João Paulo de Oliveira| 23.10.2017

Devolvo-te a visão… em troca de um milhão!

Opinião de João Paulo de Oliveira

Um painel consultivo da FDA norte-americana manifestou opinião positiva, por unanimidade, quanto a uma terapêutica genética, Luxturna, que restaura a visão em crianças com uma forma hereditária de cegueira.
O preço?

Um milhão de dólares por doente.

Estarão as seguradoras privadas dispostas a pagá-lo?
E os cidadãos, através dos impostos?
E se o medicamento não resultar em alguns doentes, quem paga a conta?
 
Mark McClellan, antigo comissário da FDA, formou um consórcio no Centro de Políticas de Saúde de Duke-Margolis para discutir formas de cobrir estes custos, de que fazem parte companhias como a Spark, Bluebird Bio e Pfizer, e seguradoras como a Harvard Pilgrim e Anthem.

«Temos de passar de um sistema de Saúde do século XX para um sistema de Saúde do século XXI», disse Jeff Marrazzo, CEO da Sparks, que desenvolve o Luxturna, em declarações ao STAT. 

As terapêuticas genéticas consistem na inoculação de vírus armados com ADN capaz de corrigir processos moleculares defeituosos em doenças hereditárias.
São dispendiosas, em parte porque estes vírus são mais difíceis e demorados de fabricar do que um medicamento-padrão. Por outro lado, as companhias têm de dedicar vários anos a pesquisa e desenvolvimento antes de conseguirem uma abordagem que mereça a aprovação da FDA.

E na maior parte das doenças o número de afetados é relativamente pequeno. 

Porém, se bem sucedidas, estas terapêuticas podem poupar muito dinheiro aos doentes e às seguradoras. Os tratamentos disponíveis para a hemofilia, por exemplo, custam centenas de milhões de dólares por ano; se um doente puder ser curado com uma inoculação – mesmo que custe um milhão – essa terapêutica pode ser muito custo-efetiva.
O principal conceito em que o consórcio trabalha é

João Paulo de Oliveira

Jornalista

o de pagamentos baseados em valor: o doente ou a seguradora só paga o tratamento se este se demonstrar efetivo.
E os custos poderiam ser diferidos ao longo de vários anos, e suspensos no caso de falha na resposta.

A Novartis está a dar os primeiros passos nesta direção com o seu recentemente aprovado medicamento oncológico Kymriah.
Custa 475 000 dólares, mas a Novartis só é paga se houver sinais de remissão do cancro um mês após o tratamento.

Esta estratégia faz todo o sentido, reconhece Nick Leschly, CEO da Bluebird Bio, mas apresenta vários desafios: que acontece se o doente muda de seguradora depois do tratamento?
Quem assegura os restantes pagamentos?
E se o doente deixa de comparecer aos controlos para determinar se a terapêutica continua a resultar, fugindo aos pagamentos por fazer?

Se um medicamento como o Kymriah parece ser efetivo após um mês, levando a seguradora a pagar o seu preço total, e na semana seguinte o cancro recidiva?
Poderá a seguradora recuperar parte do pagamento?

Os especialistas concordam em que não existe um mecanismo que permita a uma companhia estender o pagamento de um milhão ao longo de vários anos, enquanto avalia a saúde do doente e a resposta ao tratamento a intervalos regulares.

À medida que mais terapêuticas genéticas chegam ao mercado, os peritos reclamam um novo nível de cooperação entre responsáveis políticos, companhias farmacêuticas e seguradoras para construírem modelos racionais de pagamento.

«Mas estamos confiantes», disse Leschly ao STAT.
«Se alguém tem uma doença muito grave e podemos curá-la, o sistema encontrará forma de o fazer».

17JPO18A 
23 de Outubro de 2017
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