvidos no combate à diabetes têm muito pouco, ou mesmo quase nenhum, conhecimento e treino no que  respeita à mais que evidente ligação entre saúde oral e essa cada vez mais prevalente doença sistémica que o é a diabetes. 

Noutro vetor, e voltando ao referido Projeto Piloto que privilegia precisamente os diabéticos como população-alvo, o qual pressupõe e se baseia essencialmente na referenciação de doentes pelo Médico de Família para uma consulta de medicina dentária, urge dotar os médicos especialistas de Medicina Geral e Familiar de formação específica que lhes permita a aquisição de conhecimentos e competências aprofundadas que os alerte e capacite para a triagem dos utentes com indicação para referenciação ao Médico Dentista do Centro de Saúde.

Além disso, é imperioso consciencializar esses autênticos arautos dos CSP para a necessidade de que se deve, acima de tudo, incentivar uma consulta médica dentária periódica a que deve estar sujeito o doente diabético - pelo menos enquanto não forem elaboradas e divulgadas Normas de Orientação Clínica (NOC) específicas para a vigilância e tratamento destes doentes que proponho e que, presumo, estarão na forja da Unidade de Missão criada para a integração da Medicina Dentária no SNS. 

NOC

E mais acrescento que tais NOC devem ser dirigidas quer ao Médico quer ao Médico Dentista dos CSP.
Tudo isto para além das imprescindíveis, insistentes e persistentes medidas de educação para a saúde a serem implementadas por todos os agentes envolvidos no diagnóstico, tratamento e acompanhamento do doente diabético, médicos, enfermeiros, médicos dentistas, higienistas orais, entre outros, nomeadamente o reforço das medidas preventivas, com particular enfoque no facto de uma boa saúde oral ter consequências muito positivas para uma boa saúde em geral e vice-versa, enfatizando essa reconhecida proactividade. 

Equipa de saúde multidisciplinar

Saúdo aqui a parceria estabelecida entre a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo e a Ordem dos Médicos Dentistas com vista a uma colaboração que permitirá a criação de sinergismos em campanhas para a prevenção e tratamento das complicações de uma das doenças mais prevalentes dos tempos atuais e, nesse sentido, o Projeto-Piloto servirá para podermos experienciar e verificar de que modo se poderá melhorar esta ligação entre o doente, o médico de família e o médico dentista.

Uma certeza posso já antecipar: a de que passará a existir, sem dúvida alguma, uma maior interligação de todos, dada a integração do Médico Dentista no mesmo espaço físico possibilitando, por isso, uma melhor e maior troca de informação. 

Uma certeza posso já antecipar: a de que passará a existir, sem dúvida alguma, uma maior interligação de todos, dada a integração do Médico Dentista no mesmo espaço físico possibilitando, por isso, uma melhor e maior troca de informação. 

Já são muitos aqueles que tiveram acesso a cuidados de saúde oral através de “apenas” treze Centros de Saúde com a valência de Medicina Dentária

No futuro, com a sua integração plena numa equipa de saúde multidisciplinar, com carreira própria, conhecerá melhor o passado clínico do paciente e poderá participar mais ativa e conjunturalmente, no futuro imediato, para podermos ter os pacientes diabéticos mais controlados, com consultas de medicina dentária devidamente integradas na vigilância de rotina ao doente diabético, almejando todos que mantenha a melhor saúde oral possível, a sua doença devidamente controlada e, com isto, uma melhor qualidade de vida.
 
O Dia Mundial da Diabetes foi mais uma oportunidade de tornar visíveis os utentes que padecem desta doença. E já são muitos aqueles que tiveram acesso a cuidados de saúde oral através de “apenas” treze Centros de Saúde com a valência de Medicina Dentária.
As melhorias na sua saúde geral serão, certamente, bem evidentes no futuro.
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*Médico Dentista (CP nº7660) no Centro de Saúde de Montemor-o-Novo; 
*Pós-Graduado e Mestrando em Geriatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra; *Especializado em Reabilitação Oral pela Faculdade de
Medicina Dentária da Universidade do Porto


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05 de Dezembro de 2016
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