João Paulo de Oliveira| 20.08.2017

O porco e os riscos que corre 

Opinião de  João Paulo de Oliveira

O porco, sus domesticus, nasce e cresce com a morte programada: às três, quatro semanas, e nem a porco chega; por volta dos oito, dez meses, se o dono o quer bem nutrido de carnes.

Em qualquer dos casos, o seu destino tem sido o prato.
Eis que agora a ciência lhe propõe alternativa, lhe acena com a inefável possibilidade de salvar vidas humanas, através do transplante de órgãos, logo que estejam ultrapassados todos os obstáculos à sua segurança e eficácia.
Os progressos da engenharia genética e a edição do ADN pela técnica do «corta e cola» abrem possibilidades antes impensáveis na área dos xenotransplantes.

Sabíamos já que o porco é, para este efeito, o animal mais compatível com o ser humano, mas o problema da rejeição dos órgãos transplantados e a possibilidade de estes infetarem o recetor com vírus porcinos (PERV) são obstáculos à realização do transplante.

Ora, Dong Niu et al.  conseguiram remover um destes impedimentos, nomeadamente os retrovírus endógenos porcinos (PERV, no acrónimo anglo-saxónico).

Para tanto, aplicaram a técnica de edição do ADN a células derivadas do tecido conjuntivo de fetos de porco (25 modificações), juntamente com um cocktail químico estimulante do crescimento, e libertaram-nas dos PERV. Depois, inseriram o núcleo destas células editadas em óvulos obtidos de ovários de porca que, uma vez transformados em embriões, foram implantados no útero de uma «fêmea de aluguer».

A técnica produziu porcos saudáveis -- tão saudáveis como os animais sem modificação genética – e sem PERV.
A perspetiva que este passo abre convoca evidentemente o mais intenso júbilo, tendo em conta a escassez de órgãos humanos disponíveis para trans

João Paulo de Oliveira

Jornalista

plantação, não obstante o longo caminho a percorrer até o xenotransplante se tornar um ato praticável sem medo. Um dos passos seguintes será a supressão de genes porcinos associados à rejeição de órgão; a genética consegui-lo-á, não duvido.

Mas não creio que dê resposta a uma questão que o seu próprio êxito gerou.  

Se me consente a proposta, ponha-se o leitor no lugar do porco.
Desse mesmo, o sus domesticus.

Ponha-se o leitor no lugar de um porco que não fez mal a ninguém, não enjeitou responsabilidades, não mentiu, não incitou ao ódio, não subscreveu um daqueles comentários que exibem a ignorância – e concomitante ousadia -- em todo o seu esplendor ou o insulto mais soez, não vendeu títulos de dívida disfarçados de depósitos a prazo, não enriqueceu ilicitamente, não se cumpliciou com supremacistas brancos, não comparou de dia para dia o tamanho da barriga da namorada de Cristiano Ronaldo, enfim, nunca pactuou com a desonestidade (intelectual e da outra), nunca violou as leis da República, sempre reconheceu como limites à sua liberdade a liberdade do outro, agiu por norma assisadamente… tudo isto embebido num módico de inteligência e sensibilidade.

Como reagirá o fígado, o rim, o pulmão, o coração (oh, então o coração…) de um destes porcos modelares ao ser instalado no corpo de um homofóbico, racista e xenófobo, por exemplo?
 
Não creio que devamos pedir à genética uma resposta – e uma solução -- para este problema, sobre que partido entende tomar, o do recetor ou o do dador. 

A questão interpela-nos a todos, não pode ficar restrita aos geneticistas.
Infelizmente, porque se ficasse, seria resolvida, creio, a favor do sus domesticus. E sem nos perturbar o sono. 

17JPO34A
19 de Agosto de 2017
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