João Queiroz e Melo| 09.04.2018

«Temos  de  encarar o futuro com realismo»

Texto integral do discurso de João Queiroz e Melo, aquando da entrega do Prémio Nacional de Saúde 2017


«A descentralização do Serviço Nacional de Saúde é urgente. As inúmeras assimetrias dificilmente serão ultrapassadas sem que se devolvam às regiões, de forma gradual, a responsabilidade para decidirem o seu destino.» Este foi um dos apelos deixados à tutela pelo Prémio Nacional de Saúde 2017, João Queiroz e Melo.

Nas comemorações do Dia Mundial da Saúde, sábado passado, dia 7, em Lisboa, o galardoado pelo seu pioneirismo na transplantação cardíaca, considerou que chegou a hora da «meritocracia».

O texto, integral:

Senhor Ministro da Saúde,
Senhora Diretora Geral de Saude;

Agradeço a  distinção que me concedem  e  aceito com gosto e humildade.


Muito do que realizei foi  no Santa  Cruz, e só foi possível pela competência, profissionalismo, e dedicação de um grande grupo.

Sinto-me um previlegiado por ter pertencido a esse grupo e, neste momento ser a sua face visivel... este prémio é tambem para eles.

Cumprimento … a minha Familia , muitos amigos e todos os presentes. Lembro a memória de meu Avô, médico na região do Pinhal Interior, e cujo exemplo me inspirou para querer ser médico.

Nesta ocasião lembro  as figuras paradigmatica do Dr Manuel Machado Macedo e Enf Basilio que criaram uma forma exigente de estar no Hospital , que perdurou.
O nosso Ministro, dizia há dois anos em  Sta Cruz que small is beautiful.
É verdade, mas a beleza é fugaz, passa  com a idade se não for cuidada…

Sendo persistente  e algo rebelde,  transmito a experiência de quase 50 anos como médico, e 47 como cirurgião, inicialmente cirurgião  geral e depois cardíaco.
Nesta especialidade trabalhei contratado  em 7

João Queiroz e Melo

Médico, Especialista em Cirurgia Cardio-Torácica; Galardoado com o Prémio Nacional de Saúde 2017

paises diferentes, de 3 continentes.

Fui Diretor de Serviço e de Hospital.

Um dos episódios  marcantes desses tempos foi em Harvard onde fui admitido como Senior  Resident em 1979. Tinha 34 anos e achava que era o maior... mas nos primeiros 10 dias o meu serviço foi prioritáriamente ser maqueiro…  Só mais tarde percebi a utilidade desta aparente subalternização que me marcou para a vida
Conheci muitas pessoas e formas de estar e organizar.

Interrompi toda a atividade  cirúrgica aos 65 anos.

Se um Cirurgião sair enquanto está apto ainda  poder ser muito  útil, aproveitando os conhecimentos e experiência adquiridos.

É pena que o SNS não aproveite a estes profissionais, que se se tornam injustificadamente um dispositivo de uso único. 
O mais importante  para  partilhar hoje é o que vivi  nos últimos anos.

 Porque o  tema saúde para todos, escolhido pela OMS é muito atual e pertinente, é dele que vou   falar  na sua definição  restritiva, isto é saúde como ausência de doença. 

Desde que me reformei  sigo com atenção  a forma de prestação de cuidados, mas  de fora,  como utilizador, acompanhante e observador atento.
É esse olhar que partilho convosco.

Nos últimos 50 anos Portugal teve um progresso notável,  dos marcadores de saúde, que conhecem, tão bem como eu. Alcançamos esses indices  com um investimento muito reduzido, quando comparado com outros países.
Devemos estar orgulhosos destas melhorias e também ter a percepção do que elas significam.
Permitam dar um exemplo.
Esperança de vida até aos 81 anos é excelente. Mas quando falamos em esperança  de vida com qualidade então os valores já não são tão otimistas.

