João Paulo de Oliveira| 30.09.2017

Uma provocação 

Opião de João Paulo de Oliveira

Em tempos de elaboração de um novo orçamento de Estado, para mais se ele for o produto de uma negociação entre partidos, para mais, ainda, se as notícias sobre o andamento da economia, controlo do défice e baixa do desemprego acenam ao povo com alguma margem de desaperto do cinto – nestas circunstâncias, não admira que sobre o pedal da reivindicação se abata um pé pesado.

Não admira porque, para quem está às escuras, a visão de um raio de luz é farol que guia encantatoriamente, sem concorrência de qualquer apelo à contenção.
Por isso mesmo, quando se prevê a possibilidade de uma melhoria, quando anda no ar uma expetativa positiva, conviria prevenir, a razoável distância, o desbragar das reclamações, justíssimas na esmagadora maioria, mas nem todas fáceis ou possíveis de acomodar.

A formação do atual Governo e o novo rumo a que se propôs vieram ao encontro da vontade maioritária dos Portugueses expressa nas urnas, e alimentaram a esperança de vida nova, que não era excessiva nos seus contornos, mas era problemática na sua rápida e sólida concretização.

A reversão de algumas das decisões mais gravosas do tempo da troika, sem pôr em causa objetivos orçamentais, foi o primeiro sinal de que havia alternativa; infelizmente, o seu anúncio não foi acompanhado (perguntar-se-á se a junção de adversativas cautelares não seria recebida como um desmentido da boa nova…) de algumas prevenções, bem ao contrário, quanto ao ritmo da mudança e ao seu alcance no imediato, acima de tudo sem a devida valorização do potencial fascínio sempre agregado às boas notícias, tendo em conta os constrangimentos impostos pela redução do défice e da dívida.

Mas seria tal necessário, uma vez que os destinatários da nova política estavam, na generalidade, habilitados a antever as dificuldades da concretização dela? L

João Paulo de Oliveira

Jornalista

embrar-lhes a precaução não equivaleria a passagem de atestado de estupidez ou insensatez?
O certo é que o Governo, ao invocar o virar da página da austeridade, deu pretexto para alimentar um excesso de expetativas que os seus cultores procuram laboriosamente arrecadar, mas cujo débil fundamento não ignoram.

O queixume do secretário de Estado da Saúde, Manuel Delgado, que confessou recentemente sentir que «é um tormento governar nestas circunstâncias», quando o Governo «não tem condições para responder a todas as reivindicações» que os profissionais apresentam, é criticável enquanto queixume, mas traduz a realidade do cerco que vários sindicatos vêm fazendo ao Ministério da Saúde, procurando obter tudo ao mesmo tempo, sem cuidar do modo para tal conseguir.

Não me pronuncio sobre uma eventual instrumentalização política de questões laborais em período eleitoral, porque não tenho qualquer dado apontando nesse sentido -- basta-me saber que o reconhecimento da impossibilidade de satisfação de algumas reivindicações no imediato não é privilégio do Governo; é o mínimo exigível a cabeças medianamente pensantes.

Por isso, e por exemplo, a exigência de um aumento de 400 euros no salário de todos os enfermeiros só pode ser entendida como uma provocação.
E enfrentada como tal.

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30 de Setembro de 2017
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