Para conseguir essas melhorias o financiamento tem de aumentar substancialmente em cuidados de  saude primários. Este investimento é fundamental.

Requer  coragem para o aumentar, por ser menos visivel e só produzir resultados a médio prazo mas é urgente fazê-lo… apesar de nesta área, de interesse  coletivo, não haver grupos de pressão.

Em  1968, ano em que me licenciei e inscrevi na OM ,  o enfase dos cuidados estava centrado nos Médicos. Hoje passaram 50 anos e eles estão centrados nos gestores.
Não duvido que no futuro eles irão estar nos doentes e que caberá aos profissionais, médicos, enfermeiros, gestores, fornecer aos doentes as  ferramentas e informação que lhes permita decidir.

A telemedicina, a medicina celular e personalizada, a genómica, a inteligência artificial estão aí com potencial inesgotável.
Deveriam ser utilizadas  para resolver os problemas simples, dos doentes crónicos e idosos, que são a maioria.

Temos  de  encarar o futuro com realismo.
Não podemos ter receio do progresso e perceber  que a tecnologia pode ter comportamentos mas não sentimentos.
E estes são a base da Medicina...por isso  os profissionais não devem ter receio de ser descartáveis. 

Devemos   contribuir para continuar os progressos já obtidos, tendo presente o que o Papa Francisco, dizia há uns meses: a compaixão é de alguma forma a alma da Medicina.

Falar de saude é falar da sustentabilidade do sistema nacional  de saúde.

O dinheiro é finito  embora muitos não gostem de falar dessa realidade.
Se de facto  a saúde não tem preço ela tem um custo, e alguem tem o pagar.
O primeiro passo para a sustentabilidade é a boa qualidade dos cuidados.
Essa é a nossa  obrigação para cada doente que nos procura , e uma  parte substancial dos gastos é com o tratamento das consequências da falta de qualidade. Precisamos urgentemente de avaliar a qualidade dos cuidados.

Temos gasto muito tempo e dinheiro com  certificação de procedimentos.
Mas para saber da validade desses procedimentos temos de possuir informação fiável  sobre os  resultados obtidos e sua melhoria,  que presentemente nos falta
A informação  disponível, é pouco relevante.
Exemplifico: sendo  indispensável saber a taxa de mortalidade dos serviços cirúrgicos, ela já não é um marcador de qualidade  na maior parte das doenças.

Precisamos de saber se esse doente teve acesso ao cuidado em tempo útil, de forma segura e eficiente , e se o problema que o levou ao tratamento foi solucionado de forma estável, isto é, pelo menos após 6 meses. 

Os eventos adversos nos cuidados hospitalares, devidos ao erro e deficiente coordenação , são uma realidade grave, em linha com o que se passa nos Países, e que  não tem merecido a atenção devida. Nos EUA é a 3ª causa de mortalidade.
E no nosso meio, qual será?

 No curto prazo não me atrevo a aspirar que também  exista informação sobre a equidade no acesso. 

Há poucos anos, Kaplan e Mayer, economistas de Harvard, escreviam “ a maior dificuldade em saúde, não são os politicos nem as seguradoras, mas andar a medir parâmetros errados com instrumentos errados”
 As Sociedades Cientificas e Profissionais, devem  ter nesta avaliação um papel muito ativo, e a avaliação tem  ser feita por  entidades independentes. 

É  urgente implementar uma mudança de paradigma na avaliação da qualidade.

Apetece-me citar um mural que vi no Maio de 68 em Paris : corre amigo que o velho mundo vem atrás de ti…

As equipas devem ter  grande profissionalismo, o que implica lideranças claras integrando todos os profissionais, e enorme diálogo entre os diferentes estratos.
Não mais é possível ter estruturas de saúde, como existem no presente, em que há ausência de diálogo entre as diferentes  profissões, e frequentemente hostilidade
Temos profissionais de enorme qualidade, e em quantidade suficiente. Infelizmente apos 50 anos, não conseguimos mudar a forma como os integramos nas instituições.

O multiemprego é uma realidade nefasta para muitas especialidades e não vejo grande diferença entre o que se passava em 1968, quando comecei,  e agora em 2018.

A eficiência e dedicação dum médico são indispensáveis para o pleno  sucesso.
Não temos sido capazes de fixar os médicos aos hospitais, e desde 2005 que foram criadas condições para os afastar. Reestabelecer a confiança mútua é urgente e fundamental para possibilitar mais profissionalismo e dedicação , numa sã concorrência entre o sector publico e o privado.

Pergunto se é  possível fazer melhor com o que já temos ? não duvido que sim…  tendo presente que o mundo só muda se cada um de nós mudar…

Só  mais duas   realidades que  quero partilhar: ambiente e desperdicio.

Os hospitais   são dos maiores poluidores.
Em Portugal cada cama hospitalar gera por dia  cerca de 6 a  8 quilos de lixo.  Isto representa  mais de 100000 toneladas de lixo por ano... 

A pegada ecológica dum doente em internamento é cerca de 4 vezes superior à de um cidadão vulgar.  

Atividades de grande impacto ambiental e financeiro, que  são prática corrente nos países mais desenvolvidos, curiosamente tardam em ser de uso generalizado no sul da Europa, e em  Portugal, sobretudo no Sul e Centro.

Temos de pensar nos hospitais como  green hospitals, movimento que é uma realidade em muitos países mas, em Portugal não tem visibilidade. Penso ser uma forma apropriada para reduzir a pegada ecológica em  cuidados de saúde.

Como diz o Papa Francisco, na Enciclica Laudate Te, é urgente uma  Conversão Ecológica
Os desperdícios em cuidados de Saude são outra  realidade de que não gostamos de falar.

Margaret Chan, ex- diretora  geral da OMS escrevia em Dezembro de 2010 que em cuidados de saude  estimava que cerca de 30% dos  gastos  eram desperdicio. Se os evitássemos  não seriam necessário os cortes orçamentais...

Reafirmo  a minha fé no SNS, como parte fundamental do Sistema Nacional de Saude. Mas temos de o pensar coletivamente, para o futuro, percebendo que o mundo está a mudar.
Neste mundo globalizado, digitalizado, urbanizado, envelhecido, de relativismo cultural e antropocentrismo desordenado, ser revivalista, querer que o  SNS volte  ao passado,  é continuar  a sua destruição, o que rejeito com veemência.

A sua descentralização é urgente...a racionalização dos recursos existentes, a criação de massas criticas e a correção das inúmeras assimetrias dificilmente será ultrapassada sem que se devolvam às regiões, de forma gradual, a responsabilidade para decidirem o seu destino. 

Talvez essa seja, finalmente, a oportunidade para a meritocracia ser parte integrante da politica do SNS. Não  é possivel reformular 130000 trabalhadores mas podem e devem ser promovidas “ilhas experimentais” sectoriais que demonstrem que é possivel mudar.

Muitas vezes o atrazo é uma oportunidade.
Temos de olhar o presente com serenidade e o futuro com esperança.
Se em Portugal assumirmos  de forma empenhada o compromisso da sustentabilidade, com criatividade, ciência  e inovação disruptiva , iremos   certamente iniciar mais uma área de afirmação no Mundo.
 
As minhas  palavras não são uma critica com destinatários implicitos.
Se algo existe é uma autocritica por não ter feito algumas destas coisas ou por não ter lutado o suficiente para a sua implementação.
Sei, por experiência,  que a melhor maneira de conhecer o futuro é ajudar a construi-lo e foi isso que tentei  nestas palavras.

O meu sonho é que os meus netos possam ver algumas destas realizações.

Termino renovando o meu reconhecimento pela distinção que me atribuiram.

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09 de Abril de 2018
